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Segunda-feira, Julho 31, 2006
O ROCK BRASILEIRO É COISA SÉRIA Durante algum tempo, nós aqui no Lote achamos que o Rock-Brasil era brincadeira de garoto. Como a da gente, nos anos 50, quando aprendeu que o pencil estava sempre on the table e que o floor of the classroom era square. Mas agora estamos vendo que a coisa é muito mais séria. E essa constatação começa ao lermos, numa coletânea de contos, um do músico Tony Bellotto que começa assim: "A má notícia é que o pó tinha acabado [sic]. A boa, estávamos em Presidente Prudente, rota dos contrabandistas e traficantes que saem do Paraguai e Mato Grosso pra desovar mercadorias no estado de São Paulo. Eu dividia o quarto com outro guitarrista da banda, Thiago. Ele também não cogitava fazer o show de cara limpa. Ligamos pro nosso roadie, Billy, e ele consegui o telefone do traficante." Roadie, para quem não sabe, é o cambono dos roqueiros. E até aí nada de mais, pois a trama se passa no campo da ficção. Só que, neste sábado, 29 de julho, lemos na capa do Segundo Caderno de O Globo, em matéria de Luiz André Alzer sobre o grupo Titãs, a informação: "Em novembro de 1985, ele [Arnaldo Antunes, letrista e cantor] e Bellotto foram presos com heroína. Bellotto ficou apenas uma noite na cadeia, mas Arnaldo - que havia passado a droga para o guitarrista - foi enquadrado como traficante e amargou 26 dias atrás das grades. O vocalista só foi libertado após um penoso trabalho do advogado contratado pela banda, Márcio Thomaz Bastos, hoje ministro da Justiça". Foi aí que, ante a perplexidade geral, a comadre, completou meu copinho de geléia com cerveja Baixa Renda e sentenciou: - É, meu Velho... Rock brasileiro não é brincadeirinha, não! É coisa de gente grande! Quinta-feira, Julho 27, 2006
BREVE, EM TODAS AS LIVRARIAS Vem aí, em agosto, pela Record, o nosso Vinte Contos, cuja belíssima capa, feita pelo craque Victor Burton, ilustra esta nota. E aí vai acabar aquele papo chato de "onde é que eu encontro teu livro?". Fora isso, penso, sinceramente, que é um livro que vem desmentir aqueles que acham que não existe uma literatura negra no Brasil. Da mesma forma que grandes escritores mundiais, e mesmo alguns brasileiros, se inscrevem, por exemplo, no âmbito de uma literatura judaica, porque escrevem a partir de sua experiência étnica e cultural, existem, sim, escritores afro-descendentes que partem de sua experiência de afro-brasileiros, porque vivem intensamente sua afro-brasilidade e fazem-na transparecer em sua escritura. E o Velhote do Lote é um deles. O livro o que mais retrata, além das transformações que a vida carioca sofreu, é o que se passou no universo do samba, que deixou de ser cultura e arte negra (a instituição escola de samba nasceu para legitimar o que artisticamente os negros cariocas produziam) para ser uma outra coisa. Boa pra uns, pra outros nem tanto... E, pra nós, tudo se perdeu em nome dessa entidade chamada estranhamente de "mercado". Antigamente "mercado" era espaço de socialização; hoje, é isso que a gente vê aí. Salvou-se o Mercadão de Madureira e olhe lá... Mas vamos esperar o livro. Em agosto, em todas as livrarias. Todas, mesmo! Terça-feira, Julho 25, 2006
TANTINHO E A "PUJANÇA DA NATURA" Em 1955, no desfile da Presidente Vargas, a Estação Primeira cantava a Natureza, num belo e clássico samba, do sorridente Nelson Sargento em parceria com seu padrasto Alfredo Português e u'a maõzinha do Jamelão; samba esse que a certa altura dizia assim: "Outono, estação singela e pura/ é a pujança da Natura/ dando frutos em profusão...". Mais de cinqüenta anos depois, chega às boas livrarias, charutarias e cafés elegantes (às lojas de discos "é ruim" chegar) o maravilhoso cântico à verde-rosa - essa árvore frondosa cujos frutos todos são aproveitados; esse jequitibá do samba - organizado pelo grande cantor, compositor e improvisador Tantinho da Mangueira. Trata-se de um CD duplo com 32 faixas garimpadas entre mais de cento e tantos sambas por essa figura ímpar que é o meu amigo Devanir Ferreira (seu nome no babilaque), que não esperou o devenir e foi fazendo, por sua conta. Conta a lenda que Tantinho, ele mesmo, fez um panelão de angu à baiana e sentou embaixo do viaduto da Mangueira com um gravador. Aí, a cada um que entrava na fila pro rango, ele exigia 1 kg de sambas não-perecíveis, alimento da