Lexicógrafo, etimologista, enciclopedista, compositor, carioca e suburbano, autor do recém-lançado 'Mandingas da Mulata Velha na Cidade Nova', Nei Lopes é o destaque do ano.
Sabe aquelas sinalizações manuais que 10 entre cada 10 roqueiros, rappers, funkeiros e pagodeiros fazem quando posam para fotografias? Pois é. Nós aqui no Lote sempre tivemos curiosidade em saber o quê que era aquilo. E, agora, que descobrimos, repassamos o conhecimento aos visitantes do Lote.
Aquilo se chama “manossolfa” e foi uma invenção do grande maestro Heitor Vila-Lobos (1887 - 1959), na foto. O manossolfa é um sistema de ensino de música que consiste, basicamente, em “atribuir a cada intervalo musical um movimento de mãos” – lembra Gilberto?
O gesto feito com os dois polegares para cima representa um “DÓ”. O feito com os dois indicadores esticados, para dentro é um “RÉ”. E, assim, vamos.
Entenderam?
Ao contrário do que se diz, os roqueiros, rappers, funkeiros e pagodeiros sabem das coisas.
Eles assimilaram direitinho os ensinamentos de Villa-Lobos.
Uma das maiores admirações do povo do Lote é o filósofo, teórico da Comunicação e professor Muniz Sodré de Araújo Cabral, baiano de São Gonçalo dos Campos, reservista da “classe de 1942”, como o Velhote aqui, e presidente da Fundação Biblioteca Nacional. Mestre em Sociologia da Informação e da Comunicação pela Sorbonne, é doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde se tornou professor-titular e, mais tarde, coordenou o Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura, Muniz é um porreta. Autor, entre diversos outros livros, de A verdade seduzida: por um conceito de cultura negra no Brasil (1983); O terreiro e a cidade: a formação social negro-brasileira (1988); Claros e escuros: identidade, povo e mídia no Brasil (2001), Antropológica do espelho (2002), O império do grotesco (com Raquel Paiva, 2002), é também capoeirista, um dos obás de Xangô do Ilê Axé Opô Afonjá, com o título de Ossi Obá Aressá, bate um violãozinho, que aprendeu com o filho do saudoso Zé da Zilda, e sabe o que é “física quântica”, como entrega a legenda da foto, extraída de alhures, via Google.
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Uma das maiores autoridades brasileiras em teoria da comunicação e um dos mais respeitados pensadores brasileiros contemporâneos, o querido Muniz deu, meses atrás, no “racismo que não ousa dizer seu nome”, uma paulada certeira, talvez a maior do ano, por conta da qual a “direita social”, como ele diz, anda, até agora, arrancando os cabelos pela raiz. Trata-se do texto “É necessária uma nova Abolição”, disponível no site Observatório da Imprensa (http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br), do qual pinçamos os seguintes trechos:
“...há certas visibilidades que nos cegam. O sol, por exemplo, se tornado excessivamente visível (olhado de frente), nos impede de enxergar. Mas há também objetos sociais que, se tornados visíveis demais, podem bloquear a visão de quem antes acreditava ver. Parece-me ser este o dilema da cor, do fenótipo escuro, na atualidade brasileira, onde vislumbro um caso de cegueira cognitiva”.
“No interior de uma forma social determinada, nós apreendemos por consciência e por hábito (...) desde a nossa mais tenra infância, o que aceitar e o que rejeitar”.
Muniz Sodré explica a posição dos “jornalões” brasileiros nas atuais discussões sobre ações afirmativas, como uma manifestação, talvez inconsciente, de saudade dos tempos escravistas. Assim:
“A reinterpretação afetiva da "saudade do escravo", que envolve (a) as relações com empregadas domésticas e babás (sucedâneas das amas-de-leite); (b) o afrodescendente como objeto de ciência (para sociólogos e antropólogos); (c) imagens pasteurizadas da cidadania negra na mídia.
