Segunda-feira, Junho 30, 2008



KOFI E O MENINO DE FOGO

É com essa ilustração aí, e mais umas dez, que o Velhote do Lote vai fazer sua estréia na literatura infantil e sua entrada triunfal no incomum mercado europeu.

A ilustração é de autoria da francesa Hélène Moreau, une designeuse da pesadíssima; e a editora é a nossa Pallas, na qual as queridas Cristina e Mariana Warth, mãe e filha, batem uma bola redondinha, honrando a memória do patriarca da família, o saudoso Antônio Carlos.

E, aí, lá vou eu, passando pelo Arco do Triunfo, cantando aquele animado samba de Paderinho e Nei Lopes (gravado por Nilze Carvalho) que diz: "Eu sou o samba / e ninguém vai me derrubar / Já sambei na Torre Eiffel / já cantei no Olympiá. / Por isso eu digo, / mes amours et mes amis / naquele papo cretino dos urubulinos / já dei cest fini (Estou aí)".

Ça, ça Paris !!!







AMAR RENOVA E FORTALECE

No domingo 22, deste mês de junho, o jornal O Globo publicava um texto de nossa autoria sobre a questão do Direito Autoral no Brasil. Nele, baseados em nossa experiência como dirigente da AMAR-SOMBRÁS, uma das sociedades que integram o ECAD, dizíamos, em resumo, o seguinte:

Que uns 20 anos atrás, a partir de relatórios divulgados pelo ECAD, via-se que, a arrecadação anual, conjunta, dos 11 maiores autores de nossa canção popular de então não chegava ao que recebia apenas 1 dos grupos multinacionais (gravadora e editora) então no país. E que, ainda hoje a maior parte da renda dos nossos direitos autorais continua indo para as mãos das “multis”, pois a Lei equipara aos autores as empresas editoras a quem o autor cede os direitos sobre sua obra.

Dizíamos, mais, que o compositor cria a música e, na gravação, assina um contrato no qual a editora passa a ser uma espécie de “sócia” no negócio, recebendo, em geral, em torno de 25% sobre o que a obra render. Então, de 25 em 25 a “multi” enche o papo, acontecendo, a partir daí, a absurda concentração de renda que faz com que, do bolo distribuído, o criador de música no Brasil, mesmo quando bem aquinhoado, só tenha direito ao farelo.

Faltou-nos entretanto dizer, no artigo, que as gravadoras multinacionais, além da venda de seus produtos (CDs, DVDs etc) também se beneficiam, na arrecadação do ECAD, de quase 35% dos chamados direitos conexos (os dos intérpretes, músicos executantes e produtores fonográficos) dentro da condição de titulares que lhes confere o art. 94 da Lei Autoral. Assim, e agrupadas, de tempos em tempos, desde a fundação da UBC, na década de 1940, na associação que mais lhes convém, essas gravadoras e suas editoras é que conduzem as decisões do ECAD, onde o voto de cada sociedade é proporcional à sua arrecadação mensal.

A nossa AMAR já teve em seus quadros aquilo que era considerado a “nata” da chamada “MPB”. E, enquanto isso aconteceu, ela, embora ainda fosse sempre “voto vencido” nas assembléias do ECAD (o melhor do bolo sempre foi das “multis”), sentiu-se mais fortalecida para influir, associada à imagem de seus filiados mercadologicamente mais conhecidos – com os quais os políticos profissionais sempre gostam de ser fotografados –, até mesmo a elaboração de boa parte da atual Lei Autoral, em vigor desde 1998. Mas, pouco a pouco, algumas dessas “ilustres figuras” foram mudando de casa, indo parar (galinhas na toca da raposa) nos braços das mesmas associações que congregam as gravadoras multinacionais. Entretanto, quem era firme e coerente, de verdade, ficou na AMAR, agüentando, entre outros muitos trancos, até uma CPI criada por deputados donos de emissoras de radiodifusão que achavam que pagar direitos autorais era um absurdo.