alma. E aí armou essa espécie de bolsa-família ao contrário - porque, no caso, os beneficiados somos nós, seu grande público. Fisicamente, Tantinho é uma versão compactada do Wilson Moreira (se fosse um soul brother, rapper ou hip-hopper, seu nome artístico poderia ser Compact Wilson). E a semelhança se estende também ao talento, ao caráter, à doçura - qualidades moldadas "na braba", na favela, na escola da malandragem mas também na escola profissionalizante, onde desenvolveu o espírito nato e a criatividade de artífice, artesão e produtor de cultura. "Tantinho, Memória em Verde e Rosa" é uma compilação que já nasce antológica. De 32 sambas que representam o puro suco do terreiro da Manga. Frutos perfumados, com a pujança do patrocínio da Natura, a dos cosméticos, a qual, graças à Lei Rouanet bancou o sonho ousado do neguinho do velho bloco Olha Essa Língua, rival do Chuca-Chuca, brabeza do Esqueleto. Que é compositor desde sempre e não "bissexto" como disse um repórter. "Bissexto" como? Nos CDs, Tantinho assina 5 faixas, com ou sem parceiros. E cria versos para sambas só de primeira. Como tem criado sempre. Com ou sem a pujança da Natura. Quarta-feira, Julho 19, 2006
O SHOPPING E O SAMBA Assim como a literatura, a música popular brasileira é um campo fértil para a disseminação do preconceito e das visões estereotipadas. E a confirmação dessa idéia me chega dias depois da 2ª Conferência de Intelectuais Africanos e da Diáspora, em Salvador, na qual estive presente; no auge das discussões sobre o Estatuto da Igualdade Racial; e por conta da reportagem "bom burguês" matéria de capa do Segundo Caderno de O Globo no dia 16 de julho último, um domingo. A matéria veio a propósito do novo disco do cantor, compositor e instrumentista Jorge Aragão, carioca e afro-descendente, apresentado como "um dos sambistas mais queridos do Brasil" e toma como gancho (título e lead) o fato de que o artista, "quem diria?, gosta mesmo é de shopping center". A lógica dessa afirmação remonta a 1968, ano em que era gravado, com grande sucesso, o "Samba do crioulo doido", de autoria do humorista Stanislaw Ponte Preta, heterônimo do jornalista e jazzófilo Sérgio Porto. O "crioulo doido" em questão era um compositor de escola de samba, um sambista portanto, enlouquecido pelas exigências de um enredo sobre a História do Brasil. E, a partir daí, o tipo criado pelo inefável "sobrinho da Tia Zulmira" veio somar-se a uma galeria construída desde pelo menos o século 19, onde já despontavam a "mãe-preta", dócil, carinhosa, excelente cozinheira e contadora de histórias, mãe-substituta na família patriarcal; o "pai-joão", velho e fiel escravo, resignado em seu sofrimento; o "escravo martirizado"; o "preto de alma branca"; o "mulato pernóstico"; o "negão", violento, facinoroso, estuprador; a "mulata boazuda"; o "malandro" etc., etc., etc. São tipos catalogados, desde Roger Bastide, na década de 1950, por vários autores que pesquisaram as representações e os lugares reservados ao ser humano negro na sociedade brasileira - lugares entre os quais esteve, durante muito tempo, a escola de samba e os produtores da arte negra que nela se fazia. Arte que se transformou deixando, entretanto, gravada no imaginário geral a figura do sambista, da velha-guarda à bateria, associada a vários desses estereótipos acima apresentados. Por sua vez, o shopping center , um dos ícones da cultura de massa em nosso tempo, tanto que chega a ser entusiasticamente definido como "templo do consumo", tornou-se, de poucos anos para cá, na visão de muitos, um espaço de excelência, da mesma forma que teatros e salas de concertos, museus e exposições de arte, desfiles de moda, restaurantes e aeroportos, lugares em que, mesmo nas grandes capitais brasileiras, a presença negra ainda é rara (exceção para os profissionais do esporte e do entretenimento) e causa espanto. E não é à toa que, numa espécie de acordo tácito, os administradores de shoppings recusam-se a programar espetáculos ou audições de samba nas costumeiras programações de suas "praças de alimentação". Porém o caso é que "o sambista de timbre especial" Jorge Aragão, "pasmem, adora ir a um shopping" - diz o texto da reportagem. Faltou dizer, talvez, que ele sabe ler e escrever, aprecia bons vinhos, veste roupas finas, usa computador, comunica-se por e-mail, ou seja, faz tudo o que se poderia esperar de um artista da "MPB", mesmo daqueles que cantam samba. Mas aí não teria graça nenhuma... Terça-feira, Julho 18, 2006
