Nosso amigo, parceiro e “aralorixá” (esta foi inventada agora) Luís Filipe de Lima é um cracaço. Violonista da pesada, melodista talentoso, articulador de projetos mil e arranjador altamente criativo, nos deu, dias atrás, em Brasília, onde cumpríamos mais um item de nossa agenda artística comum, um presente valiosíssimo: o álbum duplo É com esse que eu vou: o samba de carnaval na rua e no salão.
Pra quem gosta de samba, mas não curte carnaval; ou que ainda não entendeu direito que samba e escola de samba não são a mesma coisa... Para quem não sabe que muito do que hoje se classifica como “MPB” é samba, e do bom... Para quem, afinal, gosta mesmo é de música boa, esse álbum (2 Cds) é um presente na medida.
A história começou quando os pesquisadores Rosa Maria Araújo, atual presidente do Museu da Imagem e do Som do RJ e Sérgio Cabral, veterano e conceituado jornalista e critico de música popular, conceberam um espetáculo que revive a graça e a beleza das antigas marchinhas carnavalescas. Sucesso absoluto, em cartaz há vários anos, o espetáculo, intitulado “Sassaricando” (nome de uma marchinha de 1952) motivou um disco. E a ideia acabou levando também ao álbum ora comentado, o qual, no sentido inverso, redundou em um espetáculo, também em cartaz, com grande afluência de público.
“É com esse que eu vou”, o álbum duplo, compreende dois CDs, contendo 82 sambas agrupados em oito unidades temáticas que abordam assuntos opostos e/ou complementares como os seguintes: rico e pobre; orgia e trabalho; cidade e morro; feminismo e machismo; briga e paz. E termina com uma seqüência de “apologia ao samba”.
O período abrangido pelos discos vai de 1968, o que já induz à constatação de que a era dos grandes sambas de carnaval se encerra na década de 1960. E foi realmente assim, pois, na década seguinte, os sambas-enredo das escolas (após o “Pega no Ganzê” salgueirense) ganham a hegemonia das execuções radiofônicas.
No repertorio do álbum, é interessante notar como alguns dos sambas selecionados saíram do âmbito do carnaval para se tornarem peças de resistência de repertórios unanimemente aclamados, como os de Elis Regina e Milton Nascimento. É o caso, por exemplo, de Não me diga adeus, de 1948; Me deixa em paz, 52; A fonte secou, 54; e Mora na filosofia, 55.
O primeiro tem como segundo nome do trio de parceiros “Luiz Soberano”, pseudônimo de Ednésio Luís da Silva, sambista ligado à extinta escola de samba carioca Paz e Amor, vizinha da Portela, o qual foi, além de pandeirista de orquestras, autor de cânticos rituais de umbanda e dono de outro grande sucesso do carnaval de 48, o samba Enlouqueci. Já os três outros sambas, levam a assinatura de Monsueto (Campos de Menezes).
Popularizado como comediante através de programas humorísticos na televisão, Monsueto foi compositor inspirado, dono de poética originalíssima e criador de belas melodias, como as das obras mencionadas. Sambista, era oriundo da Praia do Pinto, núcleo favelado da zona sul carioca, destruído num incêndio supostamente provocado por interesses da especulação imobiliária, na década de 1960.
Lendo o encarte do É com esse que eu vou (prazer que a simples audição de musicas baixadas pela internet não possibilita), verificamos que o repertório tem como principalmente selecionados, além daqueles assinados pelos indispensáveis Ataulfo, Ary Barroso e Noel, sambas dos seguintes autores: Herivelto Martins e Wilson Batista, com 5 cada um; Roberto Martins e Haroldo Lobo, com 4; e Roberto Roberti, com 8.
E aí, surge a questão: quem é ou foi esse compositor de sobrenome italianado, recorrente em todas as listagens de grandes músicas do carnaval brasileiro?
