Sexta-feira, Fevereiro 24, 2012

VALEU, NEI LOPES!

Como o dono desse Lote não divulgou a homenagem que recebeu esse ano do Bloco Carnavalesco Sorri Pra Mim, o editor deste blog, numa atitude de absoluta insubordinação, publica aqui a letra do samba que foi cantada na terça-feira de carnaval no desfile em Vila Isabel.

Ouça o samba aqui: VALEU, NEI LOPES!








XANGÔ DA MANGUEIRA EM 4 CDs

A propósito do lançamento em CDs da discografia completa do grande Xangô da Mangueira, o Velhote do Lote, atendendo a solicitação do excelente jornalista Luiz Fernando Vianna, escreveu o texto abaixo, transcrito em parte numa recente edição do jornal O Globo.

Trata-se de uma modesta mas sincera homenagem a um sambista de verdade, que deixou grande saudade entre seus admiradores, como este criado que vos fala.

Vamos lá!

**

Ao contrário do que muita gente supõe, o partido-alto não é essencialmente um “desafio”, uma competição, como são as cantorias nordestinas, complexas e com regras muito rígidas. Partido-alto é brincadeira, na qual mais se destacam não exclusivamente os repentistas, criadores de versos sempre improvisados, mas principalmente os que conseguem encaixar na métrica e no ritmo propostos, quaisquer versos, desde que sobre o tema versado.

Os partideiros que têm essa habilidade muitas vezes se servem mais da memória que do improviso. Mas para tanto precisam, isto sim, é ter uma vivência da poesia popular, folclórica, aprendida nas brincadeiras de roda e em outras rodas, vida afora.

Xangô da Mangueira nasceu em 1923 no Estácio, filho de uma mineira de Ubá e de um paulista de Campinas. Na infância, morou na rural Paracambi, ex-Tairetá; e depois no subúrbio de Rocha Miranda, onde se fez sambista, freqüentando os vizinhos redutos de Madureira, Oswaldo Cruz e Bento Ribeiro. Esses marcos geográficos, além das origens familiares, foram decisivos na formação do grande partideiro que foi. E seu trabalho no Cais do Porto, mais tarde, fechou o círculo de seu aprendizado, pois o cais e a Zona Portuária do Rio foram, por razões históricas, fundamentais na difusão da mais pura tradição do samba.

Lembremos que grande parte das trovas, quadras e outros tipos de estrofes da poesia popular se iniciam por versos padronizados, chamados “pés-de-cantigas” ou “versos-feitos” (“Vou-me embora, vou-me embora”; “Da Bahia me mandaram”; “Lá em cima daquele morro” etc.). Xangô, como Clementina de Jesus, por exemplo, conhecia muitos deles e os usava, com muito talento, em suas intervenções nas rodas de partido.

Essa foi, no nosso modesto entender, sua identidade como partideiro e sua maior credencial. Talvez não tivesse o dom do improviso de Aniceto do Império, nem a verve dos geniais Padeirinho da Mangueira e Geraldo Babão, inesquecível compositor do Salgueiro. Entretanto, somando seu conhecimento a uma voz prodigiosa, a uma elegância inata e ao porte aristocrático de um verdadeiro Xangô, Seu Olivério Ferreira cravou o nome na História do samba e em especial do partido-alto, que é o samba dos bambambãs, dos excelentes, dos proeminentes. Dos bambas que não bambeiam.




Quinta-feira, Fevereiro 16, 2012



NEM MELHOR NEM PIOR:
APENAS UMA PAIXÃO HEREDITÁRIA.
QUE SE RENOVA, DE AVÔ A NETOS,
A CADA CARNAVAL.


**

VISITANTES DO LOTE,
SAMBEM COM MODERAÇÃO, HEIN ?!
BOM CARNAVAL !!!




Segunda-feira, Fevereiro 13, 2012


Orquestra Céu na Terra - divulgação

CARNAVAL TAMBÉM PEDE MÚSICA BOA

Dia desses, muito apropriadamente, o experiente músico Henrique Cazes publicou no jornal um artigo intitulado “Muito bloco e pouco samba”. E o foco era a perda de essência do samba que anda acontecendo no carnaval carioca.

