Sexta-feira, Outubro 30, 2009



UM TÔNICO EM BRINDE AO TONICO. E AO REBOUÇAS TAMBÉM.

O compositor brasileiro Antonio Carlos Gomes (1836-1896), nasceu na Vila de São Carlos, ­atual Campinas, SP, e fa­le­ceu em Belém, PA. Graças, prin­ci­pal­men­te, à ami­za­de do engenheiro e abolicionista André Rebouças, afrodescendente como ele, Carlos Gomes, neto de ex-escrava e chamado “Tonico” na intimidade, es­tu­dou em Milão, Itália, on­de, em 1870 en­ce­nou a ópe­ra O gua­ra­ni, seu tra­ba­lho ­mais co­nhe­ci­do. É au­tor, tam­bém, en­tre ou­tras pe­ças, das ópe­ras Salvador Ro­sa (1874), Maria Tudor (1879) e O es­cra­vo (1889), a ­qual, em­bo­ra de cu­nho abo­li­cio­nis­ta, te­ve sua per­so­na­gem cen­tral mos­tra­da co­mo um ín­dio.

O Tonico’s Bar, no centro de Campinas, localiza-se exatamente em frente ao monumento ao grande compositor (ou o monumento é que fica em frente a ele?). Pois no último fim de semana, a caravana artística do Lote, tendo como estrela a cantora Sanny Alves (bem na foto), lançando seu CD pela Gravadora Fina Flor, esteve lá.

Paulo Henrique, o fidalgo e simpático dono da casa, fez questão de um brinde à moda, em evocação ao Tonico e ao André. Aí, o Bruno Ribeiro, assessor de imprensa da Casa, não conversou. Crau!

Desculpe, Cintra! Desculpe, Schin! Desculpe,Belco! Não foi por querer...




Quarta-feira, Outubro 28, 2009



A MESTIÇAGEM E A NEGRITUDE SE ABRAÇAM NO LOTE

Na sessão de autógrafos, a moça chega, meio espantada e manda, na lata:

- Mas o senhor não é NEGRO! Não tem nem apelido!

"Negro" é Pelé, Sabará, Blecaute, Gasolina, Macalé, Miquimba, Escurinho, Chocolate, Sapoti, Marrom...

Aí, o escritor sambista, mete-lhe a caneta, mas dá uma letra, faz um miudinho e saca do bolso da camiseta, que veste por baixo do smoking, a foto acima, com a seguinte "legenda":

- Olha aqui um pouquinho da minha família, querida! Você sabia que todos aí são NEGROS? Ser negro, independente de qualquer fator biológico ou social, é um lance... sei lá... é uma chinfra. Tem gente que não nasce negro mas vai ficando. Por quê? Porque gosta, ué !? Ou melhor: PORQUE SE GOSTA.

(Foto de Paulo Rattes, na Festa da Primavera, setembro, 2009)




Terça-feira, Outubro 27, 2009



ENTRE O RIO GUANDU E O JORDÃO

De vez em quando ainda vem à memória aqui do Velhote aquelas tardes de domingo (a tarde de domingo já, naquela época, era um baixo-astral só) em que os “crentes” chegavam. Vinham eles trajando, já deselegantes, aqueles paletós, gravatas e aquelas saias (as mulheres, de “maria-mijona”), e começavam a berrar.

Que o “clarão celestial azul”, que a “espada de fogo”, que o “dilúvio universal” iam fazer acontecer, pintar e bordar. E nós, banho tomado e cheirozinhos, temendo aquele Deus forte, musculoso, barba farta, cara de poucos amigos, quase que nos mijávamos as calças curtas (de domingo), temendo as labaredas daquelas tardes infernais. Cuja trilha sonora, diga-se de passagem, era mais infernizante ainda.

Tempos depois, aprendemos que aqueles “crentes" chamavam-se “pro­tes­tan­tes”, pois eram cris­tãos, mas pra­ti­can­tes de re­li­giões não ca­tó­li­cas, e diferentes dos or­to­do­xos e es­pí­ri­tas. Bem mais tarde, aprendemos também que, nas Américas, em con­ta­to com as for­mas re­li­gio­sas ju­dai­co-cris­tãs, os negros en­con­traram ­meios de adap­tá-las à sua rea­li­da­de.

