Segunda-feira, Dezembro 28, 2009



O HOMEM DE IDÉIAS

Lexicógrafo, etimologista, enciclopedista, compositor, carioca e suburbano, autor do recém-lançado 'Mandingas da Mulata Velha na Cidade Nova', Nei Lopes é o destaque do ano.









ERA VILLA-LOBOS UM RAPPER?

Sabe aquelas sinalizações manuais que 10 entre cada 10 roqueiros, rappers, funkeiros e pagodeiros fazem quando posam para fotografias? Pois é. Nós aqui no Lote sempre tivemos curiosidade em saber o quê que era aquilo. E, agora, que descobrimos, repassamos o conhecimento aos visitantes do Lote.

Aquilo se chama “manossolfa” e foi uma invenção do grande maestro Heitor Vila-Lobos (1887 - 1959), na foto. O manossolfa é um sistema de ensino de música que consiste, basicamente, em “atribuir a cada intervalo musical um movimento de mãos” – lembra Gilberto?

O gesto feito com os dois polegares para cima representa um “DÓ”. O feito com os dois indicadores esticados, para dentro é um “RÉ”. E, assim, vamos.

Entenderam?

Ao contrário do que se diz, os roqueiros, rappers, funkeiros e pagodeiros sabem das coisas.

Eles assimilaram direitinho os ensinamentos de Villa-Lobos.

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FELIZ ANO NOVO PRA TODO DO POVO DA MÚSICA!




Terça-feira, Dezembro 22, 2009



MUNIZ SODRÉ E A “SAUDADE DO ESCRAVO”

Uma das maiores admirações do povo do Lote é o filósofo, teórico da Comunicação e professor Muniz Sodré de Araújo Cabral, baiano de São Gonçalo dos Campos, reservista da “classe de 1942”, como o Velhote aqui, e presidente da Fundação Biblioteca Nacional. Mestre em Sociologia da In­for­mação e da Comunicação pe­la Sorbonne, é dou­­tor em Letras pe­la Universidade Federal do Rio de Janeiro, on­de se tor­nou pro­fes­sor-ti­tu­lar e, ­mais tar­de, coor­de­nou o Programa de Pós-Gra­duação em Comunicação e Cultura, Muniz é um porreta. Au­tor, en­tre di­ver­sos ou­tros li­vros, de A verdade se­duzida: por um con­cei­to de cul­tu­ra ne­gra no Bra­sil (1983); O terreiro e a cidade: a for­ma­ção so­­cial ne­gro-bra­si­lei­ra (1988); Claros e escuros: identidade, povo e mídia no Brasil (2001), Antropo­lógica do espelho (2002), O império do grotesco (com Raquel Paiva, 2002), é também capoeirista, um dos ­obás de Xangô do Ilê Axé Opô Afonjá, com o tí­­tu­lo de Ossi Obá Aressá, bate um violãozinho, que aprendeu com o filho do saudoso Zé da Zilda, e sabe o que é “física quântica”, como entrega a legenda da foto, extraída de alhures, via Google.

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Uma das maio­res au­to­ri­da­des bra­si­lei­ras em teoria da comu­ni­ca­ção e um dos ­mais res­pei­ta­dos pen­sa­do­res bra­si­lei­­ros con­tem­po­râ­neos, o querido Muniz deu, meses atrás, no “racismo que não ousa dizer seu nome”, uma paulada certeira, talvez a maior do ano, por conta da qual a “direita social”, como ele diz, anda, até agora, arrancando os cabelos pela raiz. Trata-se do texto “É necessária uma nova Abolição”, disponível no site Observatório da Imprensa (http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br), do qual pinçamos os seguintes trechos:

“...há certas visibilidades que nos cegam. O sol, por exemplo, se tornado excessivamente visível (olhado de frente), nos impede de enxergar. Mas há também objetos sociais que, se tornados visíveis demais, podem bloquear a visão de quem antes acreditava ver. Parece-me ser este o dilema da cor, do fenótipo escuro, na atualidade brasileira, onde vislumbro um caso de cegueira cognitiva”.

“No interior de uma forma social determinada, nós apreendemos por consciência e por hábito (...) desde a nossa mais tenra infância, o que aceitar e o que rejeitar”.

Muniz Sodré explica a posição dos “jornalões” brasileiros nas atuais discussões sobre ações afirmativas, como uma manifestação, talvez inconsciente, de saudade dos tempos escravistas. Assim:

“A reinterpretação afetiva da "saudade do escravo", que envolve (a) as relações com empregadas domésticas e babás (sucedâneas das amas-de-leite); (b) o afrodescendente como objeto de ciência (para sociólogos e antropólogos); (c) imagens pasteurizadas da cidadania negra na mídia.