Agora, nestes tempos violentos em que o capitalismo selvagem tudo compra ou desagrega – tempos em que, por exemplo, grupos se organizam para fraudar a codificação internacional que identifica as gravações (ISRC) e receber direitos como se músicos fossem; em que dentro de grandes emissoras de TV geram-se informações para fazer com que simples vinhetas de 30” tenham valor de execução e arrecadação igual ao de obras musicais no sentido estrito; em que até o Ministério a que está afeta a questão acha que o cumprimento da Lei Autoral é que “impede a circulação da Cultura” –; nestes tempos duros, a AMAR, muito mais que uma associação gestora de direitos, é uma organização da sociedade civil, comprometida politicamente com o aprimoramento das instituições, com o equilíbrio entre os vários segmentos sociais e com a defesa do patrimônio cultural do povo brasileiro.

Desde sempre, a única sociedade autoral musical, no Brasil, exclusivamente liderada e administrada por autores, compositores, escritores, intérpretes, arranjadores, regentes, professores e intérpretes de música, a AMAR é exemplar. E quem quiser comprovação, basta acessar a página www.amar.art.br. Ou dar uma folheada no livro Arrogantes, anônimos, subversivos: interpretando o acordo e a discórdia na tradição autoral brasileira, de Rita de Cássia Lahoz Morelli – Campinas, SP, Mercado de Letras, 2000.

Aí, vai dar para entender porque o Direito Autoral no Brasil é “questão de segurança nacional” – como disse, um dia, nosso firme companheiro Hermínio Bello de Carvalho (foto acima).




Terça-feira, Junho 24, 2008



OS 79 DO “MULATO-AMERICANO” NOS 50 DA BOSSA-NOVA

Em 1966, no seu pioneiro Música popular, um tema em debate, José Ramos Tinhorão (que, de simples “crítico ranzinza” ascendeu à condição de um dos maiores historiadores da cultura popular brasileira e acabou por encetar carreira acadêmica, pra calar a boca dos donos da chamada “MPB”), listando os “pais da bossa-nova”, iniciava o rol com o nome de Johnny Alf, assim descrito: “pianista mulato brasileiro de nome americano”.

Três anos depois, era publicado O samba agora vai...: a farsa da música popular no exterior. Nesse livro, contando a saga do produtor Aluísio de Oliveira, “antigo empregado de Walt Disney”, em seus “40 anos de serviços prestados à música norte-americana”, Tinhorão, ao mencionar o encontro de Aluísio com a jovem cantora Silvinha Teles, que viria a ser sua mulher, afirma que ela “aumentava a idade para poder ouvir o mulato americanizado Johnny Alf tocar piano na boate Plaza, em Copacabana”.

É claro que Tinhorão hoje escreve diferente. E nem tem mais tempo pra perder com essas bobaginhas dos anos 60, quando merenda ainda não era fast-food; nem liquidação, sale; nem entrega era delivery; e quando o único referencial positivo dos afro-brasileiros eram os negros americanos.

Tinhorão hoje escreve diferente! Mas com a mesma clareza de sempre. Porque quase nada do que ele escreveu sobre a bossa-nova perdeu a validade. E ele, hoje, certamente há de reconhecer que, apesar “do acidente da cor” (expressão cunhada pelo padre Januário da Cunha Barbosa em elogio ao orador sacro João Pereira da Silva, no século 19); apesar de excluído, Johnny Alf foi “o cara”.

Digo isso a propósito da matéria “De bem com a vida”, de Antonio Carlos Miguel, publicada na edição de 22.06.08 de O Globo. E sabendo que não só Johnny Alf foi “limado” do tal concerto do Carneggie Hall nova-iorquino em 1962 (“Disseram que não me encontraram, mas tinha gente que não gostava de mim” – entrega Alf), que no fundo foi uma festinha VIP brasileira, entre amigos, quase todos com sobrenomes em placas de ruas, edifícios ou galerias da zona-sul.

