Quarta-feira, Setembro 26, 2007



E VIVA A ZÉ PEREIRA!

O Lote acaba de ser agraciado com um exemplar do nº 2 da revista mensal "Zé Pereira", ixperrta, malandra, sacana, mordaz, engajada, muito engraçada... e custando só 2 real.

Abrindo os trabalhos, um texto da pesada do cineasta Terêncio Porto mete o dedo na ferida das badalações programadas para o bicentenário da chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil. Esse evento histórico teria inaugurado, segundo ele, o "farinha pouca meu pirão primeiro" até hoje vigente no Brasil; e que, pra nós, é primo da "Lei de Murici", aquela que extrapolou da cidade alagoana dos Calheiros para todo o Brasil, a partir da Capital Federal.

Depois, a Zé Pereira manda uma tremenda reportagem investigativa sobre o negócio da compra e venda de cabelo humano na Praça Tiradentes. Estarrecedora! Aí, vem uma história em quadrinhos do Allan Siber sobre o "Hitler no Leblon".

Nessa, o Hitler, que forjou a própria morte, mora no Leblon e atende pelo apelido de Seu Dodô. Mas não toma jeito. Tanto que, indo uma noite à Lapa se encanta com a música e manda lá uma frase definitiva: "O bom e velho samba de raiz... E o melhor: SEM NEGRROS!". O mais engraçado é que o arianíssimo conjunto canta um samba dos nossos parceiros Wilson Moreira e Zeca Pagodinho, ao qual Seu Dodô faz coro, com o maior sotaque: "Judia do mim, Judia! / Que eu não ser merrecedor/ dessa amor...". Muito engraçado!

Finalmente, uma coluna assinada (grata surpresa!) por uma jovem jornalista da família, a sobrinha Zaira Brilhante, que o é no sobrenome e nos estudos. Trata-se de uma coluna chamada "Ilustre Desconhecido" em que ela entrevista, nesta edição, um nego-véio de Vila Isabel, agora com 98 anos.

A certa altura, Seu Matias, o entrevistado, conta do seu casamento. Indo se confessar, o padre da igreja de N.Sra. de Lourdes pergunta: "Você é sócio do Vila Isabel, não é? Então, vai lá menino, não precisa se confessar".

Não sei se a Zaira sabe mas a A.A.Vila Isabel, o popular "Vilinha", foi fundado por militares na época do general Zenóbio da Costa, que era vizinho. Com a missão de oferecer recreação mas também ensinar moral, civismo e bons costumes ao bairro boêmio de Noel, o clube bem que tentou. Mas perdeu, perdeu!

E viva a Zé Pereira!




Sexta-feira, Setembro 21, 2007



FILIPÃO, MEU COMPADRÃO

Ele foi, sem dúvida, uma das grandes personalidades do mundo do samba. No chapelão de panamá, na calça de linho, no blusão semi-aberto entremostrando as guias, na ginga, na capanga embaixo do braço, qualquer um que o olhasse, logo identificaria: - Ali vai um sambista!

Passou, é claro, o pão que o diabo amassou. E, segundo dizia, foi ser “polícia”, concursado, porque cansou de ser esculachado e resolveu ver como era o “outro lado”. E, aí, a cara negra de poucos amigos, os dentes de ouro do sorriso só reservado para os mais chegados, foi um policial honesto, justo, cumpridor da lei e dos seus deveres, por isso aposentou-se pobre. Quase como era, do “lado de lá”.

Meu compadre Filipão, portelense com raiz no Império de Campo Grande, foi, sem sombra de dúvida, uma das grandes figuras do mundo do samba. Nos engraçadíssimos casos que contava (um deles, inclusive, o tornou personagem de um conto do mestre Muniz Sodré), nos poucos mas definitivos sambas de sua autoria (como o “tartaruga em fatia” gravado pelo nosso Walter Alfaiate; e outros do repertório de Bezerra da Silva), no falar absolutamente peculiar, inventando palavras, criando coisas inimagináveis, como seu mito de origem:

- Meu nome é Oinotna Epilef Ed Ojuara (“Antonio Felipe de Araújo”, ao contrário). Sou filho de caboclo do mato com italiana. Por isso é que eu falo assim, com a língua pegada.