O DESENHO É DO BRUNO E NINGUÉM TASCA! Nosso Lote ficou meio sem graça com esse negócio de Copa do Mundo, né? Acho que convém a gente dar um tempo no futebol e defender outros direitos. Como, por exemplo, o do meu amigo Bruno, 19 aninhos, neguinho morador ali nas bocadas do Urubu, reduto dos Caprichosos. Acontece que o Bruno, "assessor especial" da Livraria Folha Seca, a único do Rio especializada em cultura carioca (R. do Ouvidor 37) é um tremendo desenhista. E na Folha, reduto de gente boa e petalógica, na melhor tradição das livrarias das antigas, conheceu o artista Cássio Loredano, que dispensa apresentações. Um toque daqui, outro dali, o Bruno vai indo, indo, indo em frente e para o alto, sob a proteção de São Loredano. Tanto que desenhou uma tremendo portrait do não menos grande Hermínio Velho do Cabelo Bello. Honrado e devidamente autorizado, HBC pegou o retrato e tascou lá, entre outros, no luxuoso estojo que envolve a caixa de CDs comemorativa dos seus 70 anos, que estão sendo celebrados desde março do ano passado. Só que o Bruno esqueceu de assinar. E aí, já viu né? Na comunidade, ele chega pros colegas do Urubu, mostra, diz que foi ele que fez e os caras mandam: - Qualé, maluco? É ruim, hein!? Caô pra cima da gente? Tu vê aí, moleque! Na escola, Bruno mostra pra professora e ela doutrina: - Meu filho: a mentira é um dos piores vícios que um jovem pode desenvolver. Não faça isso, não, Bruninho! Deixe de fabulações... Na igreja (aí a gente imagina, pois o Bruno não tem cara de crente), o pastor diz pra ele, dedo em riste: - Arrependei-vos, pecador nefando! Aos cascateiros nunca será dado o Reino dos Céus (Lucas, parada 1:32) Pois é essa a situação do nosso Bruno, grande artista, vilipendiado e vítima de injúrias de ordem autoral. O Lote então inicia a campanha, com base na Lei Autoral, no sentido da recuperação do moral do Bruno. Esperamos contar com a interveniência do Hermínio e do Loredano - além do Rodrigo e da Daniela, claro - atestando para os devidos fins que o desenho é do Bruno, sim, e ninguém tasca. Porque segundo o art. 24 da Lei 9610, "São direitos morais do autor: I - o de reivindicar, a qualquer tempo, a autoria da obra; II - o de ter seu nome, pseudônimo ou sinal convencional indicado ou anunciado, como sendo o do autor, na utilização de sua obra;"
CANÇÃO DO MONTE CONSELHO Rio Vermelho: Iemanjá se mira Em seu líquido espelho De búzios e luzes Quando a voz atroz Dublando Jeová Adverte Iemanjá Num tom grisalho, velho: "Arrependei-vos E crede no Evangelho!" Iemanjá mira a voz Do estranho Salvador E só ouve rancor Da arrogância da fala Então, cala O marulho das ondas E indaga a Olodumare Se é d'Ele aquela voz De adaga cega. Ante a negativa Interroga Olorum: - Ah! De jeito nenhum! E por fim Pergunta a Olofim. Três vezes dito não Iemanjá regurgita em negro vagalhão Cacos de ideologias naufragadas Restos de arianismos submersos Libambos bambos. Em sua túnica hipócrita Ensopada Da golfada marítima O Jeová impostor Entre apupos e sambas De roda e de chulas Toma do saco de dracmas Desce o Monte Conselho Deixa a cena, dramático Histérico Vociferando hipérboles, Eclipses, apocalipses. E a paz retorna azul Ao Rio Vermelho. (Bahia, 13.07.06) Segunda-feira, Julho 17, 2006
FUTEBOL E MÚSICA POPULAR BRASILEIRA Do amadorismo à economia globalizada Parte 9 - final Negócios, Negócios, Negócios O fenômeno que atende, hoje, pelo nome de "globalização" configura, na verdade, o expansionismo sem limites das corporações transnacionais, voltado principalmente para a economia das populosas nações do hemisfério sul. "Acima das fronteiras estabelecidas, nos séculos anteriores pelos Estados-nação - teoriza a Enciclopédia do Mundo Contemporâneo - as empresas transnacionais promovem a estrutura de poder que torna realidade a idéia da aldeia global. A centralização das decisões e as crescentes fusões lhes permitem expandir-se geograficamente em busca de menores custos de produção e maiores mercados". Assim, chegado o século 2I, a economia globalizada reforçou, de forma às vezes até truculenta, na música popular e no futebol, a presença das grandes corporações transnacionais, atuantes no mercado do entretenimento. No ano 2000, duas comissões parlamentares de inquérito investigavam dirigentes do futebol