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Quinta-feira, Novembro 24, 2011
Segunda-feira, Novembro 21, 2011
Oxum na beira do rio Consciência Negra – 2 AS RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA E A LEI 10.639 Todo grupamento humano tem uma filosofia. E é por meio dela que cada povo explica suas próprias origens, o legado recebido de sua ancestralidade remota, o desenvolvimento de sua História, como também atribui toda essa causalidade dedicando-se a uma Religião. Na África, as religiões tradicionais, embora tenham cada uma suas peculiaridades, todas comungam de uma idéia central, segundo a qual a vontade do Ser Supremo, incriado e criador de todas as coisas, manifesta-se por meio de heróis fundadores – elos entre os vivos e os espíritos dos antepassados. Diante disso, em 1950, no texto Philosophie et religion des noirs, o antropólogo francês Marcel Griaule indagava se seria possível aplicar as denominações “filosofia” e “religião” à vida interior, ao sistema de mundo, às relações com o invisível e ao comportamento dos negros. Perguntava-se, ainda, Griaule, sobre a existência de uma filosofia negra distinta da religião e de uma religião independente, de uma metafísica, enfim. Ao final de sua indagação, o cientista afirmava a existência de uma ontologia negro-africana, concluindo pela antiguidade do pensamento africano, nivelando algumas de suas vertentes a concepções filosóficas asiáticas e da Antiguidade greco-romana; e ressaltando a necessidade e a importância do estudo desse pensamento. Quatro décadas depois, o padre espanhol Raul R. de Asúa Altuna (Cultura Tradicional Bantu, Arquidiocese de Luanda, 1993), fazendo eco a Griaule, afirmava: “Basta debruçarmo-nos sobre esse conjunto de crenças e cultos para encontrar uma estrutura religiosa firme e digna.”. Na contramão dessas concepções, no Brasil da década de 1940, as religiões de origem africana eram até tipificadas como “contravenção penal”. E, para tanto, muito contribuía a indústria cinematográfica hollywoodiana, a qual, após a ocupação norte-americana do Haiti (1915-1934), moldou, no imaginário dos povos que atingia, como representação da religiosidade africana, todo um séqüito de zumbis, bonecos espetados de alfinetes etc. Num estágio posterior, uma das faces de nossa religiosidade, passou, a partir da França e da Bahia, a desfrutar de certo status, sendo legitimada por intelectuais e artistas, bem como folclorizada pela indústria do entretenimento. É essa a origem das encenações “afro” no teatro de revista; a chegada ao rádio e ao disco de cânticos rituais estilizados para o consumo; os enredos das escolas de samba evocando a “África distante” etc. Tudo isso – apesar de grandes esforços contrários – levou à superficialização, à primazia dos aspectos exteriores em detrimento da reflexão sobre o sentido abrangente, sobre a investigação teórica do ser africano e seus desdobramentos em terra brasileira. Os tempos atuais trouxeram outro inimigo ainda mais poderoso. Montadas no cavalo do poder econômico e brandindo a lança da intransigência, uma nova força opressora, baseando-se em um livro eminentemente étnico, como é o conjunto de textos do Antigo Testamento, completou a tarefa iniciada por Hollywood a partir do Haiti. Foi aí que tivemos a ideia de Kitábu, o livro do saber e do espírito negro-africanos (Ed. Senac-Rio, 2005), no qual apresentamos um conjunto de textos filosóficos, sagrados e