Conhecemo-nos no Quilombo, o sonho de Candeia, em 1976. Descobrimos afinidades além da música, pois Filipão era também “da curimba”, compositor de pontos e pai-de-santo com seu gongá no terreno familiar em Campo Grande, onde sempre morou e viveu o samba, sendo lá cofundido por suas três identidades, a de policial, a de sambista e a de chefe umbandista.

- Não! Esse Filipão não conheço não, senhor. Eu conheço o “Gorila”.

- Gorila? Não, senhor. O que eu sei é conhecido aqui como “Filipão”.

- Gorila? Filipão? Não, senhor. O que mora ali é o Seu Antônio. Seu Antônio da Dona Xanda.

No Quilombo, logo nos tornamos “compadres”, tomando nossos “biricuticos” e “xinaipes” mas tratando-nos mutuamente por “senhor”, como é tradição entre os velhos sambistas. E ele dizia, trocadilhando generoso, que o velhote aqui não era um compadre qualquer e, sim, um “com-padrão”, ou seja, um compadre com padrão, de alta qualidade.

Grande figura o Compadrão, que nos deixou no último 19 de setembro! Ele, que dizia ser “um negro de 200 anos” partiu antes de completar 80. Mas deixando, com toda a certeza, um algo diferente na alma daqueles que tiveram a oportunidade de conhecer sua verve, sua alegria e sua singularidade. Grande sambista que deixa sobretudo uma grande saudade.

E aí, agora, imagino o Filipão chegando no céu e pedindo licença com o brado que iniciava a interpretação de seus sambas e que foi confessadamente imitado pelo puxador Quinzinho, quando no Império Serrano:

- Rrrrrrrrrrrrrrrrrrriiiiiiiiiipaaaaaaaaaaaaa !!!

São Pedro, certamente, vai morrer de rir. E abrir alas para dar passagem ao anjo (da Guarda) Antonio Felipe de Araújo, meu querido compadre Filipão.




Quarta-feira, Setembro 19, 2007



CREATIVE COMMONS NO LOTE

Na última segunda-feira demos um pulinho lá na Matriz, pra cuidar de uns assuntos relativos à Cultura aqui do Lote.
Aí, o presidente nos pegou pelo pé e nos fez falar sobre um assunto chato paca, que é Direito Autoral.
- É verdade que o direito autoral lá no seu Lote é "vale-tudo"? - perguntou ele, ao que prontamente replicamos.
- Não, Excelência! Tá tudo nos conformes.
- Mas disseram no Globo que "a gestão coletiva dos direitos autorais, lá, é feita por editoras e gravadoras".
- Quê que é isso, Mister? Quem falou isso escutou o cock cantar e não sabe onde.
- Dizem também que estão "dotando o Estado de ferramentas para controlar e fiscalizar o direito autoral, garantir o recebimento a seus titulares".
- Eu hein?! Tá doido, sô? O Direito Autoral é um dos direitos de cidadania e seu âmbito é privado. Quem controla e fiscaliza são s autores do Lote, através de suas sociedades de gestão.
- Disseram que lá, quando se compra um aparelho de copiagem de CD, por exemplo, a cota que indeniza os autores sobre as cópias já está embutida no preço.
- Ah, meu sinhô, quem dera! Os autores do Lote lutam por isso há anos, mas "os hômi" nunca deixaram essa lei pegar.
- Mas a Lei Autoral de lá está ultrapassada, não está?
- Que nada, Seu Bush! Tudo o que se precisa ela tem: cessão, licenciamento, doação, empréstimo, aluguel... tá tudo lá no capitulo V, "Da Transferência dos Direitos de Autor". Quem quiser dar o que é seu, que dê: ninguém tem nada com isso!
- Como é então que ficam dizendo que lá no seu Lote é tudo engessado, que precisa "flexibilizar", abrir, arreganhar...
- Perdoai, meu sinhô! Eles não sabem o que dizem. São uns "criativos comuns".