brasileiro suspeitos de falsificação de passaportes para facilitar a exportação de jogadores, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. E, no balanço do ano, a indústria fonográfica estimava que, de cerca de 40% dos CDs vendidos no Brasil era fruto de falsificação, pirataria e contrabando. Em julho de 2003, o já citado compositor Fernando Brant circularizava na Internet carta em que fazia a seguinte denúncia: "As gravadoras multinacionais nunca fizeram nada na questão autoral., apesar de participarem, sem luta, de 50% dos direitos conexos por nós arrecadado. Nada fizeram e agora querem embolar o meio-de-campo. (...) Reunidos em Miami, os chefes das gravadoras multinacionais resolveram intervir no direito autoral musical do Brasil. As gravadoras e suas editoras se juntaram para lotear uma pequena sociedade autoral (...) e, a partir dela, destruir tudo o que os compositores criaram nesses anos. Querem que nossos direitos sejam geridos de fora, por eles. E o pior é que elas estão recebendo apoio da sociedade de autores espanhóis, SGAE". Por essa mesma época, o campeão mundial de clubes é o espanhol Real Madrid, (também campeão da Europa) clube que desde 1998, juntamente com o Valencia e o Barcelona concentram grandes contingentes de jogadores egressos do Brasil e de outros países do Terceiro Mundo. E isto num contexto em que o governo espanhol apóia firmemente a formação de empresas multinacionais, incentivando altos investimentos, principalmente na América Latina . Jogador que marcou o maior número de gols em uma única partida do Campeonato Brasileiro (seis contra o União de Araras, em 1997), Edmundo Alves de Souza Neto, nos gramados conhecido apenas como Edmundo e cognominado, por sua garra, "Animal", também tem sua carreira, por diversos caminhos, ligada à música popular. Participante dos desfiles da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, em 2003, Edmundo, então atuando no Vasco, contava em entrevista à revista Placar (edição nº 1260, São Paulo, julho de 2003) manter no seu agora restrito círculo de amizades o casal Caetano Veloso. Na mesma edição da revista, o meia baiano Edílson, o "Capetinha", então no Flamengo, declarava que gostaria mesmo é de ser músico e que deposita grandes esperanças na sua gravadora, a "Ed 10". Saiba-se que, além de Edilson, vários outros jogadores são, no momento da elaboração deste texto e notadamente nos segmentos mercadológicos conhecidos como "pagode" e "axé", donos de conjuntos musicais profissionais, cujos integrantes são contratados como prestadores de serviços, sendo inclusive obrigados a ceder os direitos a que fazem jus por suas interpretações, na conformidade da legislação autoral brasileira. Acrescente-se, ainda, que a produção musical nos segmentos mencionados é sempre direcionada para o monotematismo da música globalizada. Contra a diversidade, essa orientação desaprova referências nacionais, étnicas, de gênero, a diversidade enfim. Tornando hegemônica a temática do amor sensual, idealizado ou contrariado, ela - é óbvio - não quer saber de jogar bola. Finalizando, ousamos dizer que no Brasil de hoje, infelizmente, com o povo ainda vivendo bem mal, futebol e música popular são, muito além do "amor à camisa" (ou à fantasia) ou dos prazeres inefáveis de cantar, tocar ou "bater uma bolinha", apenas negócios. E, como negócios, às vezes lícitos e prazerosos. Outras vezes, nem tanto. Quinta-feira, Julho 13, 2006
FUTEBOL E MÚSICA POPULAR BRASILEIRA Do amadorismo à economia globalizada Parte 8 Dondon versus Marketing Nos anos de 1980 a 1990 a crise ainda envolve o futebol brasileiro. Nas três copas realizadas nesse período, o Brasil se coloca, respectivamente, em quinto, novamente em quinto e, finalmente, em um surpreendente e vergonhoso nono lugar. O ano de 1980 marca o início da carreira, em disco, do cantor Neguinho da Beija-Flor, intérprete oficial da escola de samba de Nilópolis. Um de seus maiores sucessos vai ser um samba cuja letra diz: "Domingo eu vou Maracanã/ Pra torcer pro time que eu sou fã/ Vou levar foguetes e bandeiras...". O samba, de forte apelo popular, tem apenas uma parte, terminando com a frase ¿E o nome dele (do time) /São vocês que vão dizer", à qual segue-se um solfejo ("ô,ô, ô, ô") no qual o torcedor encaixa, geralmente em duas notas, o nome ou apelido do time de sua preferência - "Vasco", "Mengo", "Fogo" etc. Nos