“Diferentemente da discriminação do Outro ou do racismo puro e simples, a saudade do escravo é algo que se inscreve na forma social predominante como um padrão subconsciente, sem justificativas racionais ou doutrinárias, mas como o sentimento – decorrente de uma forma social ainda não isenta do escravagismo – de que os lugares do socius já foram ancestralmente distribuídos. Cada macaco em seu galho: eu aqui, o outro ali. A cor clara é, desde o nascimento, uma vantagem patrimonial que não deve ser deslocada. Por que mexer com o que se eterniza como natureza?”
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É texto pra ser guardado. E é com ele que desejamos a todos
UM FELIZ NATAL, NA ESPERANÇA DE UM ANO NOVO MENOS RACISTA E TRUCULENTO.
Segunda 23 de novembro, está lá o Velhote do Lote visitando a comunidade vizinha, quando o moleque chega, trazendo o suplemento O Globo Digital, aberto na página 16. É que nela está uma matéria sobre o videogueime que o “sobrinho” quer de presente.
- Aê, meu presente, tio! Esse é que eu quero de Natal.
O Coroa espia com o rabo do olho e vê. Assinado por Eduardo Stuart, o texto versa sobre o lançamento do videogueime “Left 4 Dead 2”, com o título “O terror está de volta”.
Aí, o Tio limpa os óculos e lê o seguinte, misto de resumo do conteúdo e instruções de uso:
“Ao iniciar uma partida, o jogador pode assumir as funções de um dos quatro sobreviventes. Nick é capaz de manusear armas de longo alcance, possui uma Magnum para derrubar as ameaças enquanto estiver fora e combate e até pode ministrar doses de adrenalina que o tornam mais resistente por um breve período. A sua dificuldade de confiar nos outros, no entanto, acaba trazendo certa instabilidade ao grupo”.
O Velhote sente o peso. Mas continua:
“Rochelle, por outro lado, possui um longo machado, um rifle capaz de causar grandes estragos e munição incendiária, mas a ambição de deslanchar como produtora de TV, conduzindo uma matéria sobre os avanços da infecção, pode desconcentrá-la a ponto de colocar tudo a perder”.
Já suando frio, o Veterano segue adiante:
“Com um físico avantajado, e um apurado senso de liderança, Coach representa uma força indispensável, manuseando, com desenvoltura, uma serra elétrica. O rifle de caça e as repugnantes bombas de bile são importantes, ma o seu pequeno problema no joelho pode atrasar a evolução do grupo.“
Caramba! Que coisa, hein!? Mas mesmo assim o Master segue em frente:
“Por último, o jovem mecânico Ellis, que possui um lançador de granadas, equipamento capaz de ressuscitar os companheiros, e até um violão para ataques mais diretos, mas sua presença, mas a sua presunção de ser imortal traz riscos aos demais”.
Embora pálido de espanto, o Velhote constata a força da didática. Quanto ensinamento!
Anteontem, um mês depois, ele voltou lá, onde pinta, todo dia 15 ou nas proximidades, pra acertar uma parada com uma sobrinha. E, aí, o moleque veio de novo. Com o mesmo suplemento. Só que, agora, mostrando uma matéria intitulada “Senador, tenha calma!”.
A edição era de 14 de dezembro. A matéria era agora assinada por outro Eduardo, sobrenome Almeida. E alertava sobre o perigo, para a economia nacional, de se proibir, como quer um senador, a comercialização de videogueimes “considerados ofensivos”.
O argumento era assim defendido pelo professor Vinicius Pereira, diretor do Pan Media Lab, da Escola Superior de Propaganda e Marketing:
“- O Brasil pode estar entrando de imediato na contramão de uma indústria milionária, a que mais fatura no mundo de hoje. Temos um forte potencial para avançar nos campos das tecnologias digitais. A performance do brasileiro em redes sociais e outros sites, até no spam, mostra um perfil inovador e de familiaridade com a cultura digital. Não podemos travar a possibilidade do consumo e do conhecimento a partir de um projeto de um senador que não conhece a cultura dos games”.
