Terça-feira, Julho 28, 2009



A sociedade civil está atenta à discriminação religiosa nas escolas, principalmente nas periferias.




Segunda-feira, Julho 27, 2009

GUIA DE LUTA CONTRA A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

O cientista social e escritor Prof. Jorge da Silva, referência em Direitos Humanos em todo o Brasil, está disponibilizando, por meio do link abaixo, aos interessados, o texto do "Guia de Luta Contra a Intolerância Religiosa e o Racismo", escrito por ele a pedido do CEAP, e publicado em parceria pela entidade e a SEPPIR. Visa a orientar a sociedade civil, os cidadãos em geral e os operadores da Segurança Pública e da Justiça a como lidar com esse mal. Mãos à obra!

www.portalceap.org/publicacoes/guia/guia.pdf




Quinta-feira, Julho 23, 2009



MONSIEUR SOUINDOULA, LE CAHIER EST SUR LA TABLE!

O professor Simão Souindoula (foto), vice-presidente do Comitê Cientifico Internacional do projeto « A Rota do Escravo », desenvolvido pela UNESCO, acaba de circularizar, na África e na Europa, uma alentada resenha sobre o volume 2 da coleção Sankofa (« Matrizes africanas e ativismo negro »), São Paulo, Selo Negro Edições, 2008, da qual temos a alegria de participar. E sobre esta nossa participação, o professor angolano, dirigente do CICIBA, Centro Internacional das Civilizações Bantus, escreveu, no seu francês rebuscado:

« La substance bantu de la culture de l’immense ancienne portugaise de l’Amérique méridionale est mise en relief par l’incontournable chercheur carioca Nei Lopes et la regrettée Beatriz Nascimento ».

O « incontournable » pode ser traduzido como « inflexível ». E Beatriz Nascimento é uma saudosa amiga, que nos deixou em 1995. E escreveu mais o historiador angolano, vejam:

« Selon le chercheur de Seropedica, l’interminable embarquement des Bantu se fera depuis les zones grassfieldiennes jusqu’ au fleuve Coporolo, au sud de Benguela, et, sur la « contre cote » orientale, entre le Zambèze et le Limpopo, dans l’actuel Mozambique ».

« Chercheur de Seropedica » é demais, não é não? Quem diria que este modesto Lote iria um dia estourar no eixo Paris-Gabão-Angola? Mas a coisa não para por aí. Leiam. Com o Petit Robert do lado.

« Le « sambiste » carioca rapporte qu’entre 1700 et 1850, les 2/3 de la main d’œuvre africaine débarquée à Recife et Rio de Janeiro, provenaient de Sao Paulo de Assumpcao de Loanda et de Sao Felipe de Benguela. »

E ainda tem mais:

“Le coriace érudit afro-brésilien reprend la fameuse affirmation du respectable Renato Mendonca (1948), selon laquelle : « Le quimbundo, par son utilisation plus vaste et plus ancienne, a exercé sur le portugais, une plus grande influence que le nago… ». Musicien et compositeur de talent, le collaborateur de Sankofa constate que les termes bantu surpassent, et de très loin, le vocabulaire d’origine nago, de circulation plus limitée ».

O « coriace » me complicou. Mas « coriáceo » é o que tem a consistencia do couro. Então, acho que pode ser traduzido como « inflexível ». Ou talvez « tenaz, determinado ». Tomara! E parece que é mesmo, porque o Dr. Souindoula ainda manda mais essa :

« Le solide homme de culture d’Itaguai, qui sait qu’il est oblige d’être, scientifiquement, très rigoureux face aux implacables mandarins des universités d’Etat et des universités fédérales de son pays, propose un tableau contenant une cinquantaine de mots portugais ayant subi l’altération phonétique ou morphologique et syntaxique bantu ».

Eta, nós, hein!? O professor Souindoula exagerou bastante. Mas não deixa de ser bacana ver a periferia (Seropédica, Itaguaí ) e « Santa Isabel » - como ele nomeu a « Vila » em outro trecho – fazerem essa viagem, não é não?

E que viagem, Monsieur Souindoula. Que viagem!




Terça-feira, Julho 21, 2009



CANDOMBLÉS EM FESTA!
PALMARES PROPÕE E PEZÃO SANCIONA LEI DE TOMBAMENTO


A denominação “candomblé” é o termo genérico com que, no Brasil, a partir da Bahia e desde o início do século 19, se designa o culto aos orixás jeje-nagôs (iorubanos e daomeanos, oriundos da região corresponde ao sudoeste da Nigéria e sudeste do Benin) bem como algumas formas dele derivadas, manifestas em diversas “nações”. Por extensão, o nome designa também a celebração, a festa dessa tradição; e a comunidade onde se realizam essas festas. Ex: “Hoje tem ‘candomblé’ no Candomblé de F.”

A modalidade original do candomblé consiste em um sistema religioso autônomo e específico que ganhou forma e se desenvolveu no Brasil, a partir da Bahia, com base em diversas tradições religiosas de origem africana, notadamente da região do Golfo da Guiné. Já os candomblés bantos, de rito “congo” ou “angola” e como tal referidos (“o congo”; “o angola”), são modalidades de culto nos quais prevalece a utilização de linguagem crioulizada originária respectivamente do quicongo e do quimbundo, línguas do grupo banto, faladas no Congo e em Angola. Estruturalmente, os símbolos e práticas desses candomblés pouco diferem daqueles usados nos candomblés de matriz nagô ou iorubana; e, recentemente, alguns estudos vêm desvendando aproximações suas com o universo dos antigos terreiros jejes. Entretanto, as similaridades desses candomblés com outras expressões da religiosidade banta, no Brasil e nas Américas, apenas são perceptíveis, pelo menos aparentemente, no âmbito da linguagem.

Outras modalidades de culto, como o batuque gaúcho, o xangô pernambucano, a mina maranhense, a umbanda etc., são caudatárias da matriz jeje-nagô, porém muitas vezes entrecruzada, essa matriz, com substratos bantos. Nesse particular, veja-se que a própria denominação “candomblé” (da mesma extração de "candombe") parece ter como étimo o termo multilingüístico banto kiandombe ou ndombe, significando “negro”.

Vejamos agora que o protótipo da espécie de comunidade religiosa hoje conhecida como “candomblé” foi o chamado “Candomblé da Barroquinha”, casa de culto implantada em Salvador, Bahia, no bairro central que lhe empresta o nome, por volta de 1789. Antepassado do atual Ilê Axé Iyá Nassô Oká, conhecido como “Casa Branca do Engenho Velho da Federação” ou simplesmente “Casa Branca”, esse terreiro foi fundado no momento histórico em que se verificavam os primeiros ataques daomeanos ao Reino de Queto (Ketu) – quando foram feitos cerca de 2000 cativos – e com o desembarque maciço na Bahia dos primeiros escravos dessa região.

Segundo a tradição oral, antes de seu efetivo estabelecimento, os futuros fundadores tinham-se aproximado dos cultos mantidos por africanos de nação Grunce ou Grunci, no bairro da Boa Viagem, na localidade de Dendezeiros, atual Vila Militar. Suas origens físicas remontam a uma casa, na Ladeira do Berquó ou na Rua da Lama, ambas hoje denominadas “Visconde de Itaparica”, erguida em terreno arrendado a um casal de proprietários brancos filiado à Confraria de Nossa Senhora da Piedade da Igreja da Barroquinha, fundada por crioulos e africanos da Costa da Mina em 1764.

Em seu magnífico trabalho sobre as origens do terreiro, o historiador baiano Renato da Silveira (O candomblé da Barroquinha: processo de constituição do primeiro terreiro baiano de queto. Salvador, Edições Maianga, 2006) conclui, com relativa certeza o seguinte: que, por volta de 1789 membros da família Arô, da linhagem real de Queto, e aliados, instituíram, nas cercanias da Igreja da Barroquinha, um culto doméstico a Odé Oni Popô (uma das manifestações de Oxossi) e, logo depois, também a Airá Intilê (um avatar de Xangô). Firmou-se, então, um acordo político ou aliança, que fez surgir o modelo de candomblé até hoje vigente, o qual, em vez de ser local de culto a uma só divindade, como o “calundu” colonial, concentra vários cultos a divindades de procedências diversas. Entretanto, por volta de 1807, após o arrendamento de um terreno situado atrás da igrejinha, por divergência de idéias, esse grupo transferiu-se para a localidade suburbana de Matatu de Brotas, onde, além dos orixás já cultuados, assentou também os fundamentos de Oxumarê, permanecendo os fiéis da Barroquinha devotados, ao que parece, principalmente ao culto de Airá Intilê. O terreiro suburbano deu origem ao conhecido Candomblé do Alaqueto e o do centro, à atual Casa Branca, mais tarde transferida para a localidade do Engenho Velho.

Vejamos finalmente que, desde pelo menos a década de 1870, por diversas razões históricas, o intercâmbio entre as comunidades negras na Bahia e no Rio de Janeiro foi intenso, dele nascendo, quase ao mesmo tempo, algumas importantes casas de culto em Salvador e na “Pequena África” carioca (eixo Praça Onze-Praça Mauá atuais), como foi o caso do venerando Ilê Axé Opô Afonjá e de outros axés históricos, como o de João Alabá.

Diante de toda essa monumental história, nada mais gratificante, então, que ler nos jornais cariocas deste fim de semana, que a lei de tombamento da religião do candomblé como patrimônio imaterial do Estado, proposta por nosso deputado e amigo Gilberto Palmares acaba de ser sancionada por Luiz Fernando Pezão, governador em exercício. E isto, no momento em que, por baixo do imenso caldeirão onde borbulha o mungunzá (denguê, pro povo nagô), vem crescendo uma revolução silenciosa, comandada por Ifá, o orixá do saber e da inteligência, retornado ao Brasil em 1991, depois de um longo exílio.

Mas isso é uma outra história.




Quarta-feira, Julho 15, 2009



Nei Lopes fala ao Bafafá
“As gravadoras acham que samba é coisa de preto, velho e pobre”


Nascido em 1942, Nei Lopes é uma figura expoente do mundo do samba carioca. Formado em direito e escritor com 25 livros publicados, desde cedo descobriu a vocação pela música cantando nas festas do bairro de Irajá, onde nasceu. Em 37 anos de carreira já compôs mais de 300 sambas, entre eles, “Goiabada Cascão” e “Senhora Liberdade”, ambas com Wilson Moreira, seu grande parceiro.

Em entrevista ao Bafafá, Nei Lopes fala sobre seus primórdios na carreira de sambista, fontes de inspiração, política das rádios e gravadoras e muito mais. “As gravadoras, mídia e a turma da cultura acham que samba é coisa de preto, velho e pobre. Da mesma forma que acham que todo roqueiro é intelectual (risos). Eles não sabem o que estão perdendo”, fuzila o compositor.

Leia agora mesmo a entrevista no Bafafá On Line

P.S. Nei Lopes está também no LIVRO DO ANO 2009 da Enciclopédia BARSA (ed. Barsa Planeta Internacional) com 2 importantes textos analíticos. Um sobre a importância de Jamelão, falecido ano passado, e outro sobre o centenário de Cartola, celebrado em 2008.




Segunda-feira, Julho 13, 2009



OS 50 DO “REI” E AS CURVAS DA HISTÓRIA DO SAMBA

Em 1965 a TV Record paulistana – no momento em que os Beatles ocupavam os cinco primeiros lugares do hit parade americano, fazendo uma música extraída da mesma fonte onde Bill Haley e muitos outros beberam – estreava o musical “Jovem Guarda”. Apresentado ao vivo, o programa era retransmitido no Rio, em Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife, através da recém chegada técnica do videoteipe. Comandado pelos cantores Roberto Carlos, Erasmo Carlos (definidos pelo poeta concretista e crítico de vanguarda Augusto de Campos, como “excelentes ‘tradutores’ de um estilo internacional de música popular”) e Wanderléia, o programa logo alcançou altíssimos níveis de audiência. E aí motivou a montagem de toda uma estratégia de marketing, dirigida principalmente ao público adolescente que o assistia. Assim, a marca “Calhambeque”, cujo nome provinha de um rock do repertório de Roberto Carlos, servia para vender uma série enorme de produtos.

Com o “Jovem Guarda”, chegava ao Brasil a música pop, forma concebida para o consumo de grandes massas em todo o mundo; e que, para atingir esse consumo tem sua atuação assentada em três axiomas básicos: o da modernidade (“o que não é pop é velho e ultrapassado”); o da abastança (“os artistas pop são ricos e seu público, potencialmente, também o é”); e o da beleza (“o que não é pop é feio”).

Na seqüência desses eventos, começava a vicejar no seio da indústria fonográfica transnacional atuante no Brasil a idéia de se criar, em nosso país, uma música que fosse, “ao mesmo tempo ‘jovem’ e brasileira”. É nesse contexto que o jornalista Nelson Motta (que em seu livro Noites Tropicais detalha todos esses acontecimentos), de volta ao Brasil depois de uma de suas viagens internacionais, assume coluna diária de meia página sobre o “poder jovem” no jornal carioca Última Hora, além de participar do corpo de jurados do popularíssimo programa de Flávio Cavalcanti, na TV Tupi, de onde sairia, em 1968, para a emergente TV Globo, a convite dos conhecidos Walter Clark e Boni. Nesse ano, marcado, ao seu final, pela promulgação do Ato Institucional confirmador da ditadura, a TV Record, numa espécie de revide à crescente internacionalização da música popular brasileira, realiza, em São Paulo, o festival intitulado Bienal do Samba.

Observe-se que, dois anos antes do AI-5, que a fecharia, mas já em plena vigência da ditadura militar, a Revista Civilização Brasileira, trincheira da resistência, publicava um texto em que o critico Flávio Eduardo de Macedo Soares confessava sua dificuldade em apontar as verdadeiras conseqüências do 1º de abril na contradição vivida pela música popular brasileira naquele momento, dividida entre uma corrente "alienada" e outra "participante" (como se dizia, na época), e que ele via, em princípio, como uma crise positiva que unificava toda a intelligentzia musical numa atitude crítica.

"O fechamento do Centro Popular de Cultura – escrevia Macedo Soares – foi um dado negativo, mas que desaparece se pensamos na possibilidade que surgiu de fusão das diversas tendências do samba [grifamos], tomadas de um sentimento comum de oposição política aos acontecimentos que se desenvolviam. Sem o 1º de abril não haveria o espetáculo Opinião, com o sucesso que teve. O espetáculo Opinião e principalmente o disco Opinião de Nara são importantes porque neles já estão conjugados todos os elementos da crise. Nesse disco Nara juntou o samba de morro, representado por Zé Kéti; o samba tradicional; a música étnico-folclórica (Berimbau, recolhido em Monte Santo pelo cineasta Glauber Rocha); a bossa nova de Antônio Carlos Jobim; a música rural de João do Vale; e a música de Edu Lobo. Estava resumido todo o programa da música dos novos compositores”.

Nesse texto, Macedo Soares prosseguia, ressaltando a importância de Edu Lobo nas transformações pelas quais o samba – denominação genérica que, à época, abrangia toda a música popular brasileira urbana – passava naquele momento. Essa relevância constatava-se na absorção, por Edu, da música erudita de autores modernos brasileiros, a qual representaria uma libertação do referencial do jazz, buscado pelos primeiros bossanovistas. E incluía, também, Carlos Lyra, Francis Hime e “Dorival Caymmi Filho”, o Dori, como músicos que teriam encontrado soluções semelhantes, com excelente nível de qualidade.

A “ideologização do samba, aliada ao anseio geral de dotar a música brasileira de reais conteúdos da cultura do povo”, foram, conforme a observação de Macedo Soares, as características básicas da música popular que se fez nos grandes centros brasileiros após o 1º de abril de 1964. Lembrava ele que, entre os compositores surgidos daquela data até 1966, à exceção de Marcos Valle, não havia nenhum que tivesse saído da linha de influência de Carlos Lyra e Sérgio Ricardo e seguido a corrente intimista da bossa-nova. E incluía entre esses produtores do "samba da nova geração" o chamado grupo baiano, depois responsável pela estética pop da Tropicália.

Observe-se mais que, na formulação de Macedo Soares, extraída de um artigo justamente intitulado A Nova Geração do Samba, escrito numa época em que ainda não se tinha inventado a mercadológica, preconceituosa e divisionista sigla MPB, o termo “samba”, usado como sinônimo da música criada pelos grandes astros da música popular urbana e difundida pela indústria do entretenimento, não tinha nenhuma conotação depreciativa ou inferiorizante, como aconteceu depois.

O caso é que, a MPB, iludida pela mesma modernidade que gerou as trans-rodovias inviáveis, as empresas estatais supérfluas (que, depois, o neoliberalismo privatizou), o futebol sem arte, a padronização dos shoppings, os condomínios fechados, o medo social e a segmentação da música do povo brasileiro em “ELA” e o “resto” – este feito por pessoas supostamente incapazes de refletir sobre as questões nacionais.

Mas as curvas da História do Samba são tortuosas. Então, a década de 1980 fez o pop-rock internacional meter “o pé na porta do mercado brasileiro”, como afirma entusiasmada a publicação Almanaque Abril, em sua edição de 2009. Aí, a velha Jovem Guarda ressuscitou, inclusive dando ensejo ao surgimento de uma música “sertaneja” impregnada de sua estética, e cada vez mais vitaminada pelo agro negócio, principalmente a partir de São Paulo e Goiás. E a tal da MPB – bem feito! – passou a ser vista como “um jeito de compor derivado do samba, de ritmos nordestinos, do jazz e do pop” (Almanaque Abril, 2009, pág. 222).

É nesse ambiente que os meios de comunicação celebram os 50 anos do “rei” Roberto Carlos. Cuja música, de tanto tocar (de Quero que vá tudo pro inferno, 1965, até hoje), não se sabe se em execuções espontâneas ou “incentivadas”, acabou se tornando algo difícil de julgar, blindado contra qualquer avaliação possível. Assim, talvez, o “ruim” da década de 1960 fosse efetivamente “melhorando” em comparação com o “pior” que surgia ao seu redor.

Não sabemos. O que podemos dizer, repetindo, é que as curvas da História do Samba são tortuosas. Tanto que, antes de ser “Rei”, S. M. Roberto Carlos, quem diria, andou também cantando uns sambinhas (Flor maior, 1966; Maria, carnaval e cinzas, 67), na época dos festivais.




Terça-feira, Julho 07, 2009



A ANTROPÓLOGA E AS “MULATAS DE CRISTO”

Nossa amiga Kelly Adriano de Oliveira, filha do saudoso Adriano, baterista durante muitos anos responsável por boa parte do suíngue da nossa Leny Andrade, acaba de defender brilhantemente sua tese de doutorado na UNICAMP [ver em http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp]. Apresentada no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da conceituada universidade, a tese, “Deslocamentos entre o samba e a fé – Um olhar para gênero, raça, cor, corpo e religiosidade na produção de diferenças”, é sobre a percepção, pelas chamadas “mulatas” das agremiações sambistas paulistanas, do universo de preconceitos e estereótipos que cerca a mulher negra no mundo do samba.

Em sua pesquisa de campo, a Dra. Kelly surpreendeu-se ao saber que boa parte das passistas ouvidas frequenta igrejas evangélicas neopentecostais, como as intituladas “Renascer em Cristo”, “Bola de Neve” e “Igreja da Graça Mundial”.

Mais surpreendente ainda, para a antropóloga, foi constatar que, por pertencerem a essa igrejas, as moças julgam ter adquirido uma “blindagem” de corpo e alma, o que as tornaria imunes aos propalados males do ambiente do samba. E o próprio estigma de vulgarização que pesa sobre a atividade delas (naquele samba mecânico, sobre saltos plataforma – O parênteses é nosso.), estaria neutralizado por sua condição de cristãs fervorosas, de convicções inabaláveis.

E encontrou mais coisas a Dra. Kelly! Coisas importantes. Que lhe renderam aplausos dos assistentes e a aprovação da banca examinadora.

Quanto a nós, além da alegria de ver a amiga - depois de tanto sacrifício pessoal - finalmente doutorada, ficou a inspiração para um samba, cuja letra, ainda sem a melodia que merece, ficou por enquanto assim:

EVA ANGÉLICA

É ela
Que eletriza os tabernáculos
Transforma ímpios em diáconos
Com seu poder e sua unção.

É ela
Musa de bispos e presbíteros
Anunciando o Apocalipse
E prometendo a salvação.

É ela
O nome dela é Eva Angélica
Sua beleza estratosférica
Põe o universo a seus pés.

Quando ela
Na hora agá desce do púlpito
Naquele descarrego súbito
É nota dez, nota dez!

II

No templo da passarela
Cheguei junto dela
E louvei assim:
“Neste evento congregacional
Que se chama carnaval
És meu querubim”.

Mas quando eu a chamei “pastora”
E “a mais linda preletora
Da Lira do Amor”
Ela sorriu ruborizada
E me respondeu: “Que nada
O senhor é que é o meu pastor!”

REFRÃO:

Ô – Ô – Ô – Ô
É com Ela que eu vou
Ô- Ô - Ô – Ô
Glorificando seu valor! - BIS




Segunda-feira, Julho 06, 2009



O BANGU, O SUBÚRBIO E A SAGA DOS
"MULATINHOS ROSADOS”


Este post é uma homenagem ao nosso editor, Marcusfer, filho dileto daquelas terras entre o maciço da Pedra Branca e o do Gericinó. E vem para dizer o seguinte:

Fundado em abril de 1904, por empregados da Companhia Progresso Industrial do Brasil, a popular “Fábrica Bangu”, em sua maioria ingleses, o Bangu Atlético Clube tem uma história da pesada. E isto porque, ao contrário de outros antigos clubes de futebol surgidos em fábricas, nos quais só jogavam ingleses e descendentes, os diretores da Companhia não se opunham à participação de negros na equipe. Assim, dois anos após a fundação, no primeiro campeonato de futebol disputado no Rio, o Bangu escalava em sua equipe um jogador negro, o goleiro Manoel Maia.

Este fato motivou forte reação por parte da AMEA, Associação Metropolitana de Esportes Amadores, a qual, logo depois, proibiu, o registro de atletas negros, sob o pretexto de que eles, sendo pobres, jogavam por dinheiro. Então, abandonando a AMEA e mantendo em seus quadros jogadores como Luiz Antonio, Ladislau da Guia e Memédio, irmãos do célebre Domingos, o clube firmou posição contra o racismo no futebol. Certamente em decorrência disso foi que, por volta de 1929, o time passou a ser ironizado como o dos “mulatinhos rosados”, eufemismo às vezes atribuído a um dirigente banguense, defendendo-se de afirmação segundo a qual o seu era um “time de ‘crioulos’”.

Sempre enfrentando o preconceito, na semifinal do primeiro campeonato carioca após a instituição do regime profissional de futebol, em 12 de novembro de 1933, o Bangu venceu o Fluminense F.C., nas Laranjeiras, sagrando-se, por antecipação, o primeiro campeão do futebol profissional carioca. As comemorações foram ruidosas; e na volta dos jogadores para a sede, já de noite, à medida que o cortejo se afastava da cidade – conforme Mário Filho em O negro no futebol brasileiro, pág. 225 – , mais gente nas estações, nas ruas suburbanas: mais gente em Madureira que no Méier, mais ainda em Bento Ribeiro do que em Madureira. E a festa não era só do Bangu, era de todos os subúrbios, naquela velha rivalidade entre o “lá em cima” e o “cá embaixo”. O Bangu era o subúrbio; o Fluminense era a cidade – frisou Mário Fiho.

Por essa época, o campo dos “mulatinhos rosados” localizava-se na esquina da rua Cônego Vasconcelos (na época, denominada “Rua Ferrer”, em homenagem póstuma a um superintendente da Fábrica) com a avenida Santa Cruz. Em 1947, entretanto, por iniciativa do industrial Guilherme da Silveira Filho, o “Silveirinha”, o clube inaugurou seu novo estádio, o qual conta, ainda, com uma estação ferroviária exclusiva (Guilherme da Silveira), em torno da qual se desenvolveu, entre Bangu e Padre Miguel, o sub-bairro outrora denominado “Moça Bonita”.

No século XX, o último campeonato carioca conquistado pelo Bangu foi o de 1966, vencendo o Flamengo, na partida final, por 3 a 0. Nesse jogo, aos 25 minutos do segundo tempo, ocorrendo um conflito, cinco jogadores do Flamengo e quatro banguenses foram expulsos de campo, o que ocasionou o fim da partida. Na tristeza da derrota, flamenguistas acusaram o presidente “Seu Zizinho” (Eusébio de Andrade) e o vice Dr. Castor, seu filho, de terem subornado o árbitro, o que não foi comprovado. Segundo opinião quase unânime, a vitória do Bangu foi merecida; e o conflito que encerrou a partida em nada empanou o brilho da conquista banguense, 33 anos depois da histórica vitória sobre o Fluminense.

Vale lembrar que o Bangu foi o time onde nasceram para a glória Fausto, o “Maravilha Negra”(1905 – 1939); Domingos da Guia, o “Divino Mestre” (1912 – 2000); Zózimo (1932 – 1977), Ademir da Guia (1942 – ) etc. E onde brilhou, entre outros e mais que todos, nosso saudoso amigo Zizinho, o “Mestre Ziza” (1921 – 2002).

Observe-se também que este singelo escrito é apenas uma homenagem de um vascaíno não histérico mas já mais ou menos histórico: este “mulatinho rosado” que vos fala.




Quinta-feira, Julho 02, 2009



PRA QUEM É DA CONFRARIA: MÁRCIO-ANDRÉ

O Irajá continua surpreendendo! Primeiro, foi a “Academia Irajaense de Letras”, com hino, fardão e até (dizem) chá de quebra-pedra, às quintas-feiras, pra limpar os rins dos veneráveis acadêmicos. Depois, a surpresa veio na antítese. Com uma iniciativa de arte, literatura e pensamento de forte perfil vanguardista, chamada “Confraria do Vento”, irradiada a partir da revista eletrônica e da editora de mesmo nome.

Surgida em 2007, a Confraria tem como um de seus fundadores o Marcio-André, poeta, músico, programador de som, performer, tradutor, ensaísta e editor da revista Confraria. Nascido lá mesmo no Irajá, em 1978, e formado pela UFRJ, o M-A acabou se tornando nosso chapinha, via internet. E via ECT também, pois semanas atrás nos enviou seu último trabalho, o livro Ensaios radioativos.

Por força desse livro, Márcio-André concedeu uma entrevista ao Fórum de Literatura Brasileira, site da Faculdade de Letras da UFRJ (www.forumlitbras.letras.ufrj.bras) na qual mete a seguinte bronca. Vejam!

**

ENTREVISTADOR: “Por causa do capítulo ‘Proposta para se pensar as nuvens’, no qual se fala do amor pelas coisas ordinárias, você foi tachado de provinciano ao enaltecer as casas suburbanas, destacando-lhes a arquitetura espontânea, sem a uniformidade habitual dos prédios da Zona Sul. Como avalia tal crítica?

MÁRCIO-ANDRÉ: “A cidade do Rio de Janeiro chegou a um limite no qual parece incapaz de produzir um pensamento fresco ou renovador. Excetuando-se alguns intelectuais indiscutíveis de uma geração anterior (Joel Rufino, Nei Lopes, Milton Santos, Costa Lima, Silviano, Emanuel Carneiro Leão, Eduardo Portella, para citar alguns), me parece que a intelligentsia carioca, sobretudo a geração mais jovem, tem se valido da retórica do saber unicamente como adorno para a manutenção de seu lugar na aristocracia intelectual. Num misto de erudição de livraria de Zona Sul e cultura televisiva dominical, eles vão ocupando os canais por meio dos jogos de influência. E sem um engajamento e uma reflexão profunda nas e das coisas, resta somente para eles a reafirmação do senso comum – pior, do seu próprio senso comum. Eles são completamente incompetentes para pensar a cidade, uma vez que o seu papel de intelectual é um embuste atribuído hereditariamente de geração em geração, através dos vícios e segregações que tornaram a cidade o que ela é. Não deixa de ser simbólico o fato de ser filho de um grande figurão a pessoa responsável pela crítica que você menciona. Há hoje uma geração de “filhos de” que, atrelada à geração dos “amigos de”, “primos de”, “cunhados de” e “viúvas de”, promove uma verdadeira suruba de troca de influências com o único propósito de não largar o osso, num país que sequer fez uma reforma agrária ou social (é uma lógica maquiavélica – fundamento de uma segregação invisível, onde o próprio segregador se recusa ou finge não percebê-la). Sobre a falta de bom senso e do que dizer: ora, não saber o que dizer resulta e já é resultado de um não saber ler. Obviamente é natural que quem me fez tal acusação tenha vestido a carapuça, irritando-se com um texto que questiona a imagem tradicional da “cidade maravilhosa”, o legado que seus pais e compadrinhos lhe deixaram como herança. E qualquer um que proponha uma outra cidade, uma cidade sonhada de dentro para fora, uma cidade que se queira outra coisa que não a pseudo-Paris de botequins-butiques do Leblon, será tachado de provinciano. Obviamente, há outra questão também: o fato desse texto vir de um cara sem ‘pedigree’que, não fazendo parte de seu círculo de relações, sequer socioeconomicamente, não frequentando suas festinhas, não compactuando com sua cosmovisão deslocada da realidade que lhe bate à porta, ouse refletir bem além do que ele possa compreender. O que se converte numa grande demarcação de território, uma vez que qualquer postura política por parte dessa falsa classe de intelectuais não defende absolutamente nada de que não possa tirar proveito. Entendo esse ataque como uma forma de disfarçar a própria incapacidade de se renovar. E note que estamos falando de alguém que, graças a seu círculo de influência, adquiriu status de “intelectual” em pouquíssimo tempo, com textos semanais que debatem a etimologia dos livros da Danuza Leão ou fazem profundos questionamentos em torno do direito à privacidade do craque Ronaldo”.

**

É, malandragem!... O Irajá atual não é tão longe como dizia a marchinha cantada pelo Jorge Veiga em 1947. Nem tão inocente que obrigue a transgressora “Kátia Flávia” a buscar Copacabana como plataforma de lançamento de seu “Exocet Calcinha” (alguém ainda se lembra?)