preparativos da Copa de 1982, o craque Júnior, lateral-esquerdo da seleção, gravava em disco o samba Voa, Canarinho, de Memeco e Nonô, conseguindo até um ¿disco de ouro¿ pelas vendagens do compacto. Mas o "canarinho", apelido carinhoso dado pela imprensa à equipe, perdeu a Copa da Espanha, vencida pela Itália. E enquanto, nos estádios, a massa de desfavorecidos continuava a sonorizar os jogos com batucadas e refrões como o de Neguinho, as gravadores multinacionais aliadas à grande mídia, procuravam moldar, cada vez mais agressivamente, o gosto popular às chamadas "tendências" musicais internacionais. Foi assim que, bem ao lado, do "maior estádio do mundo", no chamado "Maracanãzinho", realizou-se em 1985, um ano depois da explosão internacional de Michael Jackson, com grande afluência de público, o espetáculo denominado "Rock in Rio". E os novos ídolos do rock brasileiro, como Cazuza, Renato Russo etc, não privilegiavam o futebol em suas canções. Paralelamente a isso, entretanto, ganhava força, a partir do Rio, uma nova forma de fazer e apresentar o velho samba, batizada como "pagode" que consolidou o nome do Grupo Fundo de Quintal e lançou aquele que se tornaria, mais tarde, uma das maiores unanimidades da música popular brasileira, o sambista botafoguense Zeca Pagodinho. Um ano depois da Copa do México, Zeca Pagodinho lança, no LP "Patota de Cosme", um samba, da lavra do autor deste artigo, cuja letra assim se inicia: "No tempo que Dondon jogava no Andaraí/ nossa vida era mais simples de viver/ não tinha tanto miserê/ não tinha tanto tititi/ No tempo que Dondon jogava no Andaraí...". Com o sucesso dessa gravação, a expressão contida no título do samba, Tempo de Dondon, ganhou larga circulação, passando a ser usada para qualificar um tempo remoto, sem que, entretanto, os usuários identificassem o personagem. Tratava-se de referência a Antônio de Paula, o Dondon, zagueiro do carioca Andaraí Atlético Clube, nos anos de 1930, antes da profissionalização do futebol, e que viveu até meados da década de 90. O Andaraí disputou os campeonatos da Associação Metropolitana de Esportes Atléticos, com Botafogo, Bangu, Fluminense, Flamengo, América, São Cristóvão e outros. Mas a década de 1990 chegava com novidades. O "tempo de Dondon" já se passara e o mais importante era esquecer a seleção de Sebastião Lazzaroni, o técnico do nono lugar, e partir para a luta. E a vitória afinal chegou em 1994, nos Estados Unidos, na final disputada por pênaltis contra a Itália. Ainda nos ecos da quarta conquista da Copa do Mundo pelo Brasil, o popularíssimo C. R. Flamengo comemorava seu centenário em 1995. E isso motivava, além do enredo "Uma Vez Flamengo", da escola de samba Estácio de Sá, um registro histórico, em CD, feito pela Saci, Sociedade de Artistas e Compositores Independentes Ltda. O disco, chamado "Estácio & Flamengo, 100 Anos de Samba e Amor", celebrava também o centenário do carioquísimo bairro do Estácio, um dos berços do samba, e incluía obras de grandes compositores, desde o nunca assaz citado Wilson Batista até a dupla João Bosco e Aldir Blanc. Outro registro importante, tematizando o futebol, foi o CD "Contra-ataque; samba e futebol", feito pelo compositor e cantor paulistano Carlinhos Vergueiro, quatro anos mais tarde. No carnaval de 1997, a avenida dos desfiles do samba aplaudia o enredo "A São Clemente Bota Fogo na Sapucaí", em homenagem ao bairro da zona sul carioca e ao clube de mesmo nome. No ano seguinte, entretanto, como que antevendo o insucesso na final da Copa, contra a França, a Sapucaí (como também é hoje popularmente conhecida a "avenida") vaiava estrepitosamente o enredo "De Gama a Vasco, a Epopéia da Tijuca", incomodada, ao que consta, pela desagradável presença de um certo dirigente vascaíno que encomendara, à escola de samba Unidos da Tijuca, aquela homenagem ao centenário do tradicional clube da colônia lusitana carioca . Apupos à parte, vamos, então, observar que, chegado o século 21, e já revogada a lei do passe, cresce, no futebol, a figura do empresário. Antes, as negociações para compra de jogadores eram feitas de clube para clube, com os "cartolas" comerciando entre si, os direitos de seus "produtos". Agora, o agente futebolístico não tem mais receio de assumir que seu objetivo é colocar os jogadores no futebol europeu, num negócio que movimenta milhões, e abocanhando sua parte no bolo. Nesse ambiente a Copa do Mundo passa a ser, cada vez mais, um evento vitrine para o marketing desportivo. Tanto assim que, da equipe brasileira que se sagra campeã no Japão e na Coréia do Sul em 2002 (depois de preparativos em que contabilizou 6 derrotas em 18 jogos), quase todos os jogadores consolidam ou firmam contratos milionários com clubes estrangeiros. Quinta-feira, Julho 06, 2006