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A dúvida é cruel, pensa o Velhote. Compra-se ou não se compra o videogueime? Afinal, violência é coisa ofensiva ou não?
É nessa que, do alto de seus 28 kg de peso, da experiência de seus 12 anos de idade, e da força de convencimento de sua Uzi israelense a tiracolo, o moleque sentencia, o narizinho escorrendo:
- Pô, tio!? Qual é? Compra logo! Vídeogueime é pra homem! O resto é tudo propaganda e marketing, morô?!
10 DE DEZEMBRO
Dia Internacional pelos Direitos Humanos
Acabo de topar na rua, agora, com Direitos Humanos.
Vinha descalço, roupa encardida
E me estendeu a mão, pedindo “um qualquer” .
Não preciso dizer que era preto.
Mesmo não sendo reconhecível sua origem étnica.
Tinha a cor preta da fome, da miséria,
Do analfabetismo, da doença,
Da carência.
Cor preta
Pintada pelos alegres anúncios coloridos da TV.
Pelos domingões faustosos.
Pelo ilariê hipócrita e safado,
Que sexualiza nossas meninas aos 10 anos de idade.
Direitos Humanos, agora (fe)minina
Vinha cheirada de cola.
Pois inda não é crack. Mas promete.
E aí,
Enquanto na padaria
Comiam-se brioches,
Direitos Humanos
Me ofereceu o corpo:
- Dois real, patrão! É só dois real!
Tá em promoção!
AS MANDINGAS DA MULATA VELHA CHEGAM A SÃO PAULO.
COM SAMBA, CLARO!
Nesta 6a. feira, dia 11 de dezembro, a partir das 19 horas,
NEI LOPES
estará fazendo o lançamento paulista de seu primeiro romance
"MANDINGAS DA MULATA VELHA NA CIDADE NOVA".
(Bahia - Rio, 1870 - 1930)
O campeonato conquistado ontem pelo Flamengo, mais que a alegria da Dona do Lote, trouxe ao Velhote, vascaíno saudoso de tempos melhores, a figura de Gentil Cardoso. E isto por conta da aura que envolveu o técnico Andrade, um dos raros afrodescendentes treinadores em grandes times de futebol, neste País do Futebol, onde, dos mais de 50% de negros que constituem a população, muitos se destacam ou destacaram como futebolistas.
Vale a pena, então, saber quem foi essa figura histórica. E, para tanto, vamos lá à imprescindível Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, onde se lê o seguinte:
CARDOSO, Gentil [Alves] (1901-70). Técnico brasileiro de futebol, pioneiro na implantação de métodos científicos na preparação física e tática dos jogadores, nascido em Recife, PE, e falecido na cidade do Rio de Janeiro. Em 1925, em estada na Inglaterra, como marinheiro do encouraçado Minas Gerais, acompanhou de perto algumas importantes transformações sofridas pelo futebol. No Brasil, abraçando a carreira de técnico, depois de ter sido jogador, comandou a partir de 1930 os principais clubes cariocas, tornando-se, no Fluminense Futebol Clube, o primeiro técnico negro de um grande clube. Escolarizado e letrado (foi estudante de Medicina e formou-se em Educação Física, além de graduar-se como oficial da Aeronáutica), foi duramente combatido, e até ridicularizado, por seus métodos e declarações polêmicas. Em 1958, depois da recusa de Zezé Moreira em assumir o cargo de técnico da seleção nacional, e do impedimento do paraguaio Fleitas Solich, foi preterido no comando, embora, por sagrar-se inúmeras vezes campeão, fosse naquele momento o terceiro mais bem credenciado. De atitudes polêmicas e frasista emérito, à sua verve são atribuídas máximas e expressões que entraram para o jargão do futebol e que acabaram extrapolando esse âmbito, como “cobra”, “zebra”, “cartola” etc. Por evidenciar sempre sua condição de negro, também pode ser lembrado como um militante, ao seu modo, da causa afro-brasileira.
