Segunda-feira, Novembro 30, 2009


www.dw - world.de

CONSCIÊNCIA NEGRA, MODO DE USAR.
(Fechando a tampa das discussões do mês)


Quando te disserem que você quer dividir o Brasil em “pretos” e “brancos”, mostre que essa divisão sempre existiu. Se insistirem na acusação, mostre que, neste país, 121 anos após a Abolição, em todas as instâncias, o Poder é sempre branco. E que até mesmo como técnicos de futebol ou carnavalescos de escolas de samba, os negros só aparecem como exceção.

Quando, ainda batendo nessa tecla, te disserem que o Brasil é um país mestiço, concorde. Mas ressalve que essa mestiçagem só ocorre, com naturalidade, na base da pirâmide social, e nunca nas altas esferas do Poder. E que o argumento da “mestiçagem brasileira” tem legitimado a expropriação de muitas das criações do povo negro, do samba ao candomblé.

Quando te jogarem na cara a afirmação de que a África também teve escravidão, ensine a eles a diferença entre “servidão” e “cativeiro”. Mostre que a escravidão tradicional africana tinha as mesmas características da instituição em outras partes do mundo, principalmente numa época em que essa era a forma usual de exploração da força de trabalho. Lembre que, no escravismo tradicional africano, que separava os mais poderosos dos que nasciam sem poder, o bom escravo podia casar na família do seu senhor, e até tornar-se herdeiro. E assim, se, por exemplo, no século XVII, Zumbi dos Palmares teve escravos, como parece certo, foi exatamente dentro desse contexto histórico e social.

Diga, mais, a eles que, na África, foram primeiro levantinos e, depois, europeus que transformaram a escravidão em um negócio de altas proporções. Chegando, os europeus, ao ponto de fomentarem guerras para, com isso, fazerem mais cativos e lucrarem com a venda de armas e seres humanos.

Diga, ainda, na cara deles que, embora africanos também tenham vendido africanos como escravos, a África não ganhou nada com o escravismo, muito pelo contrário. Mas a Europa, esta sim, deu o seu grande salto, assumindo o protagonismo mundial, graças ao capital que acumulou coma escravidão africana. Da mesma que forma que a Ásia Menor, com o tráfico pelo Oceano Índico, desde tempos remotos.

Quando te enervarem dizendo que “movimento negro” é imitação de americano, esclareça que já em 1833, no Rio, o negro Francisco de Paula Brito (cujo bicentenário estamos comemorando) liderava a publicação de um jornal chamado O Homem de Cor, veiculando, mesmo com as limitações de sua época, reivindicações do povo negro. Que daí, em diante, a mobilização dos negros em busca de seus direitos, nunca deixou de existir. E isto, na publicação de jornais e revistas, na criação de clubes e associações, nas irmandades católicas, nas casas de candomblé... Etc.etc.etc.

Aí, pergunte a eles se já ouviram falar no clube Floresta Aurora, fundado em 1872 em Porto Alegre e ativo até hoje; se têm idéia do que foi a Frente Negra Brasileira, a partir de 1931, e o Teatro Experimental do Negro, de 1944. Mostre a eles que movimento negro não é um modismo brasileiro. Que a insatisfação contra a exclusão é geral. Desde a fundação do “Partido Independiente de Color”, em Cuba, 1908, passando pelo movimento “Nuestra Tercera Raíz” dos afro-mexicanos, em 1991; pela eleição do afro-venezuelano Aristúbolo Isturiz como prefeito de Caracas, em 1993; pelo esforço de se incluírem conteúdos afro-originados no currículo escolar oficial colombiano no final dos 1990; e chegando à atual mobilização dos afrodescendentes nas províncias argentinas de Corrientes, Entre Rios e Missiones, para só ficar nesses exemplos.

Quando, de dedo em riste, te jogarem na cara que os negros do Brasil não são africanos e, sim, brasileiros; e que muitos brasileiros pretos (como a atleta Fulana de Tal, a atriz Beltrana, e o sambista Sicraninho da Escola Tal) têm em seu DNA mais genes europeus do que africanos, concorde. Mas diga a eles que a Biologia não é uma ciência humana; e, assim, ela não explica o porquê de os afrobrasileiros notórios serem quase que invariavelmente, e apenas, profissionais da área esportiva e do entretenimento. E depois lembre que a Constituição Brasileira protege os bens imateriais portadores de referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira e suas respectivas formas de expressão. E que a Consciência Negra é um desses bens intangíveis.