históricos, emanados do continente de origem e das regiões da Diáspora, organizados por “livros”, capítulos e versículos, procurando demonstrar o que Marcel Griaule e o padre Altuna tinham apontado. Nosso livro, agora à procura de uma nova casa editora (o contrato com a Senac já foi cumprido), resume os seguintes princípios: O sistema de religiões nascido na África e desenvolvido nas Américas, desde os tempos coloniais, baseia-se na crença em um Ser Supremo. Criador do universo e fonte da vida, esse Ser infunde respeito e temor. Mas é tão infinitamente superior e distante que não é cultuado, ou seja: não pode nem precisa ser agradado com preces nem oferendas. Abaixo dessa Divindade Suprema situam-se, nesse sistema, seres imateriais livres e dotados de inteligência, os quais podem ser gênios ou espíritos. Os gênios são seres sem forma humana, protetores e guardiões de indivíduos, comunidades e lugares, podendo, temporariamente habitar nos lugares e comunidades que guardam, e também no corpo das pessoas que protegem. Já os espíritos são almas de pessoas que tiveram vida terrena e, por isso, são imaginados com forma humana. Podem ser almas de antigos chefes e heróis, ancestrais ilustres e remotos da comunidade, ou antepassados próximos de uma família. Ao contrário do Ser Supremo, gênios e espíritos precisam ser cultuados, para que, felizes e satisfeitos, garantam aos vivos saúde, paz, estabilidade e desenvolvimento. Pois é deles, também, a incumbência de levar até o Deus supremo as grandes questões dos seres humanos. Assim, já que contribuem também para a ordem do Universo, eles devem sempre ser lembrados, acarinhados e satisfeitos, através de práticas especiais. Essas práticas, que representam o culto em si, podem, quando simples, ser realizadas pelo próprio fiel. Mas quando complexas devem ser orientadas e dirigidas por um chefe de culto, um sacerdote. Dentro dessas linhas gerais foi que as religiões africanas chegaram às Américas e ao Brasil. ** N.A. Dias atrás, no Paraná, num evento promovido pelo Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos, NEEA, da Universidade Estadual de Londrina, professores nos falavam da dificuldade de abordar o tema “religiões negras” no âmbito da aplicação da Lei 10.639. O presente texto é uma tentativa de resposta, e uma homenagem ao trabalho que o NEAA vem realizando. Quarta-feira, Novembro 16, 2011
Abdias Nascimento – c. 1950 “PRECONCEITO CRONOMETRADO”: Rádio-reportagem da CBN ganha Prêmio Abdias Nascimento Os repórteres Eduardo Compan e Leandro Lacerda, da Rádio CBN-RJ, com a matéria “O Preconceito Cronometrado”, foram vencedores do 1º Prêmio Abdias Nascimento de Jornalismo, categoria “Rádio”, entregue no último dia 7. Não noticiada pela grande imprensa, a premiação deveu-se a um trabalho em que os jovens rádio-jornalistas, percorrendo diversas lojas comerciais na Zona Sul carioca, cronometrando e comprovando, passo a passo, o preconceito racial, sempre negado pelos arautos incondicionais da convivência democrática e da aceitação das diferenças na sociedade brasileira. A festa de entrega do prêmio foi no Teatro Oi Casagrande, com ocerimonial muito bem conduzido pelos jornalistas Flávia Oliveira, colunista do Globo e comentarista da Globonews, e do repórter Rogério Coutinho, da Rede Globo (cf. José Reinaldo Marques, em http:// akosfena.blogspot.com – “Demorou, mas o racismo ganha espaço na mídia”). Mas a matéria da CBN não saiu no jornal.