O que sabemos é que se trata de um carioca de 1915, que estreou na música profissional aos vinte anos, tendo como parceiro principal Arlindo Marques Júnior e sendo autor de grandes clássicos como Abre a janela, de 1938; Eu não posso ver mulher, 41; Isaura, 45, etc., além dos incluídos no álbum focalizado. No carnaval de 41, Roberti fez sucesso também com um samba cujo título hoje soa bastante incômodo: Nega pelada, me deixa. Mas esse era o espírito da época. Não fosse assim, em 1950, o mulato Evaldo Ruy não teria, em parceria com Fernando Lobo, feito o sucesso que fez com outro que assim dizia: “Tava jogando sinuca,/ uma nega maluca/ me apareceu/ Vinha com o filho no colo /e dizia pro povo /que o filho era meu”.
O samba, uma batucada contagiante, fez tanto sucesso que a “Nega Maluca” virou uma fantasia de carnaval e um símbolo da alegria descompromissada de então. Um símbolo racista, sim; um estereótipo. Mas, no tempo em que o carnaval era realmente folia, transgressão, e não apenas um nicho mercadológico, a gente até achava engraçado.
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Dito isso, fica aqui a sugestão: para quem gosta de samba mas não curte carnaval ou vice-versa, uma grande pedida, nestes dias, é o álbum duplo “É com esse que eu vou”, com sambas ótimos, arranjos e interpretações formidáveis (como se dizia nos anos 50), lançado pela gravadora Biscoito Fino.
Curtam os ótimos arranjos e interpretações, e prestem atenção no vozeirão sambístico do MAKLEY MATOS (o último, na cozinha do bonde, lá em cima) mistura boa de João Nogueira e Roberto Ribeiro que Brasília, em boa hora, mandou pra Lapa, pro Rio e pro Brasil.
Em novembro, publicávamos aqui, a propósito do culto liderado pela pastora Ana Lúcia de Andrade, o texto “Uma nova igreja negra?”.
Nele, levantávamos a possibilidade de, com essa modalidade de culto, estar nascendo uma nova forma religiosa, um novo pentecostalismo étnico, tendo a ver, por exemplo, com a “teologia negra” pregada em outras vertentes.
Em nosso socorro, veio o amigo Rafael César, sociólogo, editor do precioso livrinho “Cotas Raciais: por que sim?”, escrito pela Cristina Lopes e publicado pelo IBASE em 2008, que mandou assim:
“Difícil dizer o que é e o que vem, mas tenho umas pistas. Primeiro de tudo, esse tipo culto é uma modalidade presente em algumas igrejas evangélicas - sempre frequentadas por uma esmagadora maioria negra - chamado normalmente de RETETÉ e, às vezes, de REPLEPLÉ.
“Esse termo é uma expressão corrente no meio evangélico para designar cultos em que há presença de batuque e transe, e tem em comum o fato de as pessoas ficarem girando, girando, girando, exatamente como no vídeo que você mostrou no post, mas também com uns gestuais típicos de cavalos de umbanda no momento em que estão dando passagem, cruzando braços com os dedos indicadores em riste e assim por diante”. (...)
“É algo bastante discriminado dentre os cristãos, que associam o reteté aos cultos de - assumida - origem afro. Têm toda razão em associar, só não têm razão em discriminar, é claro. Já vi um vídeo no youtube em que as pessoas entravam em transe, caíam no chão... e eram cobertas por panos brancos! Tudo muito parecido. (...)
“Aliás, a primeira coisa que fui fazer foi procurar o reteté no teu Dicionário Banto, porque mui possível e provavelmente esse termo é obra de nossa incontornável memória linguística e cultural banta. Não está lá, mas acho que devia, hein? Tem alguma sugestão etimológica? (Dizem os adeptos que o termo vem do italiano, relacionado com alguma coisa de culinária, mistura, mas não creio.)”
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E foi por aí, o Rafael, sem imaginar que, logo,logo, a pastora do “reteté” ia aparecer no programa da Regina Casé e bombar na TV e no Segundo Caderno de O Globo onde manifestou seu grande desejo de gravar um CD e fazer sucesso.