Consciência Negra – repita bem alto pra eles, parafraseando Leopold Senghor – não é racismo ou complexo de inferioridade e, sim, um anseio legitimo de expansão e crescimento. Não é separatismo, segregacionismo, ressentimento, ódio ou desprezo pelos outros grupos que constituem a Nação brasileira.

Consciência Negra somos nós, em nossa real dimensão de seres humanos, sabendo claramente o que somos, de onde viemos e para onde vamos, interagindo, de igual pra igual, com todos os outros seres humanos, em busca de um futuro de força, paz, estabilidade e desenvolvimento.




Quarta-feira, Novembro 25, 2009


http://ipt.olhares.com.br

A PENHA ESTÁ VIVA AINDA LÁ

Consciência Negra doendo na cabeça do racismo, blecautes nos bairros da Zona Sul... Vida de que segue!

E nós aqui no Lote, mergulhados num gostoso mergulho na hinterlândia carioca, de repente emergimos. Pra mostrar que a Festa da Penha pode estar agonizante. Mas que a Penha, ah!, Essa está cada vez mais cada vez.

Primeiro, por causa da “Fazendinha”, nome pelo qual é popularmente conhecida a área de proteção ambiental, na Avenida Brasil – pasmem! – onde se localiza, entre outros estabelecimentos, a Escola de Horticultura Wenceslau Bello.

Trata-se de uma área verde com a extensão de 144 mil metros quadrados, situada à margem de uma das mais poluídas e barulhentas vias da cidade. Criada em 1984, graças a um movimento popular, a APA da Fazendinha, é parte da antiga Fazenda Grande da Penha. A qual, por sua vez, foi um estabelecimento fundado por volta de 1635 pelo capitão Baltazar Abreu Cardoso. Também mencionada como Fazenda de Nossa Senhora da Ajuda, nela foi erguida a ermida que originou a Igreja da Penha, marco inicial do histórico bairro.

Da Fazendinha, que já abrigou riquezas da fauna e da flora brasileira, e é, hoje, um dos poucos espaços de lazer ecológico na Zona da Leopoldina, vamos até a Igreja Brasileira.

Pois, então? “Igreja Brasileira” é a denominação simplificada da Igreja Católica Apostólica Brasileira, ICAB.

Representando mais uma tentativa de criação de uma Igreja católica nacional no Brasil, depois de iniciativas anteriores, a Igreja Brasileira foi fundada em 1945 pelo bispo católico romano Dom Carlos Duarte Costa, ex-titular da diocese de Botucatu, em São Paulo. Destituido dessa unidade, Dom Carlos foi designado como titular de Maura, uma diocese então já extinta, no norte da Africa, daí tornar-se mais conhecido como “Bispo de Maura”.

No Brasil, rebelando-se contra o Vaticano e contra o governo de Getúlio Vargas, pelas alegadas ligações de ambos com o nazismo, depois de ser preso, libertado e excomungado, Dom carlos fundou no Rio de Janeiro, a Igreja Brasileira.

Sempre rezando missa em português, não exigindo celibato de seus clérigos e mantendo uma relação ecumênica com outras igrejas católicas desvinculadas da Santa Sé, a ICAB, a partir de seu templo nacional, na Penha, onde se venera principalmente Nossa Senhora das Cabeças, e de outro, em Campo Grande, experimentou uma época de bastante popularidade e crescimento, até o falecimento de seu líder em 1961.

Canonizado em 1970, Dom Carlos Duarte Costa passou a ser invocado sob o titulo “São Carlos do Brasil”. Seus restos mortais repousam no templo nacional, denominado “Monumento da Penha”, no número 54 da Rua do Couto.

Salve a Penha! Salve a suburbanidade carioca!

Apesar das brabezas, a Penha está viva ainda lá.




Quarta-feira, Novembro 18, 2009



Consciência Negra:
A TEMPESTADE QUE ABALOU O SAMBA


Antônio Espírito Santo, músico e pesquisador da pesada, fundador do fundamental grupo Vissungo, que, nesta Semana da Consciência Negra retoma sua importante trajetória, é autor de um livro ainda inédito. Nesse livro, ele analisa, com visão de etnomusicólogo, mas de dentro, o que vem acontecendo com o samba das escolas.