PARREIRA E A POMADINHA JAPONESA Manja aquela pomadinha japonesa que os camelôs vendiam na Central? Pois é...Tá aqui no jornal que um gel com a mesma finalidade está sendo desenvolvido na Inglaterra e vai poder ser vendido até sem receita médica. Quem chega com a grande novidade no Convenção de Genebra, o mais afamado reduto da disfunção erétil daqui de perto do Lote é o Romário, que joga nos Veteranos da Veterinária e entende paca do assunto. Ouvindo isso, o Parreira, que estava murcho, murcho, num canto, se anima um pouquinho. E eu explico: Parreira é o apelido de um Veterano da Agronomia, especializado em plantação de uvas mas que, de repente, não se sabe por quê, virou um bagaço... - Já fizeram experiência com macaco e deu certo. Mas macaco, sabe como é que, né? Só pensa em sacanagem. Então, agora estão recrutando homens para as experiências. - conclui o Romário, no que o Zé Galo, ainda mais murcho que o Parreira, fala, a voz quase inaudível: - Parece que o Filipão tá nessa. Filipão, explico de novo, é um ex-cliente aqui do Convenção que saiu da lama e agora só vai de açaí com granola. Mas, nessa, o Moraci, que mora aqui mas bebe ali, do outro lado da rua, confirma: - Filipão fez a experiência, sim! E chegou na semifinal. - Como assim? - pergunta o Romário. - É que na hora xis, quando parecia que ia pra prorrogação, Dona Itália, a patroa dele, foi primeiro e ele não conseguiu acompanhar. Aí, ele ficou molenga outra vez. Parreira, tristinho, não conseguiu nem mover os pequenos lábios. Mas pensou um palavrão cabeludo, que eu li no seu pensamento. Terça-feira, Julho 04, 2006
FUTEBOL E MÚSICA POPULAR BRASILEIRA Do amadorismo à economia globalizada Parte 7 Do Carnegie Hall ao Capitão Coutinho Nascido com o claro intuito de modernizar o samba, aproximando-o do jazz e da canção popular norte-americana., em novembro de 1962, o movimento da bossa-nova chega ao palco do Carnegie Hall novaiorquino. Nesse evento, confuso e não tão bem sucedido como desejavam seus organizadores, os jovens compositores bossa-novistas tentaram, nos bastidores, à última hora, segundo o historiador José Ramos Tinhorão , impedir a apresentação da cantora de samba tradicional, Carmem Costa, do seu acompanhante José Paulo e do violonista Bola Sete - este, radicando-se, a partir daí, nos Estados Unidos onde gozou de excelente conceito artístico até sua morte, em 1987. No mesmo ano do Carnegie Hall, a avenida dos desfiles das escolas de samba é pela primeira vez fechada, para cobrança de ingressos. E, na Copa do Chile a grande cantora Elza Soares é uma espécie de artista representante de nossa música junto aos atletas. É aí que Elza conhece Garrincha, com quem depois vai se casar. Sobre esse relacionamento, o massagista Mário Américo, em suas memórias, assim se expressou: "O seu romance [de Garrincha] com Elza Soares começou na Vila Rica, em campos do Jordão, onde estávamos concentrados para a Copa do Chile. Houve um show do Clube dos artistas, do Aírton Rodrigues, e Elza compareceu junto com muitos outros artistas. (...) Creio que foi amor à primeira vista, pois logo que ela entrou no palco os dois não pararam mais de se olhar. Depois do show, desapareceram, e foi um corre-corre danado á procura deles. (...) Depois se reencontaram no Chile. Elza foi a Santiago para uma série de shows com o Louis Armstrong (...). Durante todo o dia não saía da concentração. Era vigiada constantemente, mas não impedida de entrar, e isso durou até a partida final." Mas o importante é que o Brasil sagrou-se bicampeão. E o povo comemorou com muito samba. Samba que ganharia, no ano seguinte, um de seus palcos mais importantes, que foi o do restaurante Zicartola, onde, inclusive, surgiu para o grande público o talento do vascaíno Paulinho da Viola, herdeiro da melhor tradição do samba e do choro. O Zicartola dura até 1965, ano em que começa o sucesso do também vascaíno Roberto Carlos, primeiro ídolo de massas criado pela televisão brasileira. Com ele, nascem