Na mencionada matéria, recendendo a bom perfume, está lá a confessada idolatria de gente finíssima da chamada “MPB” ao “mulato americanizado”, mestre de Tom Jobim, João Donato e tantos outros. E está também o que muita gente, inclusive o Tinhorão, talvez não soubesse: que Alfredo José da Silva, o “Johnny Alf”, nascido em 19 de maio de 1929, e hoje se recuperando (que bom!) de uma doença braba, estudou piano clássico dos 9 aos 14 anos, graças à família bacana de quem sua mãe era empregada doméstica. Isto, é claro, ainda no tempo dos padrinhos e madrinhas, cujas “ações afirmativas” tinham possibilitado, um pouquinho antes, a ascensão de “mulatinhos pernósticos” (ah, se a juventude ainda pudesse contar com essa brisa, talvez, quem sabe...), tais como Machado de Assis, Lima Barreto, Teodoro Sampaio etc, etc, etc.





O LOTE RECOMENDA





Sexta-feira, Junho 20, 2008



DUDU NOBRE E O COROA DA "PEDOFILIA"

"Fast-food era merenda, / break-fast, café da manhã. / O hipermercado era venda / e Halls-Mentolyptus, bala de hortelã / (...) / Pedófilo era tarado, / Moleque pequeno, guri / no tempo que Dondon jogava no Andaraí, / no tempo que Dondon jogava no Andaraí."...

Com estes versos safadinhos, o Velhote do Lote acaba de entrar para a História da música popular brasileira como o primeiro compositor a registrar, para a posteridade, o vocábulo "pedófilo" numa canção. Sinal dos tempos! E bem de acordo com a onda de desenvolvimento sustentável, biocombustíveis e reciclagem que anda por aí.

O quê? Pedofilia? Não!!! Que horror!

O sinal dos tempos é que o Dondon foi reciclado; e os versos acima fazem parte da nova letra feita para este sucesso que já atingiu a maioridade, pois nasceu em 1987. E como a indústria fonográfica gosta mais é de investir no que já deu certo, ele foi escolhido, de roupa nova, para o novo DVD/CD do Dudu Nobre, contando com a participação vocal "vigorosa" (apud Mauro Ferreira, de O Dia) do avô do Neinho e da Larissa.

Dudu Nobre é um tremendo músico e sambista. E, além de ser uma ponte entre a tradição e a modernidade, sabe jogar o jogo da indústria. Foi assim que, uns dois anos atrás, lançou um primoroso e contagiante CD de sambas-enredo, no qual a luxuosa produção artística não deixou a obviedade entrar. E, agora, o nosso Dudu, lança "Roda de Samba", só de pagodes espertos, tipo arrasta-povo, com as mesmas competência, classe e mega-estrutura.

Neste DVD/CD, além das presenças estelares de Zeca, Martinho e Almir Guineto, influências confessas do artista, bem como da excelente cantora Roberta Sá (a doce e bela "parede" do meu cumpádi Pedro Luís), lá está o Coroa, com sua marra disfarçada; seus sapatos de fivela feitos no Souza; seu bonezinho made in New Orleans (ah, Paulinho Albuquerque, como você faz falta!); seu propalado "vigor vocal"... E o couro come!

Ah! Faltou dizer que, nessa, o Dudu (cujo nome em iorubá significa "preto") canta dois sambas de Geraldo Babão, mestre de todos nós.

Vale a pena conferir! "Pedofilias" à parte.




Quarta-feira, Junho 18, 2008

O LOTE RECOMENDA



Sidney Mattos
www.myspace.com/sidneymattos




Terça-feira, Junho 17, 2008





FOSSE MENOS "PUXADOR", JAMELÃO TALVEZ NÃO TIVESSE "MORRIDO"
Morto sábado, aos 95, artista foi um dos maiores cantores populares do Brasil, formando no mesmo time de Francisco Alves, Sílvio Caldas e Orlando Silva

NEI LOPES
ESPECIAL PARA A FOLHA

O cantor Jamelão não foi o maior intérprete das escolas de samba brasileiras. Muito mais do que isso, ele foi um dos maiores cantores populares do Brasil em todos os tempos, formando no mesmo time de Francisco Alves, Sílvio Caldas, Orlando Silva, Nelson Gonçalves etc. Por que, então, não obteve o mesmo sucesso de público alcançado por esses mitos da canção brasileira?