A certa altura do livro (“O samba e o funk do Jorjão”, 2004), o nosso “Espírito” registra uma informação do sambista Marimbondo, figuraça de Rocha Miranda, que, juntamente com seu inesquecível parceiro J. Canseira, marcou época no nosso ambiente, na década de 1970.

Na informação, Marimbondo conta que “por volta de 1937/38 [sic], por conta do enorme sucesso de um filme musical hollywoodiano (...) no qual, talvez pela primeira vez no Brasil, negros reais (e não brancos pintados) foram vistos dançando ‘swing’, este gênero virou coqueluche entre os jovens cariocas. Concursos de dança do ‘swing’ eram organizados nas favelas e subúrbios, com prêmios inusitados, tais como frangos e leitões assados para os primeiros colocados”.

Lendo isso no grande livro inédito do nosso “Espírito”, não pudemos conter o grito do índio do Gonçalves Dias: “— Meninos, eu vi !”.E vimos, mesmo.

Vimos no Irajá, na década de 1950, os negões bacanas da Vila Rangel e adjacências, no sábado de carnaval, às vésperas de envergarem os vistosos jaquetões tipo saco, calças boquinha, chapéus copa-norte e sapatos de couro de cobra com que desfilavam nas alas dos Impossíveis, dos Nobres, da Corte, na Portela e no Império, dançando, suando, abastecidos por um suculento angu à baiana, dançando... Sabem o quê? Suíngue (abrasileiramos a escrita, pra evitar más interpretações).

Tudo isso por conta do filme citado pelo Marimbondo. Filme esse chamado “Stormy Wheater” (no Brasil, “Tempestade de Ritmos”), lançado em 1943, e que – pelas razões apontadas lá em cima – foi o formatador do figurino e da aparência do samba e dos sambistas das escolas em seus tempos áureos. Inclusive nas gafieiras. E nos cabelos esticados no salão do Jaime, na Avenida Mem de Sá.

Lembramos disso, nesta Semana da Consciência Negra para afirmar que a absorção do suíngue (dança) e do “boogie-woogie” (estilo jazzístico) pelo universo do samba deu-se por um fenômeno espontâneo de identificação dos sambistas daquele tempo com um universo paralelo ao seu, e, ainda por cima, glamurizado pelo cinema.

No filme, viam-se pela primeira vez, como escreveu o brilhante Espírito Santo, “negros reais e não brancos pintados de preto”, tocando, dançando e cantando alegremente. E isso tudo era muito diferente do que ocorre hoje, quando o universo “black” é imposto em escala planetária, mas apenas para vender tênis, jaquetas, bonés, camisetas... E até armas.

Mas é assim mesmo. Capitalismo é isso aí! Tanto que “Boogie-Woogie” hoje é apenas nome de favela. “Swing” é só sacanagem. E até o nome do “Espírito Santo” é usado pra se lavar dinheiro.




Segunda-feira, Novembro 16, 2009



CONSCIÊNCIA NEGRA:
SESC MADUREIRA RELEMBRA OS “ÁUREOS TEMPOS COLONIAIS”


Vejam abaixo o convite que o Lote acaba de receber. Vão nessa, leitores?

Eu tô fora !!!!

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“CONVITE
Prezados,
O SESC Madureira desenvolve o projeto “Arte de Encontrar “que tem como proposta a prática de parcerias entre comunidades populares, instituições públicas, privadas e do terceiro setor. O projeto valoriza o potencial criativo de crianças e jovens de diversas comunidades, propiciando a troca de experiências .
O próximo encontro ocorrerá no dia 17/11/2009 a partir das 14 :00h. Este mês com a temática “Consciência Negra”: conversando sobre a cultura “Banto”, com os historiadores (Walter Nkosi e André Lemba); apresentações de danças afro e café servido por mucama, lembrando os áureos tempos coloniais. As instituições poderão participar ativamente apresentando suas produções artísticas, mediante inscrições prévias ou assistindo ao evento.Contamos com a sua presença!
SESC MADUREIRA”







CONSCIÊNCIA NEGRA ! OBA, OBA ! SALVE, SALVE !

E, enfim, chegamos àqueles dias do ano, tão ansiosamente esperados, em que a capoeira vira de cabeça pra baixo e pernas pro ar todas as praças; as “oficinas” de trancinhas afro ocupam as cabeças das nossas meninas; os tambores “oloduns” soam por todas as ladeiras: as feijoadas e os acarajés deliciam até os sabores mais afrancesados.