a estética da chamada "Jovem Guarda", que inicia o rock brasileiro, o qual parece sempre ter estado mais associado a "esportes radicais" do que ao futebol. Mas nesse mesmo ano, desponta o imenso talento do já mencionado Chico Buarque, artista tão identificado com o esporte a ponto de ser dono de um campo de futebol "soçaite" e manter uma equipe de amigos, o Polytheama F.C. Da lavra de Chico é O Futebol, de 1989, uma das mais ricas letras de música compostas sobre o tema, e que diz: "Para estufar esse filó/ Como eu sonhei/ Só/ Se eu fosse o Rei/ Para tirar efeito igual/ Ao jogador/ Qual compositor/ Para aplicar uma firula exata/ Que pintor/ Para emplacar em que pinacoteca, nega/ Pintura mais fundamental/ Que um chute a gol/ Com precisão/ De flecha e folha seca/ Parafusar algum João/ Na lateral/ Não/ Quando é fatal Para avisar a finta enfim/ Quando não é/ Sim/ No contrapé/ Para avançar na vaga geometria/ O corredor/ Na paralela do impossível, minha nega/ No sentimento diagonal/ Do homem-gol/ Rasgando o chão/ E costurando a linha/Parábola do homem comum/ Roçando o céu/ Um senhor chapéu/ Para delírio das gerais/ No coliseu mas/ Que rei sou eu/ Para anular a natural catimba/ Do cantor/ Paralisando esta canção capenga, nega/ Para captar o visual/ De um chute a gol/ E a emoção/ Da idéia quando ginga/ (Para Mané para Didi para Mane/ Mané para Didi para / Mané para Didi para/ Pagão para Pelé e Canhoteiro)". Chega-se, então, à Copa de 1966, a qual, segundo a Enciclopédia Globo , "revelou o fim do futebol clássico, com o surgimento de um estilo mais forte e solidário, e representado melhor pela Europa (...)"; e na qual a seleção sul-americana mais bem classificada foi a da Argentina. Começava, aí, na música popular brasileira, a efervescência da "Era dos Festivais". Assim, no segundo Festival da TV Record, em São Paulo, 1967, o compositor Sérgio Ricardo apresentava o samba Beto Bom de Bola, primorosa e elaborada composição que conta a história de um craque cuja carreira se eclipsou. A segunda parte do samba é a narração de um jogo. O samba foi vaiado pelo auditório. Sérgio Ricardo, tomado de fúria descontrolada, quebrou o violão e o atirou sobre a platéia, num dos episódios mais dramáticos e grotescos da música popular brasileira. Ainda em plena vigência da ditadura militar e da "era dos festivais", surge o movimento batizado de Tropicalismo. Projetando nacionalmente o compositor Caetano Veloso, a "marcha-pop" Alegria, Alegria atraiu a atenção das vanguardas concretistas e do universo do rock. Mas como concretista e "roqueiro" parece não gostarem muito de futebol... Também no cenário dos festivais, em 1968, surge Martinho da Vila, que mais tarde, revelando musicalmente sua preferência futebolística, vai gravar um buliçoso Calango Vascaíno. Também nesse ano e nesse ambiente, surge o cantor e compositor Milton Nascimento, para se tornar, também, um dos grandes nomes da música popular brasileira. Em 1969 toma posse na presidência da República o general Garrastazu Médici, ditador truculento que se utiliza do futebol como um meio importante de manipulação das massas e exerce forte censura sobre a música popular. Nesse ano, o tropicalista Gilberto Gil, rumo ao exílio em Londres, despede-se do Brasil com o samba Aquele Abraço em que, aludindo ao bairro suburbano onde esteve preso e evocando o futebol como rima e solução, canta: "Alô, alô, Realengo, aquele abraço! Alô, torcida do Flamengo, aquele abraço!". O advento da década de 1970 é o marco inicial das ações estratégicas em direção à internacionalização da música popular brasileira. Os últimos festivais apontam para essa tendência, com canções, autores e intérpretes como O Amor é Meu País (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza), Jesus Cristo (Roberto e Erasmo Carlos), BR-3 (Antonio Adolfo e Tibério Gaspar), London, London (Caetano Veloso) etc. Por esse tempo, segundo o jornalista Nelson Motta , "os jovens brasileiros estavam obcecados com a idéia de termos o nosso próprio Woodstock". Era um tempo, então, de muito "paz e amor" e, conseqüentemente, muito pouca bola. Os generais brasileiros comandavam tudo, inclusive o esporte. E, sinceramente contrários à utilização do futebol como instrumento da ditadura ou por simples modismo, os autores Milton Nascimento e Fernando Brant compõem Aqui é o País do futebol, um samba com letra vazada nos seguintes