Concordamos com o Cazes, irmão do competente percussionista Beto. Só que, para nós o foco deveria ser outro e encaminhado através da seguinte pergunta:

POR QUE OS BLOCOS NÃO DEIXAM O SAMBA EM PAZ E NÃO PROCURAM OUTROS CAMINHOS MUSICAIS? (Rimamos sem querer).

O caso é que os “blocos de camiseta”, quase todos, estão com “encosto” de espíritos de escolas de samba que já morreram e não sabem. E, aí, tome-lhe de concurso para escolha do samba; mestre sala/porta-bandeira; “mestre” de bateria; “puxador”...

POR QUE NÃO CANTAM MARCHINHAS? Por que, em vez de baterias, não contratam bandas de música à vera, como em Recife e Olinda? Ah, sim! Só percussão, sai muito mais barato. E no Rio, sabe como é, né? Tá bão!

Em Maceió – cidade onde todo mundo é rico (rs,rs,rs) – esta semana, naquela extensão de praias de bacana que tem lá (Pajuçara, Jatiúca, Ponta Verde etc.) saiu uma super-orquestra, de 600 músicos, dividida em 15 bandas de 20 figuras. Pelo menos foi isso que disse a TV.

Não sabem onde contratar? É só ir à Parada de 7 de Setembro e dar um cartãozinho com telefone pra cada um daqueles Mestres (eles, sim!) das nossas Forças Armadas e Auxiliares (essas, se não estiverem em greve).

Ah! Custa caro? E os “abadás”? E as camisetas ilustradas pelos grandes designers cariocas?

**

Mas, felizmente, já tem uma garotada aí sacando isso, que nós já observamos há muito tempo.

É o pessoal da Uni-Rio, da Escola de Música da UFRJ... Gente que sabe das coisas e tem imaginação. Gente que sabe que samba é samba; escola de samba é escola de samba; que carnaval é folia, maluquice, loucura, transgressão... E que música boa é igual a copo fino: com ela, a cerva gelada desce melhor.




Quarta-feira, Fevereiro 08, 2012



“IRMÃOS UNIDOS DA FONTINHA”

De maneiras que, como eu ia dizendo, naquele tempo, carnaval de se apreciar era o rancho e as grandes sociedades. O resto era “coisa de preto”, como se dizia:

-- Ih! Eu o-dei-o esses cordões! O-dei-o! Vamos embora.

-- Ah, Janjão! Que chato! Por quê?

-- Isso me assusta. É uma selvageria!

-- São reminiscências africanas, meu santinho!

-- Dessa forma, nós nunca seremos respeitados como nação civilizada. Isso tudo é muito primitivo. Vamos embora!

-- É o delírio da vida, João Paulo! Esses cordões são o último elo entre o carnaval e as crenças pagãs. E isto é muito interessante.

-- Mas esse baticum, essa pancadaria, essa melopéia bárbara, isso é enervante, Murici! Vamos logo!

-- Não! Espera! Escuta! Ouve só a polirritmia: os xequerés, os ganzás... Observe a variedade de timbres dos tambores: o ilu, o batá, a puíta... São remanescentes dos cucumbis!

-- Você com essa mania de africanista, não sei porque não vai viver no Congo...

-- Um dia, você ainda...

-- Meu Deus! Uma cobra!

-- Onde?

-- Enrolada no pescoço daquele...

-- É de massa, João! Papier maché.

-- Aiiii !!! Um jacaré! Olha lá!

-- É empalhado, querido...

(...)

-- Aahhh! Agora, sim: cavaquinhos, violões, vozes em ritornello... Isto agora é música!

-- É um rancho.

-- Ora, o teu cordão também é um rancho. Pois rancho é qualquer grupo de pessoas andando, meu querido!

-- Rancho carnavalesco, eu quis dizer. É diferente do cordão; como é diferente das sociedades recreativas.

-- Então, você fica lá com o teu cordão que eu vou com as Mimosas Cravinas.

-- Você é mesmo um enjoado, hein? Vai, vai! Faça bom proveito. Mas depois não venha me dizer que a cigana te enganou.