Chegamos, enfim, depois de passar “batidos” pelo Dia do Imigrante, do Imigrante Japonês, da Comunidade Luso-brasileira, do Índio, da Liberdade de Culto, etc., chegamos à Semana e ao “Dia da Consciência Negra”, o qual, ainda por cima – oba! – este ano é um “feriadão”, podendo então ser bebemorado até em Marica, Iguaba, Saquarema, Cabo Frio, apesar da ressaca e do engarrafamento, na volta pela Ponte.

Mas... cá entre nós ... O quê que vem a ser mesmo esse negócio de “Consciência Negra”? Será que alguém aqui explica?

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Não sei se é verdade, mas vejo aqui na internet que, durante mais de 300 anos, até por volta de 1850, vieram para o Brasil, forçados pela escravidão, mais de 4 milhões de africanos, os quais, com seus descendentes constituíram a principal mão-de-obra na construção do Brasil, deixando marcas profundas no modo de ser do brasileiro e uma descendência que hoje representa mais de metade de nossa população.

Vejo ainda que o fim do escravismo, em 1888, aconteceu, principalmente, porque a Inglaterra estava preocupada em expandir seu mercado consumidor nas Américas. Como o escravo não tinha dinheiro, ele não comprava. E como não comprava, não interessava à Inglaterra. Então, o governo britânico pressionou o Brasil a acabar com o escravismo e incentivar o trabalho assalariado.

Mas – diz a internet – a abolição da escravatura foi proclamada através de uma lei com apenas 1 artigo, que não se preocupou com o destino dos libertos. Eles eram livres para trabalhar, mas ninguém os queria. Assim, muitos ficaram nas fazendas, na mesma situação antiga; e a maioria deles, principalmente os do meio urbano, foi para a rua, supostamente livres, mas sem terra, casa, emprego, nem qualquer tipo de assistência.

Diz aqui que, finda a monarquia, os governos da República preferiram incentivar a vinda de imigrantes, europeus para as indústrias e asiáticos para as lavouras, ocupando eles, nos postos de trabalho, o lugar dos africanos e descendentes abandonados pela Lei Áurea;

Nessa época, acreditava-se – segundo a internet – que os grupos humanos se classificavam numa escala que ia dos mais bonitos, saudáveis e inteligentes até o mais feios, doentes e ignorantes. Nessa escala, os “louros de olhos azuis” ocupavam o topo; e os “pretos”, a base. Dentro dessa idéia foi que se estruturou a Nação brasileira. Por isso (e não por serem os descendentes de africanos menos capazes) é que até hoje quase não vemos negros (pretos e afromestiços) nas altas esferas do poder, como ministros, senadores, governadores, generais, juízes etc. Os encontramos, sim, na “base da pirâmide”, e como maioria entre os marginalizados. E isso acontece porque, mais de 120 anos depois da Abolição, os descendentes de africanos continuam sem acesso a boas escolas, bons hospitais, boas condições de vida, não conseguindo, assim, boas oportunidades de trabalho e de sustento.

Consciência – leio aqui – é sinônimo de discernimento; é percepção clara sobre o que se é, se faz ou se diz. “Consciência Negra”, então, é a reflexão sobre as razões que levaram e levam a essa desvantagem dos afrodescendentes no todo da sociedade brasileira, procurando soluções. É trabalhar para que todos compreendam a necessidade de termos um país onde as pessoas não sejam só “iguais perante a Lei”, e, sim, respeitadas em suas singularidades, tendo todo o direito de expressá-las e demonstrá-las.

Consciência Negra – diz a internet – não é “racialismo”, racismo, ou complexo de inferioridade. É apenas um desejo coletivo de, nós, negros, podermos ser o que somos, sem nos isolarmos, e sem odiar ou menosprezar quem quer que seja. É a vontade de, junto com todos, construirmos uma sociedade mais humana e mais justa, formada pelas contribuições de todos os povos que constituem a Nação brasileira.

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Bem... Isso é o que diz a internet. Mas será que é isso mesmo? Se for, não tem muita graça, não! Pois eu estava crente que era uma festa, uma dança, uma tremenda farra.