“Diferentemente da discriminação do Outro ou do racismo puro e simples, a saudade do escravo é algo que se inscreve na forma social predominante como um padrão subconsciente, sem justificativas racionais ou doutrinárias, mas como o sentimento – decorrente de uma forma social ainda não isenta do escravagismo – de que os lugares do socius já foram ancestralmente distribuídos. Cada macaco em seu galho: eu aqui, o outro ali. A cor clara é, desde o nascimento, uma vantagem patrimonial que não deve ser deslocada. Por que mexer com o que se eterniza como natureza?”

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É texto pra ser guardado. E é com ele que desejamos a todos

UM FELIZ NATAL, NA ESPERANÇA DE UM ANO NOVO MENOS RACISTA E TRUCULENTO.




Quarta-feira, Dezembro 16, 2009


www.tetechlounge.com

O PRESENTE DE NATAL.

Segunda 23 de novembro, está lá o Velhote do Lote visitando a comunidade vizinha, quando o moleque chega, trazendo o suplemento O Globo Digital, aberto na página 16. É que nela está uma matéria sobre o videogueime que o “sobrinho” quer de presente.

- Aê, meu presente, tio! Esse é que eu quero de Natal.

O Coroa espia com o rabo do olho e vê. Assinado por Eduardo Stuart, o texto versa sobre o lançamento do videogueime “Left 4 Dead 2”, com o título “O terror está de volta”.

Aí, o Tio limpa os óculos e lê o seguinte, misto de resumo do conteúdo e instruções de uso:

“Ao iniciar uma partida, o jogador pode assumir as funções de um dos quatro sobreviventes. Nick é capaz de manusear armas de longo alcance, possui uma Magnum para derrubar as ameaças enquanto estiver fora e combate e até pode ministrar doses de adrenalina que o tornam mais resistente por um breve período. A sua dificuldade de confiar nos outros, no entanto, acaba trazendo certa instabilidade ao grupo”.

O Velhote sente o peso. Mas continua:

“Rochelle, por outro lado, possui um longo machado, um rifle capaz de causar grandes estragos e munição incendiária, mas a ambição de deslanchar como produtora de TV, conduzindo uma matéria sobre os avanços da infecção, pode desconcentrá-la a ponto de colocar tudo a perder”.

Já suando frio, o Veterano segue adiante:

“Com um físico avantajado, e um apurado senso de liderança, Coach representa uma força indispensável, manuseando, com desenvoltura, uma serra elétrica. O rifle de caça e as repugnantes bombas de bile são importantes, ma o seu pequeno problema no joelho pode atrasar a evolução do grupo.“

Caramba! Que coisa, hein!? Mas mesmo assim o Master segue em frente:

“Por último, o jovem mecânico Ellis, que possui um lançador de granadas, equipamento capaz de ressuscitar os companheiros, e até um violão para ataques mais diretos, mas sua presença, mas a sua presunção de ser imortal traz riscos aos demais”.

Embora pálido de espanto, o Velhote constata a força da didática. Quanto ensinamento!

Anteontem, um mês depois, ele voltou lá, onde pinta, todo dia 15 ou nas proximidades, pra acertar uma parada com uma sobrinha. E, aí, o moleque veio de novo. Com o mesmo suplemento. Só que, agora, mostrando uma matéria intitulada “Senador, tenha calma!”.

A edição era de 14 de dezembro. A matéria era agora assinada por outro Eduardo, sobrenome Almeida. E alertava sobre o perigo, para a economia nacional, de se proibir, como quer um senador, a comercialização de videogueimes “considerados ofensivos”.

O argumento era assim defendido pelo professor Vinicius Pereira, diretor do Pan Media Lab, da Escola Superior de Propaganda e Marketing:

“- O Brasil pode estar entrando de imediato na contramão de uma indústria milionária, a que mais fatura no mundo de hoje. Temos um forte potencial para avançar nos campos das tecnologias digitais. A performance do brasileiro em redes sociais e outros sites, até no spam, mostra um perfil inovador e de familiaridade com a cultura digital. Não podemos travar a possibilidade do consumo e do conhecimento a partir de um projeto de um senador que não conhece a cultura dos games”.

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A dúvida é cruel, pensa o Velhote. Compra-se ou não se compra o videogueime? Afinal, violência é coisa ofensiva ou não?

É nessa que, do alto de seus 28 kg de peso, da experiência de seus 12 anos de idade, e da força de convencimento de sua Uzi israelense a tiracolo, o moleque sentencia, o narizinho escorrendo:

- Pô, tio!? Qual é? Compra logo! Vídeogueime é pra homem! O resto é tudo propaganda e marketing, morô?!