“...curso para especializar profissionais para pesquisa e atuação nos mais diversos setores ligados ao carnaval, bem como gestão e desenvolvimento de projetos culturais e de responsabilidade social das Escolas de Samba, processos de captação de recursos e análise crítica do carnaval e da cultura pós-moderna através de uma sólida formação humanística”. (Do currículo de um “Curso de Carnaval”, em uma faculdade carioca)
Como nosso Dia do Samba foi passado lá na “Mulata-Velha”, ali do lado do Elevador... (ops!) Lacerda, com Edil Pacheco, Maricene Costa, Roque Ferreira, Walter Queiroz, Zé Arerê e até o garotão setentão Jair Rodrigues, só agora podemos nos manifestar a respeito da efeméride. E o fazemos, com licença dos ilustres visitantes, aproveitando um uma fala publicada na revista Raça Brasil ano passado. Da seguinte forma:
Instituído, como no “1º Congresso Nacional do Samba”, em 1962, no Rio, o “Dia do Samba” foi oficializado pela lei estadual 554 de julho de 1964. E o 2 de dezembro marca a data da “Carta do Samba”, documento tirado ao final do congresso. Mais tarde, por lei ou consagrada pelo costume, a efeméride ganhou dimensão nacional. Entretanto, além da festa, o momento é também de reflexão.
Primeiro, é preciso lembrar que esse samba que está aí, é fruto de toda uma resistência negra. E que, sem essa resistência (hoje vencida porque desafricanizada) não existiria, por exemplo, todo o aparato que cerca a bossa-nova.
Depois, é preciso notar que embora não apanhe mais da polícia, o samba hoje sofre de outra formas. Principalmente, nas recorrentes tentativas de afastá-lo dos centros de poder e excelência; de aprisioná-lo no carnaval e nas quadras; nos “núcleos pobres” das telenovelas; e de folclorizá-lo – ele que é uma arte dinâmica, que se recria a cada momento.
É realmente difícil perceber a diferença entre Samba e escola-de-samba. Mas, para tanto, basta lembrar que as escolas nasceram bem depois, para legitimar a música dos morros ante a sociedade dominante. E que, entretanto, passando, de expressão cultural reprimida a item de mercado, elas, hoje, cada vez mais se distanciam do universo que as criou, pautadas pela indústria do entretenimento.
“Mas... como... se a Lapa está ‘bombando’; se a choperia do SESC está botando gente “pelo ladrão”; se há cada vez mais jovens de ‘boas famílias’, universitários, de cavaquinho debaixo do braço, por todo este Brasil?” – pergunta o jovem aficcionado. Mas não é bem assim.
Mesmo sabendo-se componente fundamental da Cultura brasileira, o Samba nunca exigiu os direitos que lhe conferem os artigos 215 e 216 da Constituição. E precisa fazê-lo. Para ter a seu serviço artistas e técnicos que saibam fixar e difundir com fidelidade sua sonoridade peculiar; recriar sua dança em linguagem teatral; levar para a pauta, para os espetáculos e as gravações, de forma descolonizada mas progressista, todo o amplo espectro de seu repertório. Pois quem se enterra em busca da raiz, sem ver o que ocorre na superfície, pode morrer sufocado!
O Samba precisa de ações que o reconheçam como patrimônio inalienável do povo brasileiro, merecedor de todas as garantias, principalmente contra os interesses das grandes corporações multinacionais. Mas sem tombamentos imobilizantes.
Quanto aos sambistas, é preciso termos em conta que, para vencer o preconceito e disputar espaço no mercado, o samba precisa mostrar-se mais inteligente do que malandro; sendo “moderno” sem deixar de ser eterno. Impondo-se como a viga mestra, que é, de toda a música brasileira, como um fato cultural múltiplo, que transcende raça, classe social e faixa etária. Um fato cultural que é múltiplo, inclusive porque tem capacidade de se recriar até em cima do que vem lá de fora, como é o caso do samba-jazz, do samba-rock, do samba-reggae.
Dito e feito isto, tomemos, politicamente, mais um chope pelo 2 de dezembro! Porque, aqui no Lote, todo dia é dia de Samba.