Quinta-feira, Novembro 12, 2009



CASTRO-ALVES PROVOCA BLECAUTE ATÉ NO PARAGUAI

O lançamento do CD da grande cantora Sanny Alves (Gravadora Fina Flor) na Modern Sound foi um arraso. E a coisa esquentou tanto que provocou, lá fora, o apagão de Itaipu. O qual, se fosse no tempo de Dondon, se chamaria "blecaute".

A alta voltagem do evento foi causada por presenças como a do papai da Sanny, o grande baixista Luiz Alves, o qual, ao lado do escritor e jornalista Ruy Castro (foto), formou a dupla Castro-Alves.

O "blecaute", felizmente, ficou lá fora. Barrado. Mas se fosse o Blecaute, mesmo, o saudoso cantor, claro que, garantido por Castro-Alves, teria entrado. E seria anunciado com samba. Assim, ó: "Chegou General da Banda, ê, ê! / Chegou General da Banda, ê, á!"

Porque a Sanny Alves, que fez um CD primoroso, sabe que é assim que a banda toca. Principalmente nesta "Semana da Consciência Negra".




Quarta-feira, Novembro 11, 2009



RUBÉN BLADES TAMBÉM JÁ É DO LOTE

É... de fato a vida tem é surpresas! Mas como nada acontece por acaso; e as afinidades se atraem, o panamenho Rubén Blades acaba de chegar aqui ao nosso aprazível Lote.

Pra quem não conhece, Rubén Blades Bellido de Luna, nascido no Panamá em 1948 e radicado nos EUA, é cantor, compositor, advogado, ator de Hollywood, e político; e, como músico, transita mais habitualmente pelo universo da música afrocubana, no estilo popularizado como “nuyorican salsa”, o que, na linguagem daqui do Lote, significa mais ou menos “molho novaiorquino”.

Acontece que o Velhote aqui, um dia, há mais de 20 anos, se encantou por uma canção espetacular do Blades e fez, de brincadeirinha, uma versão acariocada. Que, agora, foi chamada a cumprir seu Destino: uma tremenda gravação ad perpetuam rei memoriam – como certamente diz o Blades quando advoga, se é que ainda o faz.

Mais não dizemos, nem nos foi perguntado. Pero, em janeiro, a parceria vai ser selada. E brindada, é claro. Com alguns mojitos, cervezas y puros.

De chapéu panamá, por supuesto! Talvez, na Lapa.

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P.S: By the way, from Los Angeles, SÉRGIO MENDES informa que acabou de gravar “Maracatu Nação do Amor” e “Orfeu”, temas do saudoso maestro Moacir Santos, com letras de um certo sambista ex-integrante de uma importante escola tijucana. Sorry!...




Terça-feira, Novembro 10, 2009
Sexta-feira, Novembro 06, 2009


UM DVD PARA SERVIR DE EXEMPLO

“Hay que globalisar, pero sin perder la eséncia”.
(Neíto “Che” López)


Assim como o samba é a espinha dorsal da música popular urbana do Brasil, o “són” é a base da música cubana. Feito basicamente para dançar, o “són” gerou o bolero, o mambo, o chá-chá-chá, o “latin jazz” etc., da mesma forma que o samba viu nascer, de suas entranhas, o samba-canção, o samba-de-breque, a bossa-nova (no inicio referida como “samba moderno”), o samba-jazz, e por aí afora.

Cotejando as duas melhores músicas populares do mundo, vamos ver, ainda, que o amplo complexo da rumba também equivale ao do samba. Mas aí já não falamos mais do samba urbano, carioca, e, sim, daquele conhecido desde pelo menos o século 19, que engloba os sambas-de-roda, o coco, o tambor de crioula, o baião etc.

E vamos ver que o partido-alto de Cuba se chama “són montuno” (de “monte”, mato, roça, já que a tradição do improviso é rural, como a do nosso calango, que é pai do partido-alto; e que os partideiros de lá – e os há muitos e magníficos – são chamados “montuneros”).

Nessa elaboração comparativa, observemos que aquilo que se denomina hoje, de forma genérica e indiscriminada como “salsa”, é também uma decorrência do “són”. Mas a “salsa” é um “són” desidratado. Mal comparando, é como um samba da Orquestra Tabajara, de Severino Araújo; ou do conjunto Sete de Ouros, do Maestro Cipó; ou do grupo de Ed Lincoln; ou, ainda, do grupo Fundo de Quintal, interpretado, por exemplo, pelos simpáticos rapazes do Raça Negra, sucesso na década de 1990, a partir de São Paulo. Deu pra entender?