termos: "Brasil está vazio nas tardes de domingo, né? / Olha o sambão, aqui é o país do futebol/ No fundo deste país ao longo das avenidas/ Nos campos de terra e grama/ Brasil é só futebol nestes noventa minutos/ De emoção e alegria/ Esqueço a casa e o trabalho / A vida fica lá fora /Aa fome fica lá fora/ E tudo fica lá fora..." Mas, apesar de todo esse clima, a equipe brasileira conquista pela terceira vez o campeonato mundial em 1970, no México. E, aí, o compositor e publicitário Miguel Gustavo consagra um de seus maiores sucessos, que é a marchinha Pra Frente Brasil que, de simples "jingle", encomendado por uma cerveja patrocinadora de transmissões esportivas, acabou por se tornar uma espécie de hino informal da seleção brasileira de futebol. Nos ecos da Copa, com o grande Mané Garrincha já em plena decadência, Alberto Luís compõe, inspirado na tragédia pessoal do craque, a Balada nº 7 (Mané Garrincha), canção de forte apelo emocional, popularizada na voz do humorista e cantor Moacir Franco: "Cadê você, cadê você, cadê você? Você passou..." - diz o refrão. Em 1972, um fato inusitado cruza, novamente os caminho do futebol e da música popular. Nesse ano, o cantor e compositor Jorge Ben, depois Jorge Ben Jor, resolve homenagear o jogador Fio, do Flamengo, e arranja uma tremenda dor de cabeça. João Batista Sales, o Fio, tornou-se conhecido por alternar jogadas geniais com lances às vezes risíveis, sendo, não obstante, um dos grandes ídolos da numerosa torcida do C. R. Flamengo. A homenagem, através da animada canção "Fio Maravilha" ganhou em 1972 o VII Festival da Canção da Rede Globo. Entretanto, o homenageado, provavelmente industriado por advogado inescrupuloso, processou o cantor pedindo indenização pelo uso indevido do nome. Perdeu a causa e a homenagem. E o intérprete, em represália, transferiu a honraria, rebatizando a canção como Filho Maravilha. No ano seguinte a essa homenagem mal sucedida, uma outra, bem mais feliz: Gilberto Gil, num samba metalinguístico, bem a seu feitio, saúda Afonsinho, ex-craque do Botafogo, celebrizado como líder na luta contra a escravidão do passe dos jogadores de futebol. O samba é Meio de Campo: "Meu caro amigo Afonsinho (...) / a perfeição é uma meta/ defendida pelo goleiro/ que joga na seleção/ e eu não sou Mané nem nada/ muito menos sou um Tostão/Fazer um gol nessa partida não é fácil, meu irmão" - diz a letra. Aliás, bem mais elaborada que, por exemplo, a do samba Camisa Dez que, na voz do cantor paulistano Luiz Américo e homenageando Pelé, fez relativo sucesso nesse ano. Na Copa da Alemanha, em 1974, o Brasil, com um futebol medíocre, chega apenas em quarto lugar. A crise motiva intervenção federal na Confederação de Futebol e a saída de João Havelange. Em 1978, com o técnico Cláudio Coutinho, capitão do Exército, chega em terceiro: o futebol, contaminado pela rigidez pretensamente "moderna" da ditadura militar, e procurando copiar modelos europeus, vai acumulando derrotas, com equipes quase sempre, por acaso ou não, fenotipicamente embranquecidas. No samba, ocorre fenômeno paralelo, com a ascensão da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis a partir de um carnaval de exaltação às realizações dos governos militares; e a opção, na maior parte das grandes escolas, por um modelo empresarial de gestão que vai privilegiar o espetáculo em detrimento da tradição e afastar os antigos sambistas do centro das decisões. Mas, apesar disso, a União da Ilha ainda conseguia falar em futebol, no seu magnífico desfile "Domingo", em 1977. E a boa música popular, no seu sentido mais amplo, continuava bebendo nas melhores fontes; como provam os compositores João Bosco, flamenguista, e Aldir Blanc, vascaíno, nos hilariantes e filosóficos sambas Incompatibilidade de Gênios, de 1976 ("Doutor,/ Jogava o Flamengo e eu queria escutar...") ; e Gol Anulado: "Quando você gritou 'Mengo' / No segundo gol do Zico/ / Tirei sem pensar o cinto / E bati até cansar./ Três anos vivendo juntos/ E eu sempre disse contente / Minha preta é uma rainha/ Porque não teme o batente / Se garante na cozinha / E ainda é Vasco doente./ Daquele gol até hoje / Meu rádio está desligado / Como se irradiasse o silêncio/ De um amor terminado / Eu aprendi que a alegria / De quem está apaixonado/ É como a falsa euforia / De um gol anulado". |
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