***

O Bush não entendeu nada. Mas também quem manda se meter nesses assuntos complicados?




Quinta-feira, Setembro 13, 2007



FATO CONSUMADO:
DJAVAN DESPETALA A FLOR-DE-LIS E TOCA FOGO NO CAPIM DO CERRADO


Na segunda metade da década de 1970, com as gravações de Fato Consumado (75), Flor-de-Lis (76) e Cerrado (78), Djavan, um jovem negro da periferia de Maceió, AL, balançava as estruturas da música popular brasileira, trazendo para o seio da “flor amorosa” mais uma das muitas possibilidades do samba.

Era a sincopação dos anos 40 levada a extremos que nem a bossa-nova ousara. Era o samba entortado e ainda mais balançado que o do “balanço zona sul” de Orlann Divo e seu chaveiro – que, aliás, está de volta. Era, enfim, o samba feito para dançar. E os frutos dessa safra bendita são, até hoje, mais de 30 anos passados, presença obrigatória no repertório de qualquer bom baile (e não arrasta-pé) que se preze.

Mas esse samba radicalmente sincopado de Djavan parece que só agradava, pelo menos no Rio, àquela parcela da população que, por razões econômicas, de moradia e de oportunidades, permanece afastada do chamado “circuito cultural”, que vai dos aeroportos aos vernissages; dos teatros às livrarias; e que, da zona sul pra cá, chega no máximo até a Candelária. Enxergando, certamente, poucas possibilidades de mercado junto a esse público de “duros”, a indústria fonográfica transnacional, pelo que supomos, parece ter convencido Djavan a jogar seu irresistível sincopado fora para produzir uma obra mais alinhada com o pop-rock hoje hegemonicamente vigente em escala planetária. Aí, o Djavan internacionalizado chegou até Stevie Wonder, Carmen McRae, Al Jarreau e Manhattan Transfer. No que fez muito bem, também achamos. Só que nós aí, literalmente, perdemos o rebolado.

Agora, lançando um novo disco (ainda não ouvimos, mas temos certeza de que é bom), Djavan volta ao samba, saúda animadoramente a Cidade Maravilhosa numa letra de levantamento da auto-estima dos cariocas e, em entrevista a O Globo (09.09.07), dispara contra os detratores de sua estética:

“– A questão é que não admitem que um nordestino, negro, filho de uma lavadeira, nascido num gueto de Maceió, no segundo estado mais pobre do Brasil, possa ter um olhar amplo e pessoal das coisas.”

E arremata Djavan, do alto de suas já venerandas tranças, jogando na lata do entrevistador aquela pergunta que todos nós fazemos há muito tempo:

“ – Você já percebeu que não existem críticos negros nas redações? Seja de música, literatura, cinema, teatro... O Brasil avançou pouco nesse campo.; um exemplo como o de Joaquim Barbosa (...) é exceção entre nós”.

A afirmação e a pergunta de Djavan – aliás, lançadas no momento em que algumas colunas de amenidades tentam desqualificar o ministro Barbosa, mostrando-o como um “famoso” deslumbrado – ficam no ar. E suas respectivas respostas podem ser a chave para entendermos porque se procura também desqualificar todo samba que busca se renovar a partir da reprodução de suas próprias células e não beijando a mão do rap, do funk, da moda hip-hop enfim.

Através do que disse Djavan, podemos pelos menos intuir o porquê de o músico negro brasileiro, quando pensa e se posiciona criticamente, ser sempre tornado invisível pela mídia dominante. E podemos finalmente ter uma idéia, nesse caso específico, do quanto é importante termos, nas faculdades de Comunicação e correlatas, tantos afro-descendentes quanto aqueles que, nas redações, nos estúdios, nos espaços onde hoje se produz, comercializa e avalia a verdadeira Cultura Nacional, servem cafezinho, fazem faxina, levam mensagens, carregam equipamentos e fazem segurança.