Pra nós aqui do Lote, a grande desvantagem da música brasileira em relação à cubana é a predominância, a partir da bossa-nova, da harmonia em detrimento do ritmo; da poesia em detrimento do balanço, a tristeza se sobrepondo à alegria.

Ou alguém aqui acha que o “Barquinho”, apesar de sol, sal e sul, é música alegre? Alegres eram aqueles sambas feitos até a década de 60, embora lamentosos, em tom menor. O sambista pedia à tristeza pra, por favor, ir embora, mas dizendo no pé. E a tristeza balançava as cadeiras. O malandro chorava que dava pena, por amor à Madalena, que o tinha abandonado, destruindo em seu jardim uma linda flor, mas o fazia cheio de suíngue, com aquele gestual africaníssimo, os braços fletidos, como se lutasse, dançando, sempre pra frente (gestual de zulu protestando contra o apartheid, lembram?). Enquanto isso, o pessoal do barquinho ficava sentado no tapete ou nas almofadas do apartamento, prestando atenção só nas “aranhas” e “pestanas” que os castroneves e os menescais faziam nos seus cantinhos e violões. Dançar? Como? As cinturas eram duras, compay!

Mas todo esse papo, que daria (ou ainda vai dar) um livro, é só pra dizer que, através da pujança do “són”, os cubanos acharam o caminho, tão sonhado pelos bons e conscientes músicos brasileiros, para unir, mesmo, a contribuição européia à herança africana; somar conhecimento teórico a ritmo contagiante; e, finalmente, incorporar a moderna música internacional, emanada dos guetos negros dos EUA (a terceira força musical do mundo) à sua música, sem perder a Identidade. Globalizar sem perder a essência.

Todo eso está, sin embargo nem bloqueio, explícito no magistral DVD “The sons of Cuba” – trocadilho do espanhol “són” (som, música) com o inglês “son” (filho, herdeiro).

Nele, através de um roteiro espertíssimo, inclusive dramatizado, o saudoso “montunero” Pío Leyva (1917 – 2009) é levado a um passeio pelo rap, pelo hip-hop, pelo pop, pelo jazz, pelo bolero etc., sem que em nenhum momento a grandeza e a dança do “són” deixem de estar presente.

Quem conhece as possibilidades do Samba; que se entristece com sua desafricanização (tão flagrante que Vinicius de Moraes resolveu inventar um negocinho chamado “afro-samba”, no qual o grande Baden Powell não teve culpa nenhuma); e espera vê-lo, um dia, sem vergonha de seus tambores (relegados, aqui, ao papel de “cozinha”), realmente triunfar em escala global, como o “són” cubano já triunfou, não pode deixar de ver esse DVD exemplar, e extremamente oportuno.




Quarta-feira, Novembro 04, 2009



ALBERTO MUSSA, LIVROS E MANDINGAS

Nosso amigo e irmão Alberto Mussa é o prefaciador do nosso romance de estréia “Mandingas da Mulata Velha na Cidade Nova” (Editora Língua Geral), com lançamento marcado para próximo 18 de novembro, e sobre o qual escreveu o seguinte:

“O livro que você tem nas mãos é uma pequena pérola.

Trata de um lugar e de um tempo mitológicos do Rio de Janeiro. De um tempo e de um lugar onde a cidade verdadeira foi fundada: Cidade Nova, Pedra do Sal, Pequena África, entre cerca de 1870 e 1930.

Foi a gente dessa época e desse lugar que instituiu o Rio de Janeiro moderno, que deu ao conceito de carioca sua feição definitiva.

A pérola que você tem nas mãos fala de figuras históricas e simultaneamente lendárias, como João Cândido, Sinhô, Assumano Mina do Brasil, André Rebouças, Dom Obá, José do Patrocínio; fala dos ranchos carnavalescos e da festa da Penha; de negros altivos e articulados, conhecedores do segredo dos orixás e dos versos do Alcorão; fala da Abolição e da república; fala de capoeiras e da revolta da Vacina; e fala principalmente de uma velha tia baiana, arquétipo das velhas tias baianas às quais o Rio de Janeiro deve muito da sua identidade.