Toussaint L’Ouverture (1743-1803) BRECHTIANA (Em memória de Abdias) Primeiro, Usurparam a matemática A medicina, a arquitetura A filosofia, a religiosidade, a arte Dizendo tê-las criado À sua imagem e semelhança. Depois, Separaram faraós e pirâmides Do contexto africano - Pois africanos não seriam capazes De tanta inventiva e tanto avanço. Não satisfeitos, disseram Que nossos ancestrais tinham vindo de longe De uma Ásia estranha Para invadir a África Desalojar os autóctones Bosquímanos e hotentotes. E escreveram a História ao seu modo. Chamando nações de "tribos" Reis de "régulos" Línguas de "dialetos". Aí, Lançaram a culpa da escravidão Na ambição das próprias vítimas E debitaram o racismo Na nossa pobre conta. Então, Reservaram para nós Os lugares mais sórdidos As ocupações mais degradantes Os papéis mais sujos E nos disseram: - Riam! Dancem! Toquem! Cantem! Corram! Joguem! E nós rimos, dançamos, tocamos Cantamos, corremos, jogamos. Agora, chega! (Nei Lopes) Segunda-feira, Novembro 07, 2011
LORD UELINTON TODO PROSA. E VERSO. Muita gente que leu o caderno Prosa & Verso de O Globo no último sábado, 5 de novembro, Dia da Cultura, talvez não saiba que o autor da alentada matéria sobre a militância política de Cruz e Souza, nosso maior simbolista, bem como da resenha sobre o mais novo livro do Velhote do Lote – ocupando os dois textos toda a nobre página 3 do suplemento – é um afrodescendente do subúrbio carioca. Ressaltamos essa circunstância pela invisibilidade de pretos e pardos (negros) na Literatura que se faz hoje no Brasil. Invisibilidade essa que, aliás, a mencionada edição do Prosa & Verso deu um largo passo para neutralizar, ao publicar longa entrevista com o professor Eduardo de Assis Duarte, da UFMG, organizador dos 4 volumes da antologia critica Literatura e Afrodescendência no Brasil, que chega agora ás livrarias. Pois o nosso “Lord Uelinton” (fidalgo, elegante, voz pausada ) é, sim, um negro nascido no subúrbio carioca em 1961. Escritor, jornalista e crítico literário, Uelinton Farias Alves (bem na foto, acima) especializou-se na vida e na obra de Cruz e Souza, tendo conquistado, em 1991, o Prêmio Sílvio Romero de Crítica e História Literária da Academia Brasileira de Letras com o livro Reencontro com Cruz e Souza (1990, 2ª ed. 1998);. Além dessa obra, o “Lord” tem publicados: O abolicionista Cruz e Sousa (palestras, 1987); Solano Trindade, tem gente com fome e outros poemas (antologia poética, organização, seleção e pósfácio, 1988); Poemas inéditos de Cruz e Sousa (Seleção de 60 poemas a partir do espólio literário deixado pelo poeta catarinense Araujo Figueredo: organização, introdução, notas, 1996); Formas e coloridos: Cruz e Souza (seleção de 25 contos e crônicas inéditos de Cruz e Sousa descobertos no jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio, entre 1890-91: organização, introdução e notas, 2000); Os crimes do rio vermelho (Romance, 2001), e Cruz e Sousa: Dante Negro do Brasil (Pallas, 2008), concorrente ao Prêmio Jabuti este ano. ** O fato de o nosso Uelinton ser agora um dos colaboradores do Prosa & Verso é altamente significativo. Salvo engano, é o primeiro afrodescendente a ocupar espaço tão significativo no ambiente literário. E o fato de sua estréia ter ocorrido no Mês da Consciência Negra certamente não foi uma coincidência, mas, sim, o reconhecimento de seu talento, sua capacidade e seu esforço.
Consciência Negra – 1 O PESO DA COR NO MERCADO DE TRABALHO Lemos hoje em O Globo (Coluna Panorama Econômico, 6.11.2011) que, na atualidade, em termos de emprego, o Brasil precisa corrigir principalmente as desigualdades motivadas pela cor da pele dos trabalhadores. A inquietante notícia tem como fonte estudo ainda inédito feito pelos economistas Fernando de Holanda Barbosa Filho e Samuel de Abreu Pessoa, do Ibre/EGV; que mostra, entre outras verdades, em números de 2009, as seguintes: -- Que em Recife, onde os negros (pretos e pardos) representavam 63,9% da população apta para o trabalho, o índice de desemprego chegava a 15,9%; -- Que em Salvador, onde os negros somavam 82,8 % da força de trabalho, esse índice era de 14,2%. -- Que no Rio, esses índices eram respectivamente de 44,9% e 18,4%. -- Que “os números da pesquisa mostram que o peso da cor prevalece sobre a escolaridade e qualificação profissional”. ** A coluna Panorama Econômico tem como titular a jornalista Miriam Leitão, destacada aliada na luta dos afrobrasileiros contra a exclusão. Mas a edição aqui referida é assinada por Regina Alvarez, colunista interina.