Quinta-feira, Dezembro 10, 2009


rainbowsky.blogs.sapo.pt

10 DE DEZEMBRO
Dia Internacional pelos Direitos Humanos


Acabo de topar na rua, agora, com Direitos Humanos.
Vinha descalço, roupa encardida
E me estendeu a mão, pedindo “um qualquer” .
Não preciso dizer que era preto.
Mesmo não sendo reconhecível sua origem étnica.
Tinha a cor preta da fome, da miséria,
Do analfabetismo, da doença,
Da carência.

Cor preta
Pintada pelos alegres anúncios coloridos da TV.
Pelos domingões faustosos.
Pelo ilariê hipócrita e safado,
Que sexualiza nossas meninas aos 10 anos de idade.

Direitos Humanos, agora (fe)minina
Vinha cheirada de cola.
Pois inda não é crack. Mas promete.

E aí,
Enquanto na padaria
Comiam-se brioches,
Direitos Humanos
Me ofereceu o corpo:

- Dois real, patrão! É só dois real!
Tá em promoção!




Quarta-feira, Dezembro 09, 2009

AS MANDINGAS DA MULATA VELHA CHEGAM A SÃO PAULO.
COM SAMBA, CLARO!


Nesta 6a. feira, dia 11 de dezembro, a partir das 19 horas,
NEI LOPES
estará fazendo o lançamento paulista de seu primeiro romance
"MANDINGAS DA MULATA VELHA NA CIDADE NOVA".
(Bahia - Rio, 1870 - 1930)

No BAR SAMBA,
Rua Fidalga 308, Vila Madalena.

E sua presença é fundamental.

Esperamos você lá!




Segunda-feira, Dezembro 07, 2009



DE ANDRADE A GENTIL CARDOSO

O campeonato conquistado ontem pelo Flamengo, mais que a alegria da Dona do Lote, trouxe ao Velhote, vascaíno saudoso de tempos melhores, a figura de Gentil Cardoso. E isto por conta da aura que envolveu o técnico Andrade, um dos raros afrodescendentes treinadores em grandes times de futebol, neste País do Futebol, onde, dos mais de 50% de negros que constituem a população, muitos se destacam ou destacaram como futebolistas.

Vale a pena, então, saber quem foi essa figura histórica. E, para tanto, vamos lá à imprescindível Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, onde se lê o seguinte:

CAR­DO­SO, Gentil [Alves] (1901-70). Técnico brasileiro de fu­te­bol, pio­nei­ro na im­plan­ta­ção de mé­to­dos cien­tí­fi­cos na pre­pa­ra­ção fí­si­ca e tá­ti­ca dos jo­ga­do­res, nas­ci­do em Recife, PE, e fa­le­ci­do na ci­da­de do Rio de Janeiro. Em 1925, em es­ta­da na Inglaterra, co­mo ma­ri­nhei­ro do en­cou­ra­ça­do Minas Gerais, acom­pa­nhou de per­to al­gu­mas im­por­tan­tes trans­for­ma­ções so­fri­das pe­lo fu­te­bol. No Brasil, abra­çan­do a car­rei­ra de téc­ni­co, de­pois de ter si­do jo­ga­dor, co­man­dou a par­tir de 1930 os prin­ci­pais clu­bes ca­rio­cas, tor­nan­do-se, no Fluminense Futebol Clube, o pri­mei­ro téc­ni­co ne­gro de um gran­de clu­be. Escolarizado e le­tra­do (foi es­tu­dan­te de Medicina e for­mou-se em Educação Física, ­além de gra­duar-se co­mo ofi­cial da Aero­náu­tica), foi du­ra­men­te com­ba­ti­do, e até ri­di­cu­la­ri­za­do, por ­seus mé­to­dos e de­cla­ra­ções po­lê­mi­cas. Em 1958, de­pois da re­cu­sa de Zezé Moreira em as­su­mir o car­go de téc­ni­co da se­le­ção na­cio­nal, e do im­pe­di­men­to do pa­ra­guaio Fleitas Solich, foi pre­te­ri­do no co­man­do, em­bo­ra, por sa­grar-se inú­me­ras ve­zes cam­peão, fos­se na­que­le mo­men­to o ter­cei­ro ­mais bem cre­den­cia­do. De ati­tu­des po­lê­mi­cas e fra­sis­ta emé­ri­to, à sua ver­ve são atri­buí­das má­xi­mas e ex­pres­sões que en­tra­ram pa­ra o jar­gão do fu­te­bol e que aca­ba­ram ex­tra­po­lan­do es­se âm­bi­to, co­mo “co­bra”, “ze­bra”, “car­to­la” etc. Por evi­den­ciar sem­pre sua con­di­ção de ne­gro, tam­bém po­de ser lem­bra­do co­mo um mi­li­tan­te, ao seu mo­do, da cau­sa ­afro-bra­si­lei­ra.