Foi as­sim com os san­tos ca­tó­li­cos na for­ma ­mais co­nhe­ci­da da­qui­lo que se con­ven­cio­nou cha­mar “sin­cre­tis­mo”. Foi as­sim, tam­bém, com essas re­li­giões cha­ma­das pro­tes­tan­tes ou evan­gé­li­cas, em cu­ja Bíblia o afri­ca­no es­cra­vi­za­do en­con­trou tex­tos que lhe re­cor­da­vam sua si­tua­ção. O ca­ti­vei­ro da Babilônia, com as pro­fe­cias so­bre sua sal­va­ção e a es­cra­vi­dão de Israel no Egito até a li­ber­ta­ção por Moisés, são al­guns des­ses es­cri­tos.

Principalmente nos Estados Unidos, os ne­gros aglu­ti­naram to­dos es­ses re­la­tos, além de ele­men­tos co­mo o mes­sia­nis­mo e a cren­ça nos an­jos, por exem­plo, e ain­da in­gre­dien­tes co­mo a pos­ses­são e a mú­si­ca que a in­duz; e es­tru­tu­raram, nas sei­tas de Renovação e de des­ci­da do Espírito Santo, a sua rein­ter­pre­ta­ção do pro­tes­tan­tis­mo, fa­zen­do de sua re­li­gio­si­da­de, às ve­zes in­cons­cien­te­men­te, um for­te ins­tru­men­to de ­ação po­lí­ti­ca con­tra o ra­cis­mo e a ex­clu­são so­cial.

Mas aconteceu que a cris­tia­ni­za­ção do es­cra­vo ne­gro por ­meio dos tex­tos do Velho Testamento acabou sendo um dos vetores de sua de­sa­fri­ca­ni­za­cão, prin­ci­pal­men­te, ainda, nos Estados Unidos. Mas, em con­tra­par­ti­da, re­pre­sen­tou um ele­men­to de con­so­lo e re­vi­go­ra­men­to. Lá, a mú­si­ca do ne­gro cris­tão tor­nou-se ex­pres­são do seu de­se­jo de “cru­zar o Jordão” e “ver o Senhor”. Assim, as ima­gens do cris­tia­nis­mo dos ne­gros, lá, apóiam-se no pa­ra­le­lo en­tre ­suas do­res e es­pe­ran­ças e as dos ju­deus dos tem­pos bí­bli­cos.

Na mesma linha de raciocínio, vamos ver que as igrejas protestantes, a partir (ainda uma vez), dos Estados Unidos, recriaram, em seus cultos, alguns aspectos exteriores africanos. Como exemplo, observemos as reações das congregações durante os sermões e em outros momentos de celebração, com gritos, danças e movimentos corporais de grande emotividade, como no transe e nas cerimônias de limpeza espiritual características da religiosidade africana tradicional. Características essas bem conhecidas no Irajá do nosso tempo, quando nossa saudosa Mãe, com aquele tremorzinho inicial, incorporava a suave Vovó Maria Conga; e quando tio Jorge recebia aquele caboclo bravo, que roncava e batia no peito... Ah! Saudade!

Mas a idéia deste texto surgiu mesmo foi a partir de uma constatação recente. Que é a do modo pelo qual os “crentes” de hoje, por aqui, encaram o Velho Testamento.

Esse conjunto de livros é, sem dúvida, eminentemente étnico. Nos quais se cuida da História dos hebreus e sua organização como povo, com as passagens épicas, monstruosas, poéticas, horripilantes, que caracterizam a historicidade de todos os povos do mundo, em todos os tempos.

Quando, desde o século XVIII, os africanos e seus descendentes, no sul dos Estados Unidos, metaforizaram o rio Mississipi como o seu rio Jordão; quando viram nas charretes dos patrões racistas as carruagens de fogo da Bíblia; quando, para eles, ir ao encontro de The Lord era realmente o único caminho fora do inferno da escravidão, eles estavam cobertos de razão, achamos. Tomaram um exemplo histórico e o incorporaram á sua história.

Hoje, entretanto, nas periferias das grandes cidades brasileiras, pretos, pardos, caboclos, mestiços – como nos denominam os relatórios oficiais – se reivindicarem como descendentes de Abraão, Moisés e outros patriarcas, para nós, seria engraçado se não fosse trágico. Haja vista o perrengue que passam os falachas, judeus da Etiópia, os quais têm muito mais razão para reivindicar essa ancestralidade (leia-se no livro dos Reis a visita da rainha de Sabá a Salomão), desde que conseguiram, a partir da década de 1970, emigrar para Israel.

É aí que entra a pertinência da Lei que institui a obrigatoriedade de ensino de História da África (desde a Antiguidade, frisamos!) nos currículos de nosso ensino fundamental. E é o quem este texto que abrimos nossas reflexões pelo Mês da Consciência Negra.