UMA NOVA IGREJA NEGRA? Desde a época escravista, em contato com as formas religiosas judaico-cristãs, nossos ancestrais africanos e crioulos sempre buscaram meios de adaptá-las à sua realidade. Foi assim com os santos católicos na forma mais conhecida daquilo que se convencionou chamar “sincretismo”. Foi assim, também, com as religiões chamadas protestantes ou evangélicas, em cuja Bíblia o africano escravizado encontrou textos que lhe recordavam sua situação. O cativeiro da Babilônia, com as profecias sobre sua salvação e a escravidão de Israel no Egito até a libertação por Moisés, são alguns desses escritos. O povo negro aglutinou todos esses relatos, e também elementos como o messianismo e a crença nos anjos, por exemplo; e ainda ingredientes como a possessão e a música que a induz. E aí estruturou, nas Américas, nas seitas de Renovação e de descida do Espírito Santo, a sua reinterpretação do protestantismo, fazendo de sua religiosidade, às vezes inconscientemente, um forte instrumento de ação política contra o racismo e a exclusão social. A cristianização do escravo negro por meio dos textos do Velho Testamento foi uma das bases de sua desafricanização, principalmente nos Estados Unidos. Mas, em contrapartida, representou um elemento de consolo e revigoramento. Lá, como enfatiza o escritor afro-americano Amiri Baraka (antes de sua conversão ao islamismo, quando ainda se assinava LeRoi Jones), a música do negro cristão tornou-se expressão do seu desejo de “cruzar o Jordão” e “ver o Senhor”. Assim, as imagens de seu cristianismo foram buscar paralelo entre suas dores e esperanças e as dos judeus dos tempos bíblicos, numa identificação que o cancioneiro gospel, dos negro spirituals, sempre reflete. No Brasil não foi muito diferente. E assim ocorreu, por exemplo, com João de Camargo, líder religioso de Sorocaba, SP. Nascido escravo em 1861, filho de uma curandeira, propriedade da família Camargo de Barros, aos 43 anos de idade, depois de passar longo tempo entregue ao alcoolismo, recebeu sua “revelação” e reconheceu-se profeta, conselheiro e médico dos pobres. Fundou a “Igreja Negra e Misteriosa da Água Vermelha” que, apesar das perseguições sofridas por seu líder, várias vezes preso sob acusação de charlatanismo, cresceu e tornou-se centro de peregrinações. No templo, ao redor do qual surgiu uma vila, nascida para abrigar os peregrinos, praticava-se um culto no qual tinham grande importância santos católicos negros, como Santa Ifigênia, Santo Elesbão e São Benedito, lá chamado Rongondongo, nome de evidente origem ou inspiração banta. Cada um desses santos, era, segundo Roger Bastide, associado a uma pedra polida, depositada aos pés de sua imagem, no altar, o que remete aos assentamentos dos orixás no candomblé. ** No momento deste texto, emerge na Baixada Fluminense uma seita evangélica criada e freqüentada basicamente por afrodescendentes (conforme fotos acima e link abaixo) onde, ao som de cânticos que evocam a umbanda, acompanhados por instrumentos do moderno samba, como tantãs, repiques de mão, pandeiros etc, rapazes negros de paletó e gravata e moças elegantemente trajadas, rodopiam e entram em transe. Vejam: http://www.youtube.com/watch?v=9hOy93yzSr0. O que será isso/ E o que será que vem por aí? |
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