Segunda-feira, Setembro 10, 2007



TREZE CORDAS MÁGICAS E AS ADORÁVEIS DE DORINA

No arquivo fotográfico do Lote há uma série muito interessante de registros, atestado de grandes amizades. São pagodes, pagodes, pagodes e o sambista lá, sempre muito bem acompanhado de um mesmo violonista, aos 17 anos de idade, aos 19, 23, 27 etc etc etc.

O músico é nosso compadre Carlinhos Sete Cordas (compadre mesmo e não "cumpádi", por conta do batismo católico de seu primogênito Hudson, hoje músico e ás do basquete) , seguramente dono do "sete" no samba brasileiro hoje.

Em algumas dessas fotos, Carlinhos aparece, conosco, ao lado de um também grande e velho amigo-parceiro (com muito, pouco e finalmente nenhum cabelo), o ultravirtuoso Cláudio Jorge, craque do "seis" e da guitarra. E vários desses registros foram feitos em Irajá, bairro onde fomos mais ou menos vizinhos da excelente Dorina, dona de um dos melhores conjuntos de cordas vocais do samba de agora.

Pois os três gravaram um CD espetacular, chamado "O Violão e o Samba", no qual está lá o nosso "Samba do Irajá", que faz referência ao pinho do nosso saudoso Seu Luiz Braz Lopes.

O Lote recomenda o CD, cujo show de lançamento rola hoje, dia 10, na Modern Sound. E envia três fortes abraços para essas três sinceras amizades: Carlinhos Sete Cordas, que vimos crescer como artista e como homem; Cláudio Jorge, parceiro e confidente, de música, boemia e filosofagens; e a adorável Dorina, vizinha de fé, intérprete e camarada.

E viva o Samba!




Quinta-feira, Setembro 06, 2007



TIO JIMBO, O BAMBA, BOMBA NA LAPA DO SAMBA

No último dia 5, o livrinho "Histórias do Tio Jimbo" foi lançado na Lapa, lugar que o próprio personagem, velho esperto e antenado que é, escolheu pra festa. E a farra (vinhozinho bacana e paparutes nos conformes) foi organizada pela Mazza Edições juntamente com a KITÁBU LIVRARIA NEGRA, a primeira casa do gênero, no Rio, voltada exclusivamente para a literatura afro-originada, com ênfase na produção de autores afro-descendentes.

A KITÁBU, onde brilha a simpatia da escritora Fernanda Felisberto (na foto, a de oclinhos), funciona na loja de um antigo prédio assobradado no número 17 da rua Joaquim Silva, perto do Passeio Público, do IHGB e do simpaticíssimo "Beco do Rato", point da rapaziada. No sobrado, onde rolou a festa, trabalha, integrado à livraria, a dinâmica equipe do Espaço Recordatório Arte e Educação.

Segundo seus proprietários, a KITÁBU "é um espaço de encontro da expressividade literária afro-brasileira.Sua missão é divulgar e fortalecer as produções literárias ficcionais e não-ficcionais voltadas ao universo africano, afro-descendente e, em especial, afro-brasileiro. Para tanto, busca promover um estreito e constante diálogo entre público leitor seus e suas autoras de referência. "

E o Tio Jimbo, o afro-coroa, cheio de manha, completa com os endereços "para contato", como ele diz:

Kitabu Livraria Negra
Kitabulivraria@gmail.com
kitabulivraria.wordpress.com
Tel: 5521- 2224-9847/ 8887-0576
Rua Joaquim Silva, 17 Lapa, RJ




Segunda-feira, Setembro 03, 2007



ALÔ, GENTE, VAMO NESSA, QUE ESSA É DO LOTE!