Não imaginava também o Rafael que o REPLEPLÉ, que virou “reteté”, parece vir mesmo é do fon, língua do Benin, antigo Daomé, cujos resíduos sobrevivem no Brasil nos cultos do chamado JEJE, irradiados principalmente a partir de Cachoeira, no Recôncavo Baiano.
Nessa língua, o termo ‘kplekplé” (de “kplé”, reunir) significa acúmulo, multidão, “em grande número”.
Na Bahia, o povo do jeje interagiu bastante também com o povo dos cultos bantos, angola e congo. E talvez seja dessa boa mistura que saiu o “reteté”.
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Agora – confessamos – já não temos mais tanta empolgação quanto às possibilidades do “reteté”. Mas ficamos felizes com a revelação artística da pastora Ana Lúcia, cuja carreira de “pop-star” agora parece que... esquenta!
“BRANCO, Waltel. Músico brasileiro nascido em Paranaguá, PR, em 1929. Diplomado em violoncelo e violão pela antiga Escola Nacional de Música e discípulo do mestre espanhol Andrés Segóvia (cf. Grande Enciclopédia Delta Larousse,1970), na década de 1950 viveu nos Estados Unidos, onde trabalhou com o prestigiado violonista Laurindo de Almeida. De volta ao Brasil, destacou-se como guitarrista de jazz, compositor de trilhas para cinema e tv; e como arranjador e regente na Rede Globo de Televisão”.
O texto acima, rápido e rasteiro, integra o verbete da edição 2011 da Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana no qual tentamos recuperar a figura de um dos maiores músicos brasileiros de todos os tempos. Mas o caso é que não havia como fazer registro mais amplo, tal a amplitude e a diversidade do trabalho de Waltel, herói da guitarra.
“Ele regeu diversas orquestras, foi um dos precursores do jazz fusion, influenciou Baden Powell e o violão de João Gilberto, fez trilhas para cinema entre as quais um dos mais famosos temas da sétima arte, fez trilhas para novelas, arranjos e direções musicais” – está lá no Blog do jornalista e músico Luiz Nassif, em recente postagem.
Agora, chega ao público o CD “O Violão Plural de Waltel Branco”. No qual violonistas como Guinga, Paulo Bellinati, Marco Pereira, Ulisses Rocha, Quarteto Maogani e vários outros rendem tributo ao grande Waltel Branco, gênio afrobrasileiro. Que inclusive trabalhou com Henri Mancini na trilha do filme “A pantera cor de rosa” e arranjou em samba alguns temas do célebre compositor e maestro, perpetuados no disco cuja capa fecha este post.
Finzinho do ano, em boa hora, o suplemento Prosa & Verso do jornal O Globo colocou Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica (4 vols. Belo Horizonte, Ed. UFMG, 2011) entre as dez melhores obras literárias brasileiras publicadas em 2011. Não adiantou a pressão do racismo que não ousa dizer seu nome, o qual se serviu do velho argumento de que não existe Literatura Negra no Brasil para “detonar” a gigantesca empreitada capitaneada pelo professor Eduardo de Assis Duarte.
A literatura repertoriada nessa obra monumental, agora justamente premiada, representa um conjunto de textos, de autores afrodescendentes, que, de uma forma ou de outra, encerram referências à identidade, à ação e à memória do povo afrobrasileiro. E como tal deve ser vista e respeitada.
O próprio Eduardo A. Duarte já havia, em obra anterior, Machado de Assis Afrodescendente (Rio, Pallas, 2007), destacado esse traço na obra machadiana. Como Uelinton Farias Alves já tinha feito com a poesia de Cruz e Souza.
A literatura escrita por afrobrasileiros (“pretos” ou “pardos”) que se vejam e sintam como tal, é sempre uma parte da Literatura Negra que se produz no Brasil desde a carta escrita, no século XVII, por Henrique Dias. Nela, o “comandante dos negros” reclamava às autoridades coloniais do abandono e do descaso que recaíra sobre sua pessoa, depois de ter se destacado com heroísmo na expulsão aos holandeses de Pernambuco.
Então, o destaque dado à “nossa” Antologia é uma conquista que vale a pena comemorar. De preferência, com a aquisição dessa obra indispensável.