Segunda-feira, Outubro 19, 2009


fotos: Paulo Rattes

REINALDO, MARQUINHOS E A FORÇA INQUEBRANTÁVEL DOS GRANDES NEGÕES DO SAMBA

Recebermos de Reinaldo, "O Príncipe do Pagode", o DVD de um show em São Paulo, no qual ele recepciona grandes amigos do samba, e uma coisa muito forte nos chama a atenção.

Reinaldo, pra quem por acaso pensa que é um pagodeirinho de última hora, é cobra criadíssima, filho do Seu Zacarias, da Em Cima da Hora, e tem, como sambista, uma história longa e muito bonita, que um dia a gente ainda vai contar aqui. Mas o que chama a atenção em seu DVD, além do vozeirão muito bem timbrado, é alto nível vocal de seus convidados, quase todos negões e grande cantores.

Nesses tempos de cantoras, quando tanto se lamenta a falta que ROBERTO RIBEIRO nos faz, é bom ver isso no DVD do "Príncipe". E entre os grandes cantores do show bonito, sobressai a voz e a elegância daquele que todos sempre tivemos como o grande sucessor do nosso inesquecível Ribeiro.

Marquinhos Sathã (na primeira foto) é o cara!

Que voz, minha gente! Que presença! E que bom que ele está de volta ao disco, depois de um bom período só comendo pelas beiradas. Estava fazendo falta, embora o eco de seus sucessos ("Agora eu sei, que o amor que você prometeu...") continue no ar ("Pra finalizar, resumindo essa história...") e no repertório de todos os bons pagodes que ainda há por aqui, do Cacique, em Ramos, ao Ponto Chique, em PadreMiguel.

O Lote agradece ao Reinaldo (foto 2), por botar em DVD o visual e o áudio do nosso Marquinho. Cujo "Sathã" do nome artístico não tem nada a ver com aquilo que vocês estão pensando. É adptação de um nome africano, do idioma fulâni. E quer dizer "forte, inquebrantável". Como são a voz e a personalidade dessa grande figura, ídolo das coroas aqui do Lote, filho dileto de Ogum-São Jorge, como se vê na belíssima camisa da foto..







O ESPÍRITO OLÍMPICO, DE BRAÇOS ABERTOS

O "Espírito Olímpico" começa a tomar conta do Rio, cidade e Estado. E a política da periferia não perde tempo.

É nessa que, de repente, no centro de Seropédica - município respeitado pela excelência da Universidade Federal Rural e das pesquisas agrobiológicas da EMBRAPA, internacionalmente reconhecidas - saída não se sabe de onde, aparece uma estranha réplica do Cristo Redentor carioca.

Coisas da política, claro!

Só que o eleitor do importante Município não é manso nem pobre de espírito como julgam os malandros que pululam pela jovem cidade, Bíblia debaixo do braço, travestidos de cristãos.

Então, na madrugada de sábado, alguém estendeu uma faixa, de u'a mão a outra da estranha estátua. E a cidade, acordando, leu lá, no Cristo, a seguinte frase:

"DE BRAÇOS ABERTOS PARA O LIXO DO RIO"

Por volta das 10, hora em que malandro começa a acordar, o "Espírito Olímpico" foi lá e tirou a faixa, claro. Mas quem não viu, pelo menos ficou sabendo.

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Como já dissemos aqui no Lote, a Prefeitura do Rio quer botar, na marra, um lixão em Seropédica. O que, inclusive, motivou, no último 16 de outubro, uma tremenda manifestação contrária na UERJ, no bairro do Maracanã, diante do próprio ministro do Meio Ambiente.

Frente à crescente reação popular contra o absurdo, parece que a Prefeitura carioca, pra conseguir esse feito, vai ter que fazer um certo esforço . Um esforço olímpico, com certeza. Que pode custar muito caro a todo o Estado. E contra cujas consequências, depois, não vai ter Redentor que dê jeito.




Sexta-feira, Outubro 16, 2009



O LOTE E O LIXÃO DE SEROPÉDICA:
PRONUNCIAMENTO DO DEPUTADO CHICO ALENCAR (PSOL-RJ)


O município de Seropédica, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, que completou neste dia 12 de outubro quatorze anos de sua emancipação de Itaguaí, vive uma situação complexa”.

Seropédica é um município novo, com necessidades e possibilidades de crescimento, e deve dispor de seu território para iniciativas que caracterizem um desenvolvimento sustentável que venha, de fato, beneficiar a população.

Há um processo de implantação de aterro sanitário pela empresa S/A Paulista com a perspectiva de receber oito toneladas diárias de lixo, principalmente da cidade do Rio de janeiro.

Diversos setores da comunidade local têm manifestado oposição à execução do empreendimento e fortes preocupações. Estudos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro revelam a existência de reserva de água - Aquífero de Piranema - no subsolo da área em questão. O aterro pretendido representa ameaça de contaminação a essa reserva de água doce.

O empreendimento imobiliza uma imensa área durante a vida útil do aterro (15 anos), e, após esse tempo, a área ainda permanecerá isolada por tempo indeterminado. Além disso, o entorno do aterro sanitário não poderá abrigar nenhum empreendimento, seja industrial, de serviço ou habitacional.
A imobilização de uma área de 32 Km² para o aterro - perto de onde passará a rodovia do Arco Metropolitano - engessa o município, inviabilizando outros empreendimentos, seja para a expansão urbana/habitacional, seja para o setor comercial e de serviços.

Do ponto de vista legal, há vários questionamentos, pois se argumenta que a aprovação, em 2007, da Emenda à Lei Orgânica municipal e dos Projetos de Leis que permitiram a implantação do aterro sanitário foi feita em desacordo com a própria L.O., pois deveria ser votada em dois turnos com prazo mínimo de dez dias, o que não ocorreu.

Hoje, o caso está no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro aguardando julgamento de recurso. A S/A Paulista entrou com mandado de segurança e conseguiu liminar para validar as referidas leis até que o Tribunal julgue o caso, já que, em primeira instância houve decisão anulando o processo legislativo realizado na Câmara Municipal de Seropédica, em 2007.

Esse conjunto de informações e análises é corroborado por setores da sociedade seropedicense, envolvendo associações de moradores, entidades de classe, a maioria dos vereadores do município e representantes das comunidades científicas da UFRRJ (Univ. Fed. Rural do RJ), EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e PESAGRO (Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro).

Em 15 de setembro de 2009, o reitor da UFRRJ, Ricardo Motta Miranda,encaminhou as considerações do corpo técnico da Universidade ao presidente do Instituto Estadual do Ambiente, ressaltando a "necessidade de realização de novos estudos para subsidiar a decisão a ser tomada sobre o assunto, uma vez que estudos já realizados demonstram ser inadequado o local escolhido para a instalação da referida central de tratamento de resíduos".
Além disso, recentemente, a vereadora Maria José, presidente da Comissão de Meio Ambiente da Câmara Municipal de Seropédica, oficiou a Comissão Estadual de Controle Ambiental (CECA) e a Promotoria de Direitos Difusos de Nova Iguaçu solicitando a suspensão do licenciamento do aterro por parte do INEA (Instituto Estadual do Ambiente) para que houvesse tempo hábil para a Câmara analisar o projeto.

A Câmara de Vereadores acabou de aprovar projeto de emenda à Lei Orgânica transformando a região do Aquífero de Piranema em Área de Proteção Ambiental, o que, como sabemos, impede a instalação de aterro sanitário.
De minha parte, considero que uma questão como essa é por demais complexa e não pode ser tratada a toque de caixa, nem muito menos servir apenas a interesses empresariais. A cidade do Rio de Janeiro não pode se limitar a pensar soluções para o seu lixo produzido simplesmente colocando-o em outros municípios, como já faz com o aterro sanitário de Gramacho, em Duque de Caxias (assim como Seropédica, também situado na Baixada Fluminense).
Segundo matéria d'O Globo, de 25/set/2009, a prefeitura da cidade do Rio aproveitará o contrato de uma concorrência de 2003 - feita para instalação de aterro sanitário no bairro de Paciência - mudando o endereço... para o município de Seropédica!

A gestão de resíduos sólidos, particularmente em regiões metropolitanas, tornou-se uma questão estratégica que abrange aspectos sociais, ambientais e econômicos. Por isso, requer políticas públicas que deem conta do lixo que geramos cotidianamente, envolvendo iniciativas como coleta seletiva, disposição final correta, cooperativa de catadores, reaproveitamento de resíduos sólidos, entre outras.

Faz-se necessário que os órgãos públicos das cidades de Seropédica e do Rio de Janeiro, bem como do governo estadual, tratem a questão com a devida seriedade, respeitando os trâmites legais e, sobretudo, ouvindo os mais diversos setores que representam os mais de 77 mil habitantes de Seropédica, para que não haja o sacrifício do desenvolvimento sustentável do município, nem o agravamento do já saturado passivo ambiental.

BRASÍLA, CÂMARA DOS DEPUTADOS, SALA DAS SESSÕES – 14.10.2009
Chico Alencar – Deputado federal – PSOL-RJ




Quinta-feira, Outubro 15, 2009



FAUSTINO, CORRE AQUI DEPRESSA!

Caríssimo jornalista e escritor Oswaldo Faustino, corre aqui depressa!

Vem ver o grande equívoco que você cometeu ao escrever minha biografia, agora publicada pela Selo Negro Edições, na coleção Retratos do Brasil Negro!

É que abrindo aqui, ao acaso, o Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, da Fundação Getúlio Vargas, na página 1930 do 3º volume, no verbete “LOPES, Nei” vi que teu livro está todo errado.

Acabo de saber agora, Faustino, que eu não nasci em Irajá coisa nenhuma, e, sim, em Natal, no Rio Grande do Norte, três anos depois do que você informou, rapaz! E que não fui filho de Seu Luiz e Dona Eurydice, não, seu incompetente! Nem sou casado com Dona Sonia.

Muito menos me formei em Direito na NACIONAL, como você escreveu, caprichando na caligrafia. Meu curso foi na UFRN, meu chapa! Uma faculdade boazinha, mas longe paca!

Outra coisa: você escreveu no livro que eu fui de esquerda. Cascata! Eu fui é do MDB e, depois, da ARENA, rapaz! Você deve ter confundido porque, em 1976, eu fui cassado pelo AI-5.

Na biografia, você só acertou quando disse que eu sou autor de um livro sobre Orçamento Público. Pois essa, todo mundo sabe, é a minha verdadeira e irrefutável especialidade.

No mais, está tudo errado, Seu Faustino! Corre depressa pra sustar a nova tiragem desse livro que custa 20 pratas e pode ser encontrado em qualquer livraria, principalmente na Folha Seca, do Rodrigo Ferrari, na Rua do Ouvidor, perto da Praça Quinze.

Rápido, Faustino! Rápido ! Senão, eu faço um samba-de-breque, contando esta história fantástica.




Quarta-feira, Outubro 14, 2009



O SAMBA ANTES E DEPOIS DE RILDO

O veterano produtor, que impulsionou as carreiras de sambistas importantes, vem aí com novo álbum

Lucas Nobile


A matéria, do nosso chapinha Lucas Nobile, saiu anteontem no Estadão. Página inteira (que o cara é grande paca). E trouxe, além de um resumão da carreira do “Seu Rildo”, muito boas notícias. Inclusive as seguintes. Leiam:

“... Rildo acaba de entrar em estúdio para gravar um disco com sua filha, a cantora Patrícia Hora (foto), com lançamento previsto para o início de 2010. No repertório, composições inéditas antigas e recentes de Rildo com parceiros como Nelson Sargento, Luiz Carlos da Vila, Humberto Teixeira, NEI LOPES e Zélia Duncan, e a regravação de Anda, Sai Dessa Cama, parceria com Martinho da Vila. (...)

“... depois de um hiato de 25 anos ele voltará a trabalhar com Beth Carvalho. O disco, que começa a ser gravado apenas no próximo ano, terá no repertório sambas inéditos resgatados no imenso baú da "Madrinha do Samba".

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Antes de serem parceiros, na década de 1950, Rildo Hora e o Velhote do Lote foram contemporâneos na gloriosa Escola Técnica Visconde de Mauá.







SE A FLORESTA TE ABRIGA...

Com lançamento marcado para esta semana, o livro “ADINKRA, sabedoria em símbolos africanos”, de Elisa Larkin Nascimento, ilustrado por Luís Carlos Gá (Pallas Editora, 216 págs., R$ 35,00) tem a seguinte apresentação, de nossa autoria:


No tchi (twi), a língua dos povos Acã (Akan), a palavra adinkra significa literalmente “despedida”, “gesto de adeus”. E, segundo a tradição, a expressão nasceu por causa de um certo rei, chamado Nana Kofi Adinkra, na atual Costa do Marfim, o qual não só detinha o segredo de fabricação do tecido que depois ganhou seu nome, como também o estampava com desenhos do trono de ouro, símbolo maior do poder entre os acãs, alegando ser seu verdadeiro dono.

Sucede que, um dia, Osei Bonsu, rei dos axantis, sentindo-se ameaçado por esse potencial usurpador, declarou-lhe guerra, no que foi bem sucedido. Morto, como castigo por sua insolência, Adinkra teve a cabeça arrancada do corpo e levada como um troféu. E Osei Bonsu – reza a tradição – levou também as vestes do pretenso conquistador, bem como as técnicas de fabricação do tecido e sua estamparia. A partir daí, o nome do rei morto passou a significar “adeus”, “despedida”, estendendo-se ao tipo de tecido que usava e aos grafismos nele estampados (cf. Robert B. Fisher, West African religious traditions, Nova Iorque, Orbis, 1998).

Vejamos, agora, que a palavra “adinkra” pode se decompor em “di nkra”, ou seja, “despedir-se do kra”, termo este que os dicionários traduzem como “alma”. Entretanto, muito mais do que isso, esse elemento constitutivo do ser humano (além do sunsum, caráter, personalidade; o ntoro, “anjo-da-guarda”; o mogya, corpo físico; e o tumi, a força vital, no sentido estrito) é, para os acãs, a própria manifestação da força humana, o élan vital, sendo, ainda, o condutor do destino do indivíduo, o qual emana de Onyame, o Ser Supremo.

Antes de uma pessoa nascer – dizem os acãs –, o kra comparece perante Onyame, que lhe dá um destino para cumprir. Então, esse elemento passa a constituir um duplo, ligando a pessoa ao Ser Supremo, agindo como um espírito guardião ou uma divindade pessoal e, às vezes, tanto oferecendo avisos para afastar a pessoa de problemas e perigos, como oferecendo maus conselhos e, assim, induzindo-a a incorrer em falta. Por isso é que todo indivíduo deve render culto ao seu kra e mesmo purificá-lo com oferendas rituais, pois durante a vida, o kra é estável e nunca deixa o corpo; mas com a morte, ele retorna a Onyame para prestar contas de sua trajetória no mundo dos vivos.

A purificação do kra deve ser feita, por exemplo, quando a pessoa se recuperou de uma séria doença e quer agradecer a seu espírito guardião pela ajuda. Essa purificação deverá consistir em uma oferenda de alimento. Aí, os amigos serão chamados a compartilhar do banquete; mas nenhuma comida será, como de hábito, derramada no chão em honra dos ancestrais ou de qualquer divindade, porque nesse dia o grande homenageado é o kra.

Vejamos, mais, que existem sete tipos de kra, cada um correspondendo a um dia da semana. Segundo esta correspondência é que se atribui o akradini, primeiro nome, a uma criança (Kwaku, quarta-feira; Kofi, sexta-feira; Kwame, sábado etc). Mas o recém-nascido deve permanecer recluso até o oitavo dia, ocasião em que a família realizará o ritual de saída. Neste dia, ele irá receber o kradin, um dos nomes dos espíritos de cada um dos dias da semana. E, durante toda a vida, a qualquer momento, sempre que necessário, o portador desse nome, e pela força dele, poderá se comunicar com seu kra, através da consulta a um osofo, chefe religioso, ou por meio de um ritual, ou pela adivinhação (cf. Nei Lopes, Kitábu, Senac-Rio, 2005).

E assim como o kra é muito mais que a “alma”, um adinkra é muito mais que um símbolo gráfico. Então, através deste belo acervo, reunido e redesenhado por Elisa Larkin e Luiz Carlos Gá, em momento tão oportuno, a África parece vir dizer aos que a menosprezam e humilham, depois de tudo o que dela já fruiram, este provérbio acã: “Se a floresta te abriga, não a chame de ‘selva”.

CORRIGINDO: O nome “Kwaku” é dado ao menino axante ou axanti que nasce numa 4ª. e não numa 6ª. feira, conforme informado no post anterior.




Quinta-feira, Outubro 08, 2009



SAMBA, CIÊNCIA E ESPIRITUALIDADE SE ABRAÇAM EM BELÔ

O Velhote do Lote esteve em Belo Horizonte, no último dia 6 de outubro, para uma apresentação musical no “V Simpósio de Doenças Falciformes”, realizado no Minascentro.

Foi um compromisso profissional, mas também um ato de solidariedade e agradecimento, principalmente às pessoas dos cientistas Kwaku Frempong (na foto, à esquerda) e Paulo Ivo Cortez, jovem cientista médico brasileiro, intermediador do convite, a quem nesta oportunidade agradecemos.

A anemia falciforme é uma doença barra-pesada, e meio invisível, pois incide basicamente em africanos e descendentes. “Os portadores dessa malformação precisam de cuidados especiais ao longo da vida. Manifestações como crise de dor, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência pulmonar e renal, úlcera de perna e acúmulo de ferro no organismo são ocorrências que aparecem com frequência no paciente adulto”, como informado no release do Seminário. E como nós aqui no Lote (e em nossa extensão gonçalense) bem sabemos desde 1999.

Por sua alta letalidade e pelo segmento de população que majoritariamente atinge, esse mal insidioso precisa de políticas públicas que minimizem seus e efeitos, e essa foi uma das preocupações do Simpósio.

Realizado em âmbito internacional, o evento trouxe ao Brasil o mencionado Dr. Kwaku Frempong, cientista-médico da República de Gana e maior referência científica mundial no assunto, sendo o já citado Dr. Paulo Ivo um de destacados seus discípulos no Brasil.

Assim, foi com muita emoção que o Velhote do Lote – depois dos “90 minutos regulamentares”, os quais cumpriu com garra e determinação ao lado do Quarteto Fina Flor e da grande cantora Sanny Alves (que, depois, até foi chamada pra dançar por uma robusta e decidida enfermeira presente ao evento) – teve a honra de apertar a mão do legendário Dr. Frempong, um verdadeiro rei axanti. E o fez para lhe agradecer as pesquisas, que muito têm contribuído para minorar o sofrimento de nossa família.

Nossa Ancestralidade estava lá, dizendo “presente”. E nossa posteridade, fortalecida, e cada vez mais serelepe, manda de cá seu agradecimento ao Dr. Frempong, na língua dele:

- Aseda, otumfo onyansafo Krempong! (Obrigado, poderoso sábio Krempong).

OBS: Entre os axantis de Gana, que não inventam nomes para os filhos, pois sabem que um nome é algo muito sério, “Kwaku” é o antropônimo que se dá ao menino nascido numa sexta-feira.




Segunda-feira, Outubro 05, 2009



O MIOLO DO JABUTI. PRA ENCERRAR O PAPO.

Como dissemos, esta semana, em mensagem enviada aos amigos mais chegados, nosso livro "História e Cultura Africana e Afro-Brasileira" (Barsa Planeta, 2008) faturou o prestigioso Prêmio Jabuti na categoria de livros didáticos e paradidáticos, esnobada pela crítica e pela mídia, porque não se insere no âmbito daquilo que é entendido como “grande literatura”. Entretanto, chamamos a atenção para o nosso livro, porque ele fala de coisas que nunca foram ditas, no Brasil, em nenhum livro de grande tiragem e alcance. E isto num momento decisivo para o destino da nação brasileira.

Sua parte final e suas conclusões dão uma boa idéia do que ele é. Então, os textos vão aqui transcritos. Em homenagem aos que nos têm congratulo e incentivado.

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A DEFESA DE AÇÕES AFIRMATIVAS

Os defensores das ações afirmativas argumentam que é impossível desvincular-se da questão social, que toda discussão sobre a má distribuição da renda, no Brasil, e sobre a conseqüente pobreza que assola a maioria da população nacional precisa ser compreendida em sua dimensão etnorracial. E isto porque, segundo eles, divisão da sociedade brasileira entre brancos e não-brancos sempre existiu.

Na defesa de seus pontos de vista, lembram os partidários das ações afirmativas que, no Brasil, a ascensão pela miscigenação, quando se deu, foi em ocorrências isoladas. Aqui, até pelo menos até o fim da época imperial, a mestiçagem entre “brancos” e “não brancos”, quando aconteceu, foi, em geral, no âmbito da superioridade dos primeiros sobre os outros, encoberta sob o manto do temor reverencial, através da imposição do poder sobre o corpo: do estupro, real ou presumido. Sem falar dos momentos em que a miscigenação foi vista como uma solução eugênica, como possibilidade de resolução de um problema, dentro da perspectiva que tinha a sociedade brasileira de “melhorar a raça” – para usar a expressão empregada, ainda em 2008, por um senador da República em relação ao casamento interétnico de um seu colega afro-descendente.

É dentro dessa perspectiva de “aprimoramento genético”, que, outrora, no Brasil rural, em contraponto à rotina dos coronéis “tombando” negras nos canaviais, alguns proprietários afro-mestiços mandavam buscar nas grandes cidades, homens “brancos” e alfabetizados para a eles entregarem suas filhas em casamento. Acreditava-se, como expressou no Primeiro Congresso Universal de Raças em Londres, em 1911, o então diretor do Museu Nacional brasileiro que, no Brasil, a mestiçagem da população a levaria ao total embranquecimento em cem anos, o que evidentemente não ocorreu.

O caso é que, na sociedade brasileira, salvo raríssimas exceções conhecidas, a efetiva mestiçagem da população quase que só se verifica nos estratos mais baixos, entre aqueles que não têm acesso à mobilidade social ascendente. Então, ela é sempre um fator de perpetuação da exclusão – diz a moderna militância negra.

EM BUSCA DA HARMONIA

Com base nesses argumentos os defensores do Estatuto da Igualdade Racial, em discussão no Congresso Nacional, apregoam que toda discussão sobre justiça social no Brasil tem que passar, sempre, pelo enfoque étnico. E esse enfoque é aquele que destaca a afirmação da identidade de cada grupo formador da sociedade brasileira. Não fosse assim, a Constituição Federal – dizem eles -- não disporia sobre a proteção das culturas de todos os grupos “participantes do processo civilizatório nacional", descendo à minúcia de abordar a “fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais”. Se, na luta por melhores condições sociais, a afirmação da identidade afro-descendente carecesse de sentido, também não se justificaria a existência dos milhares de associações étnicas ou nacionais, tanto recreativas quanto assistenciais e beneficentes que aglutinam, legitimamente, milhares de pessoas e famílias por todas as grandes cidades brasileiras. Estas associações se tornam mais fortes e politicamente influentes à proporção em que aumenta o poder econômico dos que as criaram e mantém.

De nossa parte, entendemos que o Brasil é um país múltiplo e que a nação brasileira é um todo multicultural. E que só com a convivência pacífica, harmoniosa e tolerante entre todos os segmentos e culturas, com equilíbrio econômico e político, é que se poderá chegar à democracia total com que todos sonhamos.

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OBS: A relativa neutralidade do texto corresponde ao estilo que se requer em um livro didático.




Sexta-feira, Outubro 02, 2009



O JABUTI DO LOTE EM JOINVILLE

Joinville, todo mundo sabe, é uma cidade catarinense fortemente marcada pela imigração alemã.

Pois o Velhote do Lote esteve lá, esta semana, como divulgado, para falar sobre história e cultura afrobrasileira e africana, tema de seu mais recente livro, publicado pela Editora Barsa-Planeta e que acaba de conquistar (a notícia nos chegou lá) o PRÊMIO JABUTI, na categoria de livros didáticos e paradidáticos, que é compreensivelmente esnobada pela crítica e pela mídia*.

Joinville nos surpreendeu pelo interesse de sua Secretaria Municipal de Educação em adquirir exemplares do “jabuti” para serem doados a cada uma das escolas de sua rede, com vistas à capacitação dos professores, em cumprimento à legislação federal que tornou obrigatório o ensino desses conteúdos. Enquanto isso, algumas escolas publicas do Grande Rio ainda se recusam a cumprir a Lei, para não ensinarem “macumba” aos seus rebanhos.

Mas a intenção do jovem secretário, professor Marquinhos Fernandes, começou a ficar clara quando lemos, em um livro sobre a colonização da cidade a seguinte epígrafe: “Que nossos filhos se orgulhem de nós como nós nos orgulhamos de nossos antepassados”.

Depois, fomos brindados com a exibição do grupo folclórico “Catumbi de Itapocu”, cantando e dançando em louvor de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. E, pra finalizar, resumindo essa história – como canta meu amigo Reinaldo, o Príncipe do Pagode, um dos maiores ídolos populares locais – participamos de uma roda de bate-papo, reunindo várias gerações do clube Kenya, associação recreativa e esportiva da comunidade negra, fundada na cidade há meio século. Roda essa na qual fomos informados que o clube mantém fortes ligações com um terreiro de candomblé da vertente angola (consagrada ao inquice Zaze, associado ao nosso alafim Xangô).

Pois é isso. A alemã Joinville sabe que conhecer os conteúdos culturais de origem africana é algo importante para todos e não só para os afrodescendentes.

Finalmente, reafirme-se que o Lote viajou, montado no seu Jabuti, a convite da Secretaria de Educação e com o apoio da Tupy, uma indústria pesada da pesada, de atuação internacional, com forte inserção na comunidade de Joinville, e que tem como vice-presidente executivo o sambista engenheiro Luís Carlos Guedes. E é claro que o Velhote não deixou de fazer a sua oktoberfestzinha, provando as louras locais (não daquelas aguadas como as da tendinha aqui em frente) e rebatendo com um chucrutinho, um kasslerzinho, que ninguém é de ferro.

Aí, o Velhote começa a lamentar não ter à mão aqui um dicionário de alemão pra dizer “obrigado, Joinville”. E aí, com a falta de cerimônia que nos é peculiar, recorremos ao primitivo nome da colônia, e mandamos lá:

- Valeu, Dona Francisca! Sua rapaziada aí chega juntinho.

(*) SOBRE A IMPORTÂNCIA DA PREMIAÇÃO, TOMAMOS A LIBERDADE DE TRANSCREVER PARTE DO E-MAIL QUE O JOVEM AMIGO RICARDO BISPO NOS ENVIOU: “Parabéns pela premiação, estávamos na torcida. É uma vitória dos Movimentos de Conscientização dos Negros, vitória da Educação (como um futuro pedagogo, estou soltando fogos), [...] Que os búzios continuem dizendo: Aláfia!”