**

Depois daquela Festa da Penha a gente só pensava em como ia fazer pra sair no carnaval. Mas sair direitinho, organizado, com licença da polícia, pra evitar confusão.

-- Carnaval animado esse, hein, Moreira? Onze mortos e 32 feridos.

-- Essa negrada sai mesmo é pra se matar, Eponina! Trouxeram isso lá da África. Não há meio de eles se entenderem.

-- São brabos, mesmo! Mas não são todos. Os dos ranchos brincam direitinho.

-- Mas esses já são remediados: alguns sabem ler e escrever, almoçam e jantam. E nem todos são crioulos.

-- Então, porque o governo não bota essa gente na escola e dá comida?

-- E eles querem? Isso é uma raça braba, meu anjo! São selvagens, mesmo!

-- E se o governo incentivasse eles a imitar os ranchos, a sair organizados, fantasiados direitinho, com uma música boa? Era até uma forma de poder controlar, de conter essa violência, Moreira!.

-- Bem... Aí...

**

Então, pega daqui pega dali, uma idéia daqui outra de lá, craneamos um estatuto e criamos uma sociedade. Que não era um cordão. Podia ser um rancho, e podia ser um bloco. Mas a gente resolveu chamar de escola. Escola de samba. Como já tinha no Estácio. E como o pessoal lá da Estrada do Portela já tinha também.

A coisa então ficou assim: meio lá e meio cá.

Naquela época, o luxo da mocidade era o “tiro de guerra”. Era um troço que já vinha desde 1902, lá do Rio Grande. E ganhou impulso em 16, com o serviço militar obrigatório. O negócio era formar reservistas, buchas de canhão. Mas de modo que a moçada fosse treinada sem ter que largar o emprego ou deixar de estudar. Aí, a instrução era de noite, em ou em domingos e feriados. E as pequenas ficavam doidas vendo os rapazes marchando, formando, naquela de “escola, sentido!”, “escola, descansar!”. Nunca se falou tanto em escola, gente boa! Escola pra lá, escola pra cá! Aí, de repente, a gente estava chamando os blocos de carnaval de “escola”. Escolas de samba! Mesmo porque o pessoal do Ameno Resedá dizia que eles eram um “rancho-escola”. Aí, a nossa escola se chamou “Irmãos Unidos da Fontinha”.

(Nei Lopes - Do romance “A Lua triste descamba” - Pallas Editora, no prelo, para lançamento em maio de 2012)




Terça-feira, Fevereiro 07, 2012



DANÇA DE VELHO
(Republicando, a pedido - com ilustração da época)


Aqui no Lote e adjacências, com as crianças correndo pra baixo e pra cima, com suas fantasias de bate-bola, pânico, bala-perdida, caveirão e similares (depois que o Halloween chegou por aqui, fantasia não é mais graça: é só terror), já é carnaval. Tanto que a placa “Vende-se um Gorila”, na casa aqui em frente, só assusta os visitantes. E, por isso, ninguém se espantou quando o coroa estranho entrou no bar da simpática inglesa Ms. Hanna Bowling, sentou, pediu um cálice de parati com ferné, uma cerveja Teutônia e uma porção de tremoços.

De terno e sapato branco, colete, chapéu panamá de aba curta, o pescoço ocupado com um plastrom azul piscina combinando com a fita do chapéu; e, no braço esquerdo, a rosácea bordada, onde se lia , apenas a expressão “Velha Guarda”, o coroinha já estava pronto. E, na nossa mesa, o papo era sobre escola de samba.

Discutíamos sobre ensaios técnicos, recuos táticos, coreografias, protótipos, cronometragens, essas coisas de sambista. Mas aí o nego véio, já no quarto cálice e na segunda ampola, não resistiu, meteu o bedelho no nosso papo e solou um choro de Pixinguinha:

– Vocês querem saber de uma coisa? Escola de samba era na Praça Onze, no meu tempo! Naquele tempo, a comissão de frente era de 10% sobre o faturamento bruto. Nunca menos que isso. E mestre-sala não era só mestre-sala, não! Era mestre-sala, cozinha, banheiro, dependências de empregada... E ainda tinha área de lazer. Vocês ‘stão pensando o quê? Bateria? Não era isso de hoje, não! Era bateria mesmo, com aquele grupo de pilhas, acumuladores ou condensadores, ligados em série ou em paralelo, carregados e descarregados simultaneamente. A intensidade da corrente era tal que dava pra iluminar isso aqui tudo, até lá na Dutra! E as pastoras?! As pastoras eram tranqüilas, serenas, pregando e tal, mas sem meter a mão no bolso da gente e fugir pra Miami. Naquele tempo nenhuma pastora tinha dinheiro em paraíso fiscal, não, meu camarada! Era séria a coisa. E quando o diretor de harmonia gritava pra uma delas “dá nas cadeiras, cabrocha!”, ela não dava só nas cadeiras, não! Dava no sofá, na poltrona, no divã, na espreguiçadeira. Dava mesmo! E os passistas, quando o diretor mandava eles dizerem no pé, eles se envergavam todos, até encostar a boca no tornozelo e aí mandavam um “alô” pedindo pro povo abrir alas e saudando os órgãos da imprensa. E os órgãos da imprensa naquela época eram só cérebro e coração, meus queridos! E ainda tem mais: pra entrar na escola tinha que saber pelo menos fazer uma letra, assim ó...

Nessa, a gente sem entender absolutamente nada, o coroa se levanta e risca, no ar e no chão, com a ponta do pé, um “a”, um “e”, um “i”, um “o” e um “u”, como – dizem – faziam, no carnaval dos cordões, antes das escolas, os “velhos”. E tudo mais ou menos naquele tipo de dança que ainda se usa, em Cuba, nas figurações da colúmbia, a rumba mais tradicional, vinda de lá do velho Congo.

– Esse coroa é doido! – diz o cronista carnavalesco Léo Lindolfo.

– Doidos somos nós. – diz o Rubem Confete. – Esse velho sabe das coisas, como quase todo velho. Só está é misturando um pouquinho as estações. Mas ainda sabe muito bem “dançar de velho”, como os malandros do bom tempo. E nós aqui nessa bobeira de ensaio técnico, protótipo, cronometragem...




Quarta-feira, Fevereiro 01, 2012



DOIS HONROSÍSSIMOS CONVITES, QUASE IRRECUSÁVEIS

O Velhote do Lote recebeu dois convites em princípio irrecusáveis. Um para participar do desfile do Império Serrano em homenagem a Dona Ivone Lara; outro, para participar do desfile da Vila, tematizando Angola.

São convites em principio irrecusáveis, porque a grande artista que é Dona Ivone (que já homenageamos com o samba “Senhora da Canção”) merece tudo; e porque o Império faz parte, embora indiretamente, da nossa história, nós que nascemos e fomos criados na velha e tradicional Freguesia do Irajá, da qual tanto a Serrinha quanto Oswaldo Cruz faziam parte; e porque mantemos, na tradicional escola, algumas amizades e parcerias muito importantes.

Quanto a Vila e Angola, também têm tudo a ver. Porque foi através da Vila e, mais especificamente, de seu patriarca Martinho que tivemos a emoção de conhecer, em 1987, esse país fundador da nossa ancestralidade. Mas pedimos licença, publicamente, para agradecer os dois honrosos convites e declinar da honra de pisar o Sambódromo com a Vila e o Império.

Nossa presença no mundo das escolas de samba foi longa (1963 – 1995) mas não deixou quase marcas. A não ser na nossa emocionalidade e na nossa obra literária, onde as referências são mais do que freqüentes. Quem leu “Vinte Contos e Uns Trocados” e “Esta Árvore Dourada Que Supomos” sabe o que eu quero dizer.

Além disso, o tititi da avenida não combina mais com o nosso estilo de vida, pois, hoje, cá entre nós, estamos mais pra Presidente Vargas do que pra Marquês de Sapucaí.

Entretanto, estaremos, diante de nossa TV Philco, de 12 polegadas, em preto e branco (subindo de vez em quando no telhado, pra posicionar a antena), vibrando com as duas escolas. Sem deixar, é claro, de torcer pela vitória da Academia do Salgueiro. Pois essa, ah!... Deixa pra lá.