É em torno da tia Honorata, ou Norata, também chamada tia Amina (seu nome muçulmano), que giram todos esses fatos e personagens. O romance começa quando tia Amina morre e um jornalista passa a investigar sua biografia, entrevistando as mais variadas pessoas, obtendo as opiniões mais divergentes, até se deparar com um manuscrito, que narra sua verdadeira história, como se fosse um conto das Mil e uma noites...

Impossível não perceber nesta inesquecível protagonista o reflexo ancestral da tia Ciata, talvez a mais famosa das baianas do Rio de Janeiro. Fazia muita falta na literatura brasileira um romance que se inspirasse nela. E é em muito boa hora que este livro chega. Não por acaso, assinado por Nei Lopes (...)”.

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Que alegria receber esse prefácio! Vindo de um dos mais brilhantes e prestigiados escritores brasileiros do momento. O qual em O Globo, no último dia 31, assim enumera os critérios que usou para “desconstruir” sua monumental biblioteca, permutando os livros que não lhe interessavam mais por créditos (em cervejinhas e tira-gostos) “num elegante sebo no centro do Rio, que dispõe também de um restaurante”:

“Primeiro: ... a grande enxurrada que partiu foi de romances, enquanto permaneceu a maioria dos contistas – que lidam com um gênero mais intelectual.

“Segundo: ... não consegui me libertar de nenhum livro de mitologia; concluí, depois de muito tempo, que os grandes feitos literários da humanidade foram alcançados na pré-história.

“Terceiro: ...conservei as literaturas antigas, clássicas e medievais, em detrimento da modernidade.

“Quarto: ...mantive intacta a literatura brasileira, não fui capaz de retirar nenhuma obra escrita na minha língua, a língua hegemônica do Brasil, que nenhum acordo ortográfico tornará universal.

“Dizem que costumo freqüentar o sebo para estar, de algum, a forma, perto deles. É uma calúnia. Esses livros não me dão saudade. Vou lá para falar de futebol, beber uma cerveja, cantar sambas antigos. Porque a vida tem outras coisas muito boas”.

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Alberto (ou Beto) Mussa é autor de “Elegbara”, “O trono da rainha Jinga” e “Meu destino é ser onça”, além de pandeirista e salgueirense.

Mandingueiro, não?




Terça-feira, Novembro 03, 2009

LAROIÊ, ELEGBÁ!
SECRETÁRIA DE EDUCAÇÃO DE MACAÉ TOMA PROVIDÊNCIA COM RELAÇÃO A DIRETORA RACISTA


(Enviado pelo artista gráfico e ativista carioca Luiz Carlos Gá)

NOTA À IMPRENSA

A Prefeitura de Macaé por meio de sua Secretaria de Educação vem a público prestar esclarecimentos quanto ao ocorrido na Escola Municipal Pedro Adami no Distrito de Córrego do Ouro entre a Diretora da Escola Mary Lice de Oliveira Petrilo e a professora de Literatura Brasileira Maria Cristina Marques.

Executivo e órgão são contrários a quaisquer formas de condutas discriminatórias em toda sua gestão e em seus mais diferentes níveis. Ciente do ocorrido, a Secretaria de Educação encaminhou , após diversas reuniões com seus orientadores, supervisores e subsecretários, o caso à Procuradoria do Município sendo aberto um Inquérito Administrativo para apuração dos fatos, em andamento, e norteamento das decisões.

A professora Maria Cristina Marques continua no exercício de suas funções, respaldada por decisão da Procuradoria do Município e da Secretaria de Educação.

A fim de levar as mais diferentes culturas existentes em nosso país e visando atender as determinações da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, do qual determina a inserção do conteúdo programático de História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional.

A Secretaria de Educação tem implantado diferentes cursos de qualificação e capacitação abrangendo o tema, com o necessário objetivo de resgatar a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil, onde a referida professora é também aluna.

A Prefeitura de Macaé e sua Secretaria não interferem nas opções de ordem religiosa de seus servidores e seu direito constitucional, respeitando toda e qualquer opção de seus funcionários e servidores.

A Secretaria de Educação ressalta mais uma vez ser contrária a qualquer forma de inibição e discriminação, buscando a resolução desses fatos que em nada se assemelha as nossas ações e diretrizes de ensino, garantindo seu acesso a todos.

Prefeitura de Macaé
Secretaria Municipal de Educação

N.L (Nota do Lote): A diretora, evangélica, tinha proibido que a professora de Literatura estudasse com os alunos um corpo de lendas iorubanas, sobre a saga dos Orixás.