Sexta-feira, Dezembro 04, 2009



Um Chope Preto pelo Dia do Samba. Sem colarinho.

“...curso para especializar profissionais para pesquisa e atuação nos mais diversos setores ligados ao carnaval, bem como gestão e desenvolvimento de projetos culturais e de responsabilidade social das Escolas de Samba, processos de captação de recursos e análise crítica do carnaval e da cultura pós-moderna através de uma sólida formação humanística”.
(Do currículo de um “Curso de Carnaval”, em uma faculdade carioca)

Como nosso Dia do Samba foi passado lá na “Mulata-Velha”, ali do lado do Elevador... (ops!) Lacerda, com Edil Pacheco, Maricene Costa, Roque Ferreira, Walter Queiroz, Zé Arerê e até o garotão setentão Jair Rodrigues, só agora podemos nos manifestar a respeito da efeméride. E o fazemos, com licença dos ilustres visitantes, aproveitando um uma fala publicada na revista Raça Brasil ano passado. Da seguinte forma:

Instituído, como no “1º Congresso Nacional do Samba”, em 1962, no Rio, o “Dia do Samba” foi oficializado pela lei estadual 554 de julho de 1964. E o 2 de dezembro marca a data da “Carta do Samba”, documento tirado ao final do congresso. Mais tarde, por lei ou consagrada pelo costume, a efeméride ganhou dimensão nacional. Entretanto, além da festa, o momento é também de reflexão.

Primeiro, é preciso lembrar que esse samba que está aí, é fruto de toda uma resistência negra. E que, sem essa resistência (hoje vencida porque desafricanizada) não existiria, por exemplo, todo o aparato que cerca a bossa-nova.

Depois, é preciso notar que embora não apanhe mais da polícia, o samba hoje sofre de outra formas. Principalmente, nas recorrentes tentativas de afastá-lo dos centros de poder e excelência; de aprisioná-lo no carnaval e nas quadras; nos “núcleos pobres” das telenovelas; e de folclorizá-lo – ele que é uma arte dinâmica, que se recria a cada momento.

É realmente difícil perceber a diferença entre Samba e escola-de-samba. Mas, para tanto, basta lembrar que as escolas nasceram bem depois, para legitimar a música dos morros ante a sociedade dominante. E que, entretanto, passando, de expressão cultural reprimida a item de mercado, elas, hoje, cada vez mais se distanciam do universo que as criou, pautadas pela indústria do entretenimento.

“Mas... como... se a Lapa está ‘bombando’; se a choperia do SESC está botando gente “pelo ladrão”; se há cada vez mais jovens de ‘boas famílias’, universitários, de cavaquinho debaixo do braço, por todo este Brasil?” – pergunta o jovem aficcionado. Mas não é bem assim.

Mesmo sabendo-se componente fundamental da Cultura brasileira, o Samba nunca exigiu os direitos que lhe conferem os artigos 215 e 216 da Constituição. E precisa fazê-lo. Para ter a seu serviço artistas e técnicos que saibam fixar e difundir com fidelidade sua sonoridade peculiar; recriar sua dança em linguagem teatral; levar para a pauta, para os espetáculos e as gravações, de forma descolonizada mas progressista, todo o amplo espectro de seu repertório. Pois quem se enterra em busca da raiz, sem ver o que ocorre na superfície, pode morrer sufocado!

O Samba precisa de ações que o reconheçam como patrimônio inalienável do povo brasileiro, merecedor de todas as garantias, principalmente contra os interesses das grandes corporações multinacionais. Mas sem tombamentos imobilizantes.

Quanto aos sambistas, é preciso termos em conta que, para vencer o preconceito e disputar espaço no mercado, o samba precisa mostrar-se mais inteligente do que malandro; sendo “moderno” sem deixar de ser eterno. Impondo-se como a viga mestra, que é, de toda a música brasileira, como um fato cultural múltiplo, que transcende raça, classe social e faixa etária. Um fato cultural que é múltiplo, inclusive porque tem capacidade de se recriar até em cima do que vem lá de fora, como é o caso do samba-jazz, do samba-rock, do samba-reggae.

Dito e feito isto, tomemos, politicamente, mais um chope pelo 2 de dezembro! Porque, aqui no Lote, todo dia é dia de Samba.