Fazemos essa pergunta tomando como base a idéia central de nosso livrinho "O Samba na Realidade...: A Utopia da Ascensão Social do Sambista" (Codecri, 1981). Nele, discutíamos o fato sócio-histórico segundo o qual as escolas de samba, criadas para legitimar a cultura de suas comunidades fundadoras, foram ilusoriamente acreditadas, em um certo momento, como canais de ascensão social por esses grupos. Devido a vários fatores, entretanto, a maioria de seus artistas viu frustrar-se essa possibilidade de prestígio e ascensão a partir da década de 1970.

Já cantor de gafieira nos anos 30, quando as escolas ensaiavam seus primeiros passos, Jamelão ingressou na Mangueira por mero prazer, como ritmista, e só passou a crooner cerca de 20 anos depois.

A partir daí, mais ou menos por duas décadas, sua porção de cantor romântico -interpretando com orquestra notadamente as principais obras de Lupicínio Rodrigues, mestre do samba-canção- conviveu sem problemas com a de crooner mangueirense na avenida.

Desde, entretanto, o momento em que as escolas de samba passaram a privilegiar o aspecto visual dos desfiles em detrimento da música, quase todos os artistas diretamente envolvidos com essa forma de expressão, mesmo os geniais, foram como que sugados pela areia movediça em que as escolas passaram a "evoluir". E Jamelão não foi exceção.

Este não foi o caso, por exemplo, da cantora Alcione, que associou belamente seu nome à Mangueira depois de uma carreira já consolidada e envolvendo-se mais nas questões sociais do que nas artísticas da agremiação. Nem o de Martinho da Vila, dono de uma trajetória invejável, mas que recentemente parece ter-se dado conta do que queremos demonstrar.

Mas foi o caso, sim, de Jamelão (cujo nome artístico já trazia implícita uma indelével carga racista), apesar de receber do Ministério da Cultura a medalha da Ordem do Mérito Cultural em 2001 e das homenagens que recebeu por ocasião de seu 90º aniversário.

No nosso entender, se fosse mais o intérprete genial de Lupicínio, Lúcio Cardim e Ary Barroso e menos o "puxador" de samba-enredo, o cantor Jamelão -que, além de cantar divinamente, escrevia e lia música como poucos- talvez não tivesse "morrido" para a indústria do disco na década de 1970.

Seria, no final de sua trajetória, mais admirado, endeusado e mitificado do que escarnecido por seus protestos ranzinzas e suas tiradas justificadamente mal-humoradas.

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NEI LOPES é compositor e escritor, autor de "Partido Alto - Samba de Bamba", entre outros




Sexta-feira, Junho 13, 2008

MR. OBAMA, A ÉPOCA E O SONHO DE MARTINHO

Contrariando expectativas que já duram mais de cem anos, no Brasil, “país com a maior população afro-descendente fora da África”, “negros e pardos vão superar o número de brancos neste ano” de 2008, conforme afirmações textuais do jornalista Ivan Martins, em reportagem publicada na edição do último 9 de junho da revista Época, publicação semanal da Editora Globo. As afirmações, acompanhadas da constatação de que o país “não tem um único político negro de projeção nacional”, vem a propósito da candidatura do senador Barack Obama à presidência dos Estados Unidos.
No momento em que o Congresso Nacional prepara a votação do Estatuto da Igualdade Racial e um grupo de intelectuais e artistas lidera a corrente contrária à aprovação do texto, colocando-se contra a “grave ameaça” de secessão da sociedade brasileira em “negros” (pretos e pardos) e “brancos” (louros e “morenos”), como se essa divisão, em termos de poder e capital, já não fosse a grande característica desta sociedade. Invocam, agora, esses arautos da “desracialização”, no calor da discussão sobre o problema social brasileiro, o suposto exemplo de Obama, o qual, em pura retórica de campanha, afirmou num discurso que “não existe uma América branca, uma negra, uma asiática, uma hispânica: e sim os Estados Unidos da América”. E os “desracializadores” invocam o candidato americano, nos apontando o dedo, como se dissessem: “Estão vendo? Ele não exibe a cor da pele como uma arma ou um escudo!”.

Para nós seria realmente ótimo se o Brasil fosse esse paraíso mestiço que os não-racialistas apregoam. Se além dos mulatos “no sentido lato”, como diz a canção, também aqueles no sentido estrito (com a indisfarçável fenotipia dos majoritariamente afro-descendentes), como o autor destas linhas se vê e considera, tivessem as possibilidades de poder e influência que tem o afro-americano Barack Obama. Mas esta, infelizmente, não é a nossa realidade.

Atrasados em pelo menos cinqüenta anos com relação às conquistas sociais do povo negro nos Estados Unidos, no Brasil, nós, herdeiros do mesmo brutal despojamento que plasmou a sociedade norte-americana (e do qual Obama, esclareça-se, não é vítima direta) vimos sendo, há mais de 120 anos forçados a acreditar que neste país “alegremente mestiço e desracializado”, nunca houve segregação nem ku-klux-klan, e que nossa inferioridade deve-se apenas a problemas econômicos e pode ser zerada com boas escolas e boas merendas para todos.

Mas aí, vem o jornalista Ivan Martins, da Época, e, depois de dar a palavra ao idealizador e diretor da paulista Universidade Zumbi dos Palmares, “gerida por negros, subsidiada e voltada para as classes mais pobres”, pergunta, na reportagem mencionada: “Quanto tempo, porém, será necessário para que se produza um líder como Obama no Brasil?”.

Enquanto isso não ocorre, meu amigo Martinho da Vila - que publicou um artigo otimista em O Globo dia desses - segue cantando seus belos sambas-enredo. Principalmente, o “Sonho de um sonho”, com que sua escola chegou em segundo lugar (empatada com mais duas) no disputado carnaval de 1980.





A MESTIÇAGEM, AQUI E ALI

Defensor de todo tipo de ação compensatória ou afirmativa que vise, mesmo experimentalmente, à erradicação ou pelo menos a uma melhor compreensão do racismo brasileiro, peço licença aos visitantes do Meu Lote para dizer, em alto e bom som, que, para mim, é impossível desvincular a questão social, que a todos nos envolve e preocupa, do fator étnico, ou "racial", como se dizia antigamente. Pra nós aqui no Lote, toda discussão sobre a má distribuição da renda, e sobre a conseqüente pobreza que assola a maioria da população brasileira, precisa, sim, ser compreendida em sua dimensão etno-racial. E isto porque a sociedade brasileira é historicamente dividida em função de sua composição étnica. De um lado, e acima, sempre estiveram os considerados e chamados “brancos” (jamais divididos em “louros” e “morenos”); do outro, os “não brancos”, ou seja, os ameríndios, e, a partir de determinado momento e circunstância históricos, os africanos e seus descendentes.

Ao contrário, por exemplo, do atual Haiti, onde, na época colonial, as inúmeras mulheres negras fecundadas por brancos eram socialmente dignificadas, seus filhos indo constituir o poderoso contingente da gens de couleur, no qual se incluíram os presidentes mulatos Rigaud (1797 – 1800), Pétion (1806-1820) e Boyer (1820 – 1843); ao contrário desse exemplo, no Brasil, a ascensão pela miscigenação, quando se deu, foi em ocorrências isoladas. Aqui, até pelo menos até o fim da época imperial, a mestiçagem entre “brancos” e “não brancos”, quando aconteceu, foi, em geral, no âmbito da superioridade dos primeiros sobre os outros, encoberta sob o manto do temor reverencial, através da imposição do poder sobre o corpo: do estupro, real ou presumido.

Além disso, a partir de um determinado momento, o que era visto como socialmente condenável, passou a encerrar uma possibilidade de resolução de um problema, dentro da perspectiva que tinha a sociedade brasileira de “melhorar a raça” – para usar a expressão muito recentemente empregada por um senador da República em relação ao casamento interétnico de um seu colega afro-descendente. Dentro dessa perspectiva de “aprimoramento genético”, é que, outrora, no Brasil rural, em contraponto à rotina dos coronéis “tombando” negras nos canaviais, alguns proprietários afro-mestiços mandavam buscar nas grandes cidades, homens “brancos” e alfabetizados para a eles entregarem suas filhas em casamento.Acreditava-se, aí, como expressou no 1º. Congresso Universal de Raças em Londres, 1911, o então diretor do Museu Nacional brasileiro que, no Brasil, a mestiçagem da população a levaria ao total embranquecimnto em cem anos, o que evidentemente não ocorreu.

O caso é que, na sociedade brasileira, salvo raríssimas exceções conhecidas, a efetiva mestiçagem da população quase que só se verifica nos estratos mais baixos, entre aqueles que não têm acesso à mobilidade social ascendente. Então, ela é sempre um fator de perpetuação da exclusão. Certamente por isso é que o conservadorismo e o racismo atuais a defendem, inclusive usando o exemplo impertinente do norte-americano Barack Obama. E digo ainda: no Brasil, quando o mestiço, pende mais, na aparência para o tipo caucásico ou levantino, com cabelos pretos ou castanhos, ele passa a ser visto como “moreno” – mas, aí, em sentido diferente do aplicado a esse termo, por exemplo, na região do Prata, onde um moreno é efetivamente um negro.

Por isso, repetimos que toda discussão sobre justiça social no Brasil tem que passar, sempre, pelo enfoque étnico. E esse enfoque é aquele que destaca a afirmação da identidade de cada grupo formador da sociedade brasileira. Não fosse assim, nossa Constituição não disporia sobre a proteção das culturas de todos os grupos “participantes do processo civilizatório nacional", descendo à minúcia de abordar a “fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais”. Se, na luta por melhores condições sociais, a afirmação da identidade afro-descendente carecesse de sentido, também não se justificaria a existência dos milhares de associações étnicas ou nacionais, tanto recreativas quanto assistenciais e beneficentes que aglutinam, legitimamente, milhares de pessoas e famílias por todas as grandes cidades brasileiras. Associações estas tão mais fortes e politicamente influentes quanto maior seja o poder econômico dos que as criaram e mantém.

A idéia, então, de que o Brasil teria o destino de ser a mais mestiça entre todas as nações do planeta deve ser vista com cautela. Pois se essa mestiçagem continuar ocorrendo apenas ou majoritariamente na base da pirâmide, a distribuição da renda, do poder e da influência política nunca irão se alterar. Nossa pobreza continuará sendo vista apenas como um fato econômico, quando não, uma “fatalidade”; e nossa real inserção no todo da sociedade jamais será completa.

Para felicidade geral, não aconteceu, no Brasil, o que se previa em 1911. Mas, em compensação, nunca mais nossa comunidade pôde ver crescerem, em seu seio, afro-mestiços proeminentes como o regente Lima e Silva, pai do Duque de Caxias, ou os presidentes Deodoro da Fonseca, Rodrigues Alves e Nilo Peçanha, para ficar só nesses simples exemplos de poder político – hoje tão distantes para nós quanto o recorrente sonho de um “Barack Obama brasileiro”.




Segunda-feira, Junho 09, 2008



AS VIDAS SECAS DO MENINO GRACILIANO

Nosso Dicionário Literário Afro-Brasileiro (Pallas Ed., 2007) vai de vento em popa. E esses ventos nos levam já a pensar numa segunda edição aumentada. Para tanto, desde o ano passado, entre uma leitura e outra, fazemos anotações interessantes. Como agora, relendo Infância, livro de memórias de Graciliano Ramos.

Nascido em 1892, apenas quatro anos após a abolição da escravatura, e criado numa família patriarcal, em cidades do interior de Alagoas e Pernambuco, é óbvio que o grande escritor não poderia ficar imune à influência desse meio. É, então, que vamos verificar, na descrição de alguns personagens com os quais conviveu, impressões, conceitos e fatos contundentes, como os seguintes. Vejam só!

MARIA DO Ó – No interior de Alagoas, em 1900, é a professora do autor, então com cerca de oito anos de idade, descrita como “mulata fosca (...) branqueada de pó-de-arroz”, forte, bruta e violenta. Sua escola era na própria casa, onde vivia com três irmãs mais velhas “miúdas e cor de piche”, as quais, à época da escravidão, haviam sido mucamas de luxo e, segundo a percepção do autor, “tinham decerto adquirido em senzala o veneno que destilavam”. Esse “veneno” era sentido por Graciliano principalmente em relação à sua prima Adelaide, menina de boa condição social e sua colega de classe, que só não fora estudar num grande centro por excesso de zelo dos pais. A professora e suas tias procuravam humilhar Adelaide, mandando-a limpar a sala e executar outros serviços de criada. Então, pela cabeça do futuro autor de Vidas Secas, passava um pensamento, assim verbalizado: se “lugar de negro era na cozinha (...) por quê então Maria do Ó e suas tias tinham saído de lá, vindo para a sala, puxar as orelhas de Adelaide?”.

MARIA MOLECA – Criada da casa do menino Graciliano, era considerada por ele como “escrava voluntária, porque não tinha onde empregar a liberdade”. Tinha a natureza da mãe, “intratável e vagabunda”. Mas dissimulava, trabalhando “morna, fechada, isenta de camaradagens, esperando ganhar asas e voar”, o que um dia conseguiu. Uma de suas obrigações era, à noite, lavar os pés do senhor, avô do autor , e enxugá-las numa toalha. E o fazia de cócoras, como realizava outras tarefas domésticas e necessidades, como dormir “arrimada à parede”. Maria Moleca nunca era tratada ou chamada pelo nome e, sim, pelo vocativo “negra”.

MOLEQUE JOSÉ – Irmão de Maria Moleca e também criado, tentando viver em harmonia na casa, mostrava-se comunicativo, simulando uma falsa alegria. Quando apanhado em falta, mentia, escorregadio. E, quando surrado, gemia, pedia, prometia, mas não chorava; e, assim, era admirado e imitado pelo futuro autor de Memórias do Cárcere. Um dia, inquirido, pelo pai do autor, sobre um malfeito, Moleque José negava-o com veemência, mesmo sob tortura. Então, vendo-o alçado “pelas orelhas”, o menino Graciliano , para ajudar o pai a obter a confissão do negrinho, pegou uma acha de lenha em brasa e a encostou na sola do pé de José que “berrou com desespero”. O castigo do pai, então se voltou contra ele também.

VITÓRIA – Também “escrava voluntária” como Maria Moleca, é descrita como “virgem murcha”, irritadiça e resmungona. Entretanto, mesmo com uma lesão, na perna ou na coluna vertebral, que às vezes a impedia de andar, executava “trabalhos duros de homem”. E apesar de envelhecida, encarquilhada , era uma “ruína valente e obstinada”, afigurando-se como refúgio, defesa e proteção das crianças da família, numa “esquisita expressão de maternidade gora [apodrecida, estragada; que gorou]”. Morreu subitamente, vomitando sangue, entre utensílios e gêneros de alimentação, num cômodo de serviço da casa.

Vidas secas, não, caro visitante do Lote!?




Quinta-feira, Junho 05, 2008
Terça-feira, Junho 03, 2008



MINHA ARTE DE AMAR

"As flores jamais vão procurar saber de onde vêm seus olores..." (Zé Luiz & Nei Lopes) (Foto: Dona Sonia)




Segunda-feira, Junho 02, 2008



SAUDADES DO MAESTRO CIPÓ

Orlando Costa, o Maestro Cipó (1922-1992) foi um dos maiores músicos brasileiros. Virtuose do sax-tenor, foi também compositor, arranjador e chefe de orquestra dos mais prestigiados. Autor de melodias e orquestrações de jingles e trilhas sonoras que marcaram época, compôs também para o cinema e teve atuação destacada na televisão, à frente de sua orquestra, notadamente no programa de Flávio Cavalcanti, nos anos 70. Mas esse aí da foto, cumprimentando o chinês Li Changchung, em 2006, embora pareça muito, não é ele, não! É - desculpem - o político e educador cubano Estebán Lazo Hernández, nascido em 1944 e atual VICE-PRESIDENTE da República de Cuba, além de membro destacado do partido comunista em seu país.
